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Carnavalizar, do verbo “ser feliz faça chuva ou faça sol”


Reza a lenda que eram dias de Carnaval quando ela chegou a este mundo e que por isso tinha por hábito passear pela vida ao ritmo frenético do frevo. Nascera sob o signo de aquário e carregava no ombro esquerdo a marca protetora da Rainha do Mar. O seu nome fora escolhido pela irmã mais velha, desígnio que até bem pouco tempo desconhecia, como forma encontrada pela velha matriarca daquela família de apaziguar o coração da outrora princesa da casa que, muito embora ainda desejasse brincar com as suas bonecas, viu-se obrigada a amadurecer antes do tempo e prover os cuidados necessários à pequena criatura de bochechas rechonchudas e gargalhada doce que acabara de chegar. Ana seria o seu nome!

Consta que aprendera a sorrir desde que foi dada à luz e que, portanto, era sempre tão difícil renegar a sua essência de menina-carnaval. Chovia torrencialmente naquela manhã de fevereiro no Velho Continente e o gélido vento norte insistia em assobiar uma repetição melancólica à beira da sua janela. Era ainda da sua cama que apreciava a força com que a Mãe Natureza viera anunciar a chegada do seu dia. Espreguiçou-se, olhou para o relógio que impiedosamente avançava as horas, repassou mentalmente os passos imprescindíveis na sua rotineira ginástica matinal. Saltou da cama que, afinal, o café quente já estava à sua espera. E o dia também!

E enquanto sorvia o negro néctar, fazia contas com o tempo: mais um ano havia passado, portanto. Trezentos e sessenta e cinco dias e seis horas desde a sua última primavera. Dizem que a Menina sentia sempre o peito carregado com quê de estranheza ao passar o seu réveillon particular na companhia de tão mau tempo. Isso por que, vinda dos trópicos, era sempre ao sabor do calor e ao som dos tambores do maracatu que costumava raiar “O” dia dela. Contudo, o tilintar dos pingos de chuva na janela do seu quarto e o ribombar dos trovões que lá fora ecoavam eram os únicos sons que preenchiam as suas primeiras horas naquele dia.

Mas contra todas as expectativas, ainda assim sorria! Sorria por que, otimista por natureza, em tudo via um lado bom. Talvez por vir de uma terra de pouca chuva, aprendera desde cedo que se o céu era subitamente preenchido com nuvens carregadas em tons de cinza a prenunciar tempestades… era sempre um bom motivo para se celebrar. Desta feita, enquanto acabava as suas tarefas corriqueiras, antes mesmo de seguir para mais uma jornada, ela brincava de fantasiar que a incessante chuva matinal não caía à toa: vinha com o propósito monumental de por fim na aridez dos seus dias. Para ela, chuva era sinal de fartura. “Depois da tempestade vem sempre a bonança, dona Ana Cláudia!”, era o que diria a sua mãe.

E se os trovões perpetuavam o seu batucar lá fora, a Menina de alma tupiniquim optava sempre por meter o seu bloco na rua e dançar aos sons daqueles tambores divinais. Feita de frevo e de samba, comemorava primaveras, proclamava carnavais “fora de época”, deste e do outro lado do Atlântico. Toda prosa, sempre que necessário, enfeitava a chuva com poesia. Caçadora inexorável de arco-íris, ela era feliz, portanto!

CAssis, a Menina Digital

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