Ciência

Medicamento diurético previne o autismo em roedores


As crianças afetadas pelo autismo geralmente demonstram os sintomas mais flagrantes do transtorno, como a dificuldade em manter contato visual e o lento desenvolvimento da linguagem, um ano (ou mais) após nascerem. Uma pesquisa com ratos e camundongos aponta para a possibilidade de que um tratamento pré-natal previna esses problemas nos roedores.

As descobertas, publicadas ontem (06) na revista Science, não sugerem, no entanto, que as desordens do espectro autista possam ser prevenidas nas crianças. Apesar disso, pesquisadores não envolvidos no novo estudo afirmam que ele sustenta um experimento clínico cuja conclusão indicou que algumas crianças autistas se beneficiaram do consumo de um medicamento diurético comum chamado bumetanida.

No experimento em questão, realizado por uma equipe liderada pelo neurocientista Yehezkel Ben-Ari, no Instituto Mediterrâneo de Neurobiologia em Marselha, França, um grupo de 60 crianças recebeu doses diárias de bumetanida ou de um placebo. Após três meses de ingestão do fármaco, as crianças que apresentavam formas menos severas de autismo tiveram seu comportamento social ligeiramente melhorado, e quase nenhum efeito colateral foi observado. Não obstante o aparente sucesso, cientistas que revisaram o procedimento alertaram quanto à falta nele de um mecanismo biológico claro que pudesse explicar como a droga amenizou os sintomas do transtorno psicológico.

O estudo mais atual objetiva responder às críticas através da identificação da função do neurotransmissor GABA (ácido gama-aminobutírico). Trabalhos com humanos e outros animais sugerem que o GABA, inibidor da atividade neuronal em pessoas saudáveis, é alterado pelo autismo, passando a ativar algumas células cerebrais. A hipótese de Bem-Ari era a de que o neurotransmissor sofria avarias na época do nascimento, quando os neurônios que o produzem no cérebro em desenvolvimento devem, normalmente, mudar o projeto de ativação de neurônios para o de inibição, sendo tal mudança provocada pela queda na concentração de íons cloreto nos neurônios.

A bumetanida reduz os níveis de cloreto nas células e pode, portanto, restaurar a função inibidora do GABA, diminuindo também os sintomas do autismo. Para dar suporte à hipótese, a equipe de Bem-Ari empregou dois modelos animais de autismo: camundongos com uma mutação em um gene do cromossomo X que, nas crianças, causa a síndrome do X frágil (uma forma de autismo); e ratos expostos — dentro dos úteros das mães — a um medicamento anticonvulsivo utilizado na prevenção e no tratamento de crises convulsivas e epilépticas.

Descobriu-se que, nos dois roedores modelos, os neurônios de uma região do cérebro conhecida como hipocampo (na imagem de destaque acima, na direção da seta) permanecia excitatória (afeita à atividade neuronal, na prática, o contrário de inibitória) depois do nascimento como resultado da ação do GABA, e continha níveis mais elevados de íons cloreto do que os observados em roedores normais.

Entretanto, os problemas dos quais sofriam os roedores foram revertidos quando suas mães ingeriram a bumetanida um dia antes de darem à luz. O comportamento dos filhotes passou a apresentar menos sintomas de autismo. Segundo Bem-Ari, as crias têm “mais GABA, baixo cloreto” e “menos problemas comportamentais”. Por exemplo, os ratos e camundongos eram mais vocais, ou seja, produziam sons mais típicos de roedores saudáveis.

Possível tratamento?

Elizabeth Berry-Kravis, neurologista pediátrica do Centro Médico da Universidade Rush em Chicago, diz que o estudo atual condiz indiretamente com os resultados do experimento clínico com a bumetanida. Porém, ela é cautelosa quanto à aplicação da substância em humanos, uma vez que existem diferenças substanciais entre o desenvolvimento de um ser humano e de um roedor: ratos e camundongos nascem quando se encontram em um estágio de desenvolvimento mais avançado do que os humanos, para citar um exemplo.

“Este artigo não nos diz que ‘tudo bem, temos o tratamento para o autismo'”, afirma ela. Elizabeth acrescenta que, enquanto não realizarmos um amplo experimento em humanos, não saberemos se é possível tratá-los a partir do momento em que for feito o diagnóstico. Este tipo de teste está sendo efetuado por pesquisadores europeus em diversos centros médicos. Ben-Ari é diretor executivo da Neurochlore, empresa marselhesa que desenvolve tratamentos para o transtorno e que vem financiando os experimentos.

Já Andrew Zimmerman, especialista em neurologia pediátrica da Faculdade de Medicina da Universidade de Massachusetts e coautor de um comentário que acompanha o artigo, afirma que necessitamos melhores formas de diagnóstico para identificar as crianças que podem vir a manifestar o autismo antes mesmo de pensarmos em como evitar esta condição.

Fonte: Nature

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