Cinema em Casa: A Ghost Story, de David Lowery Arte e Cultura

Cinema em Casa: A Ghost Story, de David Lowery


À partida, seria justo pensar, pondo os olhos no título e nada mais, que A Ghost Story seria um filme para o Halloween. Um daqueles filmes do género “casa assombrada”, quase tão antigo como o próprio cinema, que pululam por esta altura do ano causando calafrios apenas a quem é jovem o suficiente para não ter memória das milhentas variações do cinema de terror, o público para o qual esse tipo de filme se destina cada vez mais.

Nada mais longe da verdade. A Ghost Story é uma história de fantasmas, sim, e até a história de uma casa assombrada, mas não o é no sentido que estamos à espera. O “fantasma”, que passa uma grande parte do filme a “assombrar” a mesma casa, geração após geração, inquilino após inquilino, é Casey Affleck, debaixo de um lençol branco com dois buracos negros no lugar dos olhos – é a ideia infantil de um fantasma, mais que a imagem computorizada a que a Hollywood industrial nos acostumou.

Se há algo que A Ghost Story faz bem, isso é trair as nossas expetativas. Praticamente não há sustos e há quase nenhuma escuridão neste filme “de terror”. Casey Affleck e Rooney Mara são nomes conhecidos, ainda que longe de serem nomes gigantes, mas desaparecem sem aviso, um após vinte ou trinta minutos e a outra a meio do filme. Substituir um ator que acaba de ganhar um Oscar por um lençol branco durante uma grande parte do filme é uma escolha ousada, tal como o é o facto de este ser um filme de diálogos muito esparsos, quase sem “argumento”, quase sem estrutura a que a audiência se possa agarrar.

A Ghost Story, de David Lowery

Filmado em formato clássico, um 4:3 arredondado nas arestas, A Ghost Story tem aspeto de filme de fim de curso, tese de mestrado feita por bagatela e meia por alguém a querer impressionar e a pôr em evidência as suas credenciais cool, hiperbolizadas pela presença, a dada altura, de Will Oldham – mais conhecido pela sua persona no mundo da música, Bonnie “Prince” Billy, mas também presença assídua nos filmes de Kelly Reichardt, nome forte do cinema “independente” americano -, pregando um discurso existencialista num longo monólogo sobre o quão despida de sentido é a vida que destoa da quietude por vezes opressiva do restante filme. Este parece uma experiência, dizia, que se faz num fogacho antes de partir para voos maiores.

Mais surpreendente é, pois, que o seu realizador, David Lowery, seja um senhor de 36 anos cujo filme anterior foi A Lenda do Dragão, uma fantasia de 65 milhões de euros da Disney, estúdio com o qual se prepara para voltar a trabalhar em mais uma adaptação de Peter Pan. Vale a A Ghost Story esse valor do inesperado, esse olhar contemplativo sobre a passagem do tempo que deve mais a um cineasta como Terrence Malick do que a qualquer tradição de filme de fantasmas. Ainda que, tal como o Malick de tempos recentes, não escape por vezes a um certo pedantismo, a um “querer ser artista” oco e sobranceiro.

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