Maria José da Silva, realizadora e queijeira, com Rui Poças Arte e Cultura

Maria José da Silva – A Mulher que fazia filmes, vendia queijos e sonhava


No dia 3 de Agosto, Maria José da Silva teria completado 78 anos de idade. Sem estudar cinema, movida por uma enorme paixão pela escrita e pela sétima arte, fez filmes… Nove filmes, pelo menos!

Esta mulher, uma verdadeira senhora, arregaçou as mangas, realizou a sua paixão, levou-a aos outros… sempre por sua conta! Foi comerciante de queijos da Serra da Estrela, foi produtora, argumentista, realizadora, actriz, responsável pela banda sonora, pelo guarda – roupa, pela direcção de actores e pela direcção de arte.

Estudou até à antiga 4ª classe. Trabalhou desde criança. Casou, teve dois filhos, sem nunca deixar de trabalhar a dias, em limpezas, trabalho duro. Com o marido, comprou um estabelecimento comercial, uma queijaria emblemática, no centro do Porto. As suas fontes de inspiração eram as pessoas com quem gostava de conversar, quer no estabelecimento, quer na Serra, onde ia abastecer-se de queijos… e de histórias.

Sempre nutriu uma forte paixão por ler, escrever, representar, cantar, dançar mas principalmente pelo cinema, apesar de só ter ido uma vez na vida ao cinema. Na maioria das narrativas podemos ver um Portugal rural, onde a modernidade contrasta com a tradição popular e familiar. Enredos de enganos, de amores e desamores, onde os ricos são descaradamente rotulados de “capitalistas” e os pobres são “pobres”, os velhos, são “velhos”. Tudo autêntico, sem floreados pseudointelectuais.

O filho, João Paulo Costa foi o seu companheiro de aventura na produção cinematográfica: estava encarregue de filmar. Começaram com uma super 8, mais tarde evoluíram para vídeo.

No seu site, Maria José deixou um desabafo: “Meus bons amigos, a vida que por aí vai!… Aflita, nervosa, complicada. Dá-nos vontade de fugir do Mundo, não acham? A mim assim me parece, mas temos que ter força (…)”.

Força, é o que caracteriza a sua vida e a sua obra. Sem pretensões a profissional, Maria José dizia-se “autodidacta”. Foi essa a magia que deixou impressa no seu trabalho, a sua simplicidade, a sua ingenuidade que, só por si o tornaram único e belo.

Os seus filmes contêm cenas que, nas mãos de cineastas profissionais e treinados, teriam sido cortadas ou modificadas, como por exemplo, o olhar dos actores ao papel onde têm o texto, as cotoveladas que Maria José lhes dá para os lembrar das suas entradas, mesmo o cumprimento que uma actriz faz a um membro da equipa de filmagem. Tudo isto demonstra uma ingenuidade que torna autêntico o seu testemunho.

A sua obra, apesar de não ser autobiográfica, reflecte de forma genuína a sua própria interpretação do mundo, da vida e das pessoas. Retrata as ambivalências naturais de quem observou e viveu as alterações sociais de Portugal na segunda metade do seculo XX e início do século XXI: oscila entre o embelezamento da figura da mulher submissa, na esfera doméstica, subordinada ao seu destino de maus tratos e de falta de afecto e a mulher que se rebela, que se torna independente, conquista a sua autonomia, a sua liberdade e, acima de tudo a sua dignidade. Apresenta uma punição severa para os homens que não respeitam a conjugalidade, no plano amoroso e parental, sem deixar de ser implacável para as mulheres com o mesmo tipo de comportamento.

O seu primeiro filme, “Os Velhos Não São Trapos”, de 1983, sobre a vida num lar de idosos, alerta para a importância de apoiar e incentivar os afectos nos mais velhos, que “não são trapos”, são pessoas que devem ser respeitadas e tratadas com dignidade, sem ignorar a dimensão da sua sexualidade.

Seguiu-se “A Rosa da Felicidade”, em 1985; “Amor Sem Recompensa” de 1987; “O Destino de um Homem”, em 1989; “Aconteceu no Natal”, de 1997; “O Palheiro” de 1998, “Mulheres Traídas” em 2007; “A Mãe com que Sempre Sonhei” de 2011. O final é sempre feliz, os casamentos impossíveis passam a ser possíveis, os desencontros desfazem-se.

Gostaríamos de puder continuar a lista de filmes e acrescentar – Maria José também teria gostado certamente, e o seu filho, João Paulo – “O Filho do Conde” de 2015… mas ficou por terminar…

Em 2014 foi-lhe prestada homenagem, em Lisboa, pela Pickpocket Gallery, galeria criada em 2010 por Rui Poças, dedicada a divulgar artistas de várias proveniências, possuidores de sólido curriculum nacional e internacional e a revelar artistas absolutamente desconhecidos.

Nesta homenagem, em colaboração com a Inculta TV, foi exibida a obra da realizadora, que ela retribuiu com a partilha da sua inspiração e o seu exemplo de perseverança… nas palavras emotivas de Rui Poças: “-Pessoas como a Maria José foram uma das razões porque mantive a galeria viva… ou não… Mas o exemplo sempre será válido. Esse é importante manter vivo, é inspirador para qualquer geração: uma mulher que em vez de ficar à espera que lhe dessem as coisas, arregaçava as mangas”.

Acima de tudo, a vida de luta e trabalho para alcançar os sonhos, longe da “subsidiodependência”, é inspiradora: o cinema pode ser feito com paixão, na linguagem de todos, com pessoas reais, mesmo que não tenham as medidas certas ou a escola de elite e a sua mensagem certamente chegará a um público mais vasto. Podemos afirmar que há público para a arte em Portugal e há público para o cinema português. Escasseia é obra feita para esse público. São raras as “Marias Josés”…

Hoje comemoramos o nascimento de Maria José da Silva. Partiu há quase dois meses, mas preferimos lembrar a sua vinda a este mundo. Não partiu da mesma forma como nasceu. Era esse o seu objectivo. Construiu-se a si mesma. Quem teve o prazer de a conhecer e à sua obra, também não partirá da mesma forma. Não deixou só obra, deixou-nos inspiração: “Sou feliz porque enfrento a vida, pois encaro-a como ela é”.

Créditos da imagem de destaque: Inculta– Associação de Divulgação e Cultura (http://inculta.pt/)


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