Nos Cinemas: Good Time, de Benny e Josh Safdie Arte e Cultura

Nos Cinemas: Good Time, de Benny e Josh Safdie


Há uma sensação que se apega a nós no início de Good Time e não mais descola. Uma sensação de urgência, de algo-prestes-a-acontecer incessante, potenciada pelos grandes planos constantes e pela banda-sonora demoníaca dos Oneohtrix Point Never (OPN), toda ela batidas eletrónicas de fazer acelerar o pulso. Se há uma palavra para o novo filme dos manos Safdie, então terá que ser essa: urgente.

Este é o quinto filme em cerca de dez anos de Benny e Josh Safdie, irmãos nova-iorquinos criados entre Queens e Manhattan, e já conseguimos ver neles uma força por enquanto sem tiques que tem faltado a muito do cinema americano “independente” de tempos recentes. Se é que podemos colocar em Good Time o rótulo de independente: a estética é indie mas a música vem de uma banda não exatamente desconhecida como os OPN, e a canção que acompanha os créditos finais é cantada pelo nada desconhecido Iggy Pop (embora, reconheçamos, Iggy sempre teve o espírito independente no ADN, tanto na música como na colaboração de longa data com o cinema de Jim Jarmusch); o estilo do-it-yourself está muito presente – basta ver quantas vezes o nome de cada um dos irmãos aparece na ficha técnica do filme, e Benny é inclusive um dos atores principais – mas Robert Pattinson, um ator de escolhas cada vez mais afinadas, é, à boleia do sucesso planetário da saga Crepúsculo da qual parece fugir a sete pés, o tipo de nome que não combina exatamente com o cinema não mainstream.

Uma série de contradições que os irmãos parecem abraçar em lugar de chutar para canto: no filme Good Time, as visitas a uma série de cadeias de fast food, todas elas chamadas pelo nome, de um White Castle a um Dunkin’ Donuts passando por uma Domino’s Pizza, atestam a essa filosofia: mostrar tudo, sem preconceitos nem afinações para que o mundo do filme se adeque a um qualquer caderno de encargos independente.

O resultado é um filme que está vivo e faz-nos sentir vivos também: desde a primeira aparição de Pattinson, pontuada por um inesperado e rapidíssimo zoom in (como se os Safdie dissessem “sim, sabemos quem é, e não nos importamos nada”), que o filme não mais dá descanso. Há um assalto a um banco que dá para o torto, um rapto equivocado num hospital, uma visita noturna, após o fecho, a um parque de diversões, em busca de uma garrafa de droga em estado líquido. Uma série de cenas, cómicas e trágicas em doses idênticas, ligadas por um mesmo ponto comum: Robert Pattinson, que está em quase todas as cenas e segue na perfeição a batuta dos Safdie. No final temos o mais estranho e o mais bonito dos filmes: dois irmãos atrás das câmaras, em cumplicidade, a filmar uma história de amor fraternal.

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