Menina Digital

Ela esperava, esperava… Mas ele nunca vinha!



O mau tempo lá fora não ajudava em nada para amainar a tempestade que assolava o peito dela há dias. Chovia há demasiado tempo. Lá fora e nos olhos dela. Nunca desejara tão intensamente que chegasse, enfim, a primavera. Lá fora… e também dentro dela!

Relembrava os dias de sol à beira mar, das ondas geladas do Atlântico a banhar-lhe os pés, do cheiro da maresia a invadir-lhe os sentidos, das mãos dadas e do amor entorpecente que, meio como tempestade tropical, chegara sem avisar. Era também verdade que o mesmo tórrido amor dos dias ensolarados também partira sem fazer alarde ou grandes despedidas.

Mantinha guardada até hoje a pequena nota escrita às pressas pelo amor de outrora. Não era por manias masoquistas que a Menina decidira preservar aquele pequeno pedaço de papel com um simples “Foi eterno enquanto durou, minha menina!”. Tão pouco era por ser do seu agrado recordar que até mesmo um mero beijo de “adeus” lhe fora usurpado. Guardava aquela nota como uma espécie de lembrete diário de que talvez [e só talvez!] fosse necessário reconstruir muralhas peito a dentro, por que alguém havia de pensar em proteger aquele pobre coração.

E sentada naquela estação, esperava por um trem imaginário que lhe trouxesse [quem sabe?!] o seu cavaleiro andante. Esperava por pura malandragem, pois já sabia bem que era em vão que sonhava aqueles sonhos. Perdeu a conta dos trens que vira chegar e partir naquela manhã chuvosa. Desejara ao menos uma vez na vida ser dona de um coração duro, intransponível. Desejara à toa, pois bem sabia que, cedo ou tarde, a sua natureza a empurraria com toda a força ladeira a baixo rumo ao penhasco no amor, restando-lhe tão somente a hipótese de rezar para nunca chegar ao chão.

Desta feita, enquanto sorria de si mesma, levantou-se e seguiu com a sua vida, pois esperar nunca fora mesmo o seu forte. Com sorte, ainda acabava por encontrar o amor na estação seguinte. Arriscaria-se mais uma vez, portanto!

CAssis, a Menina Digital

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