Os Crimes de Limehouse, de Juan Carlos Medina Arte e Cultura

Nos Cinemas: Os Crimes de Limehouse, de Juan Carlos Medina


Se lhe parece, caro leitor, que Os Crimes de Limehouse parece ser nome de um conto de Sherlock Holmes que Arthur Conan Doyle nunca escreveu, poderia andar mais longe da verdade. A comparação é exagerada, talvez – o detetive interpretado por Bill Nighy (um ator que não vemos o suficiente e que tem o poder não só de desaparecer dentro dos personagens como também de os reduzir e depurar de tal forma que eles próprios nos surgem frágeis, como que prestes a desaparecer de cena a cada instante), todo ele dúvida e cautela, está longe de possuir os dons quase sobrenaturais de Holmes para a investigação forense, mas o tempo e o espaço em que ambos se movem é o mesmo: a Londres vitoriana de fins do século XIX, época que evoca imediatamente na nossa mente imagens de sombra e nevoeiro, de esqualidez de rua cruzada com a riqueza sórdida das classes altas, de intriga palaciana e desvarios imperialistas.

Esta é apenas a segunda longa-metragem de Juan Carlos Medina, realizador nascido em Miami, não obstante o nome espanhol e o facto de ter feito aqui um filme marcadamente britânico. Os Crimes de Limehouse – um bairro portuário de Londres – são, então, uma série de assassinatos grotescos (mostrados em cenas breves mas que não fogem ao gore), perpetrados por um assassino em série do estilo Jack o Estripador que se crê estar de alguma forma ligado ao mundo do espetáculo. Medina tenta ludibriar-nos ao alternar as encenações dos crimes sob a perspetiva dos diversos suspeitos, entre os quais um rechonchudo Karl Marx, numa piscadela de olhos à ideologia social do filósofo prussiano e a como ela não se refletia na sociedade inglesa da época. É o suficiente para perdermos o rasto às pistas que vão sendo deixadas pelo caminho, e para ampliar o impacto do twist final da praxe.

Os Crimes de Limehouse, de Juan Carlos Medina

Mais interessante que o enredo de Os Crimes de Limehouse (numa altura em que abundam CSIs, NCISs e milhentas outras variantes televisivas da série em estilo caso da semana, o whodunit não tem o mesmo impacto que tinha há 140 anos, antes dos filmes e da massificação trazida pela televisão, e o desafio deste tipo de cinema é encontrar um fator diferenciador em relação ao que podemos, hoje, encontrar sem dificuldade em muitos outros formatos) é a reconstrução da época, e mais especialmente do ambiente de dance halls e das suas vedetas, das manobras por detrás das cenas e da linha muito ténue que existia – e existe, ainda – entre o brilho reluzente das aparências e o cheiro fétido do que se passa depois de cair o pano. E dos costumes e morais vitorianos, do tabu destruidor de reputações da homossexualidade – alude-se, num subplot mal explicado e ainda mais mal utilizado, ao facto de a orientação sexual do detetive o ter tornado numa espécie de suplente pouco utilizado da Scotland Yard – ao apetite voraz dos jornalistas e do público, de então como de agora, pelo escândalo e pela miséria.

Este é um filme de encenações sobre encenações, em que a coreografia dos crimes coexiste em paralelo com a dramaturgia das peças postas em cena no teatro em que convivem os personagens principais, em que, para citar um grande filme de John Ford, se imprime a lenda quando em lenda se torna a realidade. E se algo havemos de reter, então seja, na última cena, a ideia de que, aconteça o que acontecer, o espetáculo tem que continuar. A ilusão resiste a tudo o que se passa à sua volta. Ficamos com essa ideia mais do que com a competente mas pouco fulgurante história de detetives e criminosos que a antecede.

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