Análise

Análise – The Witcher 3, Playstation 4


Podia fazer todo um preâmbulo de introdução ao The Witcher 3, testado numa Playstation 4, que não referisse de alguma forma o positivo ou negativo desta análise, mas o jogo da CD Projekt Red merece toda a minha sinceridade, pelo que cá vai: Este é um dos melhores jogos da década, senão de sempre. Se não o têm, parem de ler imediatamente e vão comprá-lo!

Ainda estão aí? Óptimo. Esta é a minha primeira análise, pelo que preciso de estabelecer algumas regras. Primeiro, vou dividir a reflexão em 5 categorias: Guião, Gráficos, Banda-Sonora, Jogabilidade e Diversão. Cada uma terá uma pontuação de 1 a 100, em que o 100 é a pontuação mais alta. O resultado total pode não derivar de qualquer tipo de média destes valores, por causa da última e mais importante regra – é a minha opinião e a minha visão sobre o jogo.

Comecemos com o guião.

Guião

É como ler um livro rico em pequenas histórias. Um dos grandes síndromes da massificação da popularidade da indústria dos videojogos reside justamente na forma como cada vez mais se estruturam estes títulos como grandes produções vindas de Hollywood. Grandes explosões, grandes armas, grandes gráficos, grandes emoções. O enredo aqui torna-se um elemento totalmente secundário.

Se continuarmos com esta analogia cinematográfica (e vou continuar, believe me), podemos comparar o conteúdo do enredo do Witcher 3 com a da Europa mais a Leste. Os temas deixam de ser a grandiosidade, a missão quase sem paralelo e de salvação mundial de um homem só – o herói solitário americano –  para o constatar da inevitabilidade do destino e de como, à sua luz, ninguém é invencível, ninguém tem prioridade, ninguém lhe escapa.

Seria demasiado redutor dizer que a história do Witcher 3 se resume à procura de Geralt por Cirilla, a jovem com poderes magníficos derivados da sua linhagem e perseguida exaustivamente pela Wild Hunt, espíritos maléficos. Não. É a história de como um Barão, velho soldado, não conseguiu ultrapassar os traumas das batalhas sem a ajuda do álcool que lhe destrói as relações familiares de forma mais ou menos irremediável; É a história de como um homem das artes, habituado à irresponsabilidade da sua juventude terminada, se vê arrebatado pela primeira vez por uma mulher que o completa, só se apercebendo disso quando precisa de abdicar dos seus sonhos pessoais para tratar do bem-estar dela; É a história dos que morrem, das minorias, por causa dum ideal fanático surgido nas brumas da insegurança dos tempos de guerra.

Em resumo, é a vida. Geralt não é mais do que um elemento observador. Claro que interagimos com todas estas personagens e conseguimos ter algum impacto nas suas vidas. Contudo, o seu destino está, à partida, traçado. Por vezes as nossas escolhas podem balançar entre o mau e o menos mau. Mas a sensação que dá é que não há plot-twists mágicos, nenhum Deus Ex Machina – é inevitável, o nosso Witcher vive num mundo que não precisa de heróis. Vive num mundo assustadoramente real. E desbravar as suas pequenas histórias é arrebatador.

Gráficos

Vou contar uma história que acaba por resumir a sensação que tive com os gráficos do Witcher 3. No outro dia, fui ao Guincho. Para quem conhece a zona das praias, sabe que existem uns carreiros com madeira para podermos atravessar pelas dunas até ao areal. Enquanto passava por lá, olhava para os lados, para as inúmeras plantas e ervas daninhas que cresciam por entre a areia e pensei – bolas, este cenário é-me tão familiar! Só quando a minha namorada referiu, por acaso, o Witcher, é que me ocorreu logo a semelhança.

Claro que não estamos a falar de gráficos que emulem na perfeição a vida real. Mas a imersão é igual. Convido-vos a testar esta imersão em Velen. Saiam de cima do vosso cavalo, não corram. Caminhem apenas por entre as ervas. Ao lado das árvores. Principalmente se o fizerem ao amanhecer. Os efeitos de luz, a retirar quase toda a visibilidade dependendo do ângulo de visão, são de cortar a respiração.

Os bugs… Enfim, existem. São os únicos momentos onde se quebra a relação entre o jogo e o jogador e nos relembramos que tudo não passa de dados dentro de um CD. Por vezes, são pequenos – uma personagem que não devia estar em determinada posição, por exemplo – mas encontrei alguns do piorio. Um criou-me um clone da Priscilla. Outro bloqueou-me entre dois caixotes. Já fiquei preso numa poça, nos pântanos. De resto, a apresentação deixa-nos sem palavras.

O pequeno “grande” problema deste jogo, infelizmente, está no tamanho dos textos. Existe demasiada informação no ecrã que obriga a jogadores que estejam a jogar numa televisão de pequenas polegadas, como eu, a fazer um esforço enorme para conseguir ler determinados textos ou ver informação no mini-mapa. Quem jogue este jogo numa televisão de grandes polegadas, 60” para cima, partilhe connosco se é diferente ou não.

 

Banda-Sonora

Por favor, comecem a ouvir a partir do minuto 11:13. A música em questão surge quando batalhamos algum tipo de monstro em Velen, uma das regiões do jogo. A toada medieval está cá. O toque mais europeu, mais de leste, também está presente nos instrumentos utilizados. A percussão aumenta a tensão, mas o arrepiar, o que torna qualquer embate um duelo que dita sem limites a vida ou morte da nossa personagem são os vocais. Não são líricos, exageradamente barrocos. São quase tribais, simples. Como um grito de guerra entoado para animar as tropas antes de uma grande batalha.

As restantes músicas pairam um pouco por esta simbiose entre a calmaria da vasta secção de cordas, com o aumentar da emoção da batalha presente nas batidas sufocantes e poderosas dos instrumentos de percussão. Fazem, justamente, aquilo que uma banda-sonora deve fazer – um tapete belo o suficiente para repararmos nele, mas não esplendoroso demais, para não roubar o foco daquilo que é justamente o mais importante, o jogo.

 

Jogabilidade

A palavra-chave aqui é variedade. Desde corridas de cavalos, jogos de cartas, contractos onde temos que investigar pistas e interrogar testemunhas para percebermos que tipo de fera teremos que matar, caças ao tesouros – enfim, existe imenso para fazer e várias formas de o fazer. A progressão de nível está bem estruturada e não incorre nos erros da maior parte dos RPG’s. Os caminhos estão bem definidos e não é possível tornar o nosso Geralt num Deus da morte completamente irrealista e invencível. Para além disso, a captura dos ingredientes para as diversas poções, bombas, óleos e decocções ajuda-nos a construir mais instrumentos variados para alcançar os nossos objectivos. Sem esquecer, claro, que apesar de conseguirmos utilizar estes bónus para melhorar temporariamente as nossas capacidades, o nosso limite de toxicidade impede-nos de consumir todas ao mesmo tempo – ou seja, há sempre um limite na nossa invencibilidade, dando um desafio maior às batalhas que encontramos.

Os movimentos são fluídos e o combate depende muito da capacidade do jogador, ao invés de cair num facilitismo do combo X-X-X. Dependendo da forma como evoluirmos o Geralt, podemos ser mais adeptos dum combate à distância suportado por signos e flechas, um combate mais corpo-a-corpo melhorando os nossos pontos físicos ou mais defensivo, melhorando as nossas barreiras e poções. A escolha, efectivamente, é nossa e é simples perceber e alterar pontuações se virmos que determinado caminho não nos satisfaz.

Diversão

O meu save pessoal, que não foi o utilizado para esta análise, conta actualmente com 70 horas de jogo. Eu ainda não saí de Skellige. Entre investigar todos os pontos de interesse, todas as quests secundárias, fazer novas armas, novas armaduras, poções, conhecer sítios novos e explorar este mundo – este jogo tem diversão para todos os gostos. Ao contrário de títulos como Skyrim, que vive bastante dos mods dos jogadores e da sua vastidão de inimigos e equipamentos aleatórios, aqui a beleza está em querer saber-se tudo sobre o universo Witcher. Tanto pela beleza da escrita, como pelos gráficos soberbos, como pela jogabilidade apurada.

Conclusão, este é, seguramente, um dos melhores RPG’s jamais feitos, um dos que reservou desde já o seu lugar de honra junto de pesos pesados da história dos videojogos como Final Fantasy VII, Legend of Zelda: Ocarina of Time, Fallout 3, Mass Effect, The Elder Scrolls V: Skyrim. ​Geralt é um profissional, efectivamente, e era o RPG que precisávamos. Agora por favor, larguem este texto e vão jogar mais um bocado de Witcher 3. É o que vou fazer.

Guião
Gráficos
Banda-Sonora
Jogabilidade
Diversão
Pensamentos finais

Estamos perante um clássico dos videojogos e um dos melhores RPG's de sempre. Não é todos os dias que podemos jogar um título que nos apaixone tanto pelas personagens, pelo mundo, pelo seu enredo.

Classificação 5

4 comentários em Análise – The Witcher 3, Playstation 4

  1. João Pereira

    Bom dia Carlos,
    Não sou um fã de jogos, mas a forma como escreveu a análise deixou-me muito curioso com vontade de experimentar.
    Parabéns pelo artigo e votos de muito sucesso!

    • Carlos Duarte Carlos Duarte

      Olá João, como está?

      Muito obrigado pelos elogios, de coração, fico muito feliz por ter gostado do artigo. Acredite que este jogo merece bastante o seu tempo e atenção. Se não gostar da parte mais “jogável”, existem diversos Let’s Play no Youtube que lhe permitem ver o enredo mais calmamente. Se quiser posso recomendar-lhe dois ou três Youtubers muito porreiros 🙂

      Um abraço!

  2. Concordo com tudo nesta critica. Sou um fa incondicional de “the legend of zelda” e estou neste momento a jogar Skyward sword, twilight princess e wind waker, Curiosamente o que mais me esta a satisfazer neste momento é o princess, que obviamente é o que tem menor qualidade gráfica devido a ser o mais antigo (jogo wind waker na wii u) Falo disto porque atualmente existe uma enorme obsessão com os gráficos. E witcher impressiona pelos velos gráficos e acima de tudo por toda uma atmosfera simbiótica entre som jogabilidade, visual e som. Mas quando meti as maos neste jogo, apesar de todo o delírio gráfico foi a jogabilidade que me cativou, a densidade das personagens e a vontade de passar horas a jogar e a explorar todo este mundo. A minha unica queixa nem é os bugs, mas sim o problema de framerate. As vezes sinto que estou a jogar um jogo de fotografias, mas não influencia a satisfação que este jogo provoca, mas mesmo assim é o que me faz acordar e perceber que estou a jogar um jogo. Acho que o maior ponto positivo deste jogo é o combate, isto porque é um combate em que temos realmente de criar uma pericia para derrotar certos inimigos (um simples bandido com um escudo custou me mais do que o griffo do inicio do jogo, ate perceber que quando se esquiva temos de ser cautelosos para onde esquivar) visto que os jogos tentam que as lutas sejam deveras cinematográficas como Batman, Assassins creed ou mesmo uncharted, perde se um bocado da liberdade que temos como gamers em que a nossa pericia esta de facto em usar a personagem e não em clicar num botão no momento certo. Eu adoro Batman e uncharted mas é nestas questões que me fez apaixonar pelo witcher nas primeiras 10 horas de jogo. Não podemos esquecer do facto de o jogo ser sexy e adulto sem ser “piroso” se o uncharted esta para jogo-cinema, witcher estará para jogo-literatura, e não por ser baseado em livros mas porque é pura narrativa em que nos faz sentir autênticos protagonistas de uma jornada que se sente verdadeira, não porque vamos salvar o mundo mas porque temos um objetivo pessoal. Obrigado pela excelente critica e continuação de um excelente trabalho que tenho acompanhado à já algum tempo.

    • Carlos Duarte Carlos Duarte

      Olá Ricardo!

      Primeiro que tudo – muito obrigado pelo feedback! Sabes, uma das coisas que mais gozo me dá na escrita de textos é, para além da partilha desta que é uma das minhas grandes paixões (os videojogos), fomentar discussão com quem também sente o mesmo 🙂

      O combate, realmente, é do outro mundo. Eu especializei-me no Igni com o Axii, mais Critical no ataque fraco e uma poção Swallow mais uma Thunderbolt. Posso-te dizer que é, para aí, a terceira vez que mudo de estratégia. Não porque as anteriores falhassem, mas simplesmente pelo gozo de experimentar tácticas diferentes. Acho, sinceramente, que é realmente um dos pontos mais fortes deste jogo.

      Contudo, também te digo – sempre fui menino de Final Fantasy dos bons tempos do Sakaguchi e um ávido leitor, pelo que muitas vezes me sinto defraudado quando os enredos dos RPG’s são “menino predestinado é fraco/desconhecido/bandido e por acaso do destino tem de vencer a pior ameaça ao mundo onde vive de sempre”. Este apaixonou-me com a escrita do princípio ao fim. Aconselho-te, caso não tenhas experimentado, o primeiro e o segundo. A maior parte das mecânicas são um pouco mais rudimentares, é certo. Mas o guião… opá, o guião! 🙂

      PS: Experimentei há meses o remake do Majora’s Mask para a 3DS e fiquei rendido – ainda mais do que com o Link to the Past e o Ocarina of Time – os da Wii ainda não tive oportunidade de experimentar, infelizmente…!

      Obrigado mais uma vez pelos elogios e espero ter-te a comentar mais vezes, que eu adoro conversar!!!

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