O Cinema às margens do Rio São Francisco Arte e Cultura

O Cinema às margens do Rio São Francisco


O Rio São Francisco é um dos mais importantes rios brasileiros e principalmente do Nordeste. O rio percorre cinco estados que são: Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas. Graças ao meu trabalho e ao cinema, tive a oportunidade de conhecer três vezes esse rio cheio de histórias e misticismo. A última visita foi na semana passada, onde puder acompanhar durante seis dias, o Circuito Penedo de Cinema. Penedo é uma cidade histórica, descoberta no séc. XVI, com 64 mil habitantes, que fica a cerca de 150 km de Maceió, capital alagoana.

O festival que teve seus anos de glória entre os anos 70 e 80 (sendo considerado um dos mais importantes festivais na época, tendo a presença de grandes astros da TV e cinematografia brasileira) teve sua retomada em 2011, pelo professor e idealizador Sergio Onofre Seixas, no formato universitário de mostra competitiva. Desde então, o festival foi se estruturando a cada ano. A edição de 2017 deu continuidade à junção de três mostras que englobam: o 10º Festival de Cinema Brasileiro, o 7º Festival de Cinema Universitário de Alagoas e a 4º Mostra Velho Chico de Cinema Ambiental. Como acompanhei o festival desde o início, pude conferir muitos filmes, dos 41 curtas selecionados para as três mostras competitivas, além dos longas convidados. E desses muitos filmes, me surpreendi com a qualidade e a diversidade de temas escolhidos. A maioria dos temas discutindo a importância da preservação da água e do meio ambiente, os problemas sociais enfrentados no Brasil de ontem e hoje, filmes experimentais que estão rodando vários festivais e até filmes com narrativas mais clássicas. Com muitos dos realizadores presentes, os debates (que aconteciam no dia seguinte das sessões) eram sempre muito enriquecedores. E na minha visão sem dúvida, foi um dos festivais que mais senti a participação dos realizadores debatendo seus filmes entre eles, sempre tirando as dúvidas e levantando diferentes pontos de vista.

Dos curtas-metragens premiados da Mostra Velho Chico, o júri oficial elegeu A Piscina de Caíque, do goiano Raphael Gustavo da Silva. O filme narra a história de um menino que sonha em ter uma piscina, mas que mesmo assim se diverte com o melhor amigo, deslizando no chão molhado e ensopado na área de serviço da sua casa, gastando a pouca água que tem. Já o júri popular escolheu Pedro e o Velho Chico, do mineiro Renato Gaia. O curta é um misto de animação e live-action, que fala sobre o garoto Pedro e de um catador de material reciclável chamado “Seu Chico”, que empresta seu diário ao garoto, o convidando para uma viagem mágica pelo rio São Francisco.

Da Mostra Velho Chico, eu ainda destaco o curta Latossolo, de Michel Santos, da Bahia. No formato mais experimental bem estruturado e fotografado, o filme retrata a relação do homem com o trabalho no campo.

Autofagia, de Felipe Soares de Pernambuco e Desaparecido de Guili Minki, de São Paulo foram os premiados da Mostra Universitária. O primeiro que ganhou pelo júri oficial, traz uma bela fotografia e aborda dois universos distintos: o de um homem simples e matuto do campo, que acaba se relacionando com um travesti e que acaba por mata-lo, sem dó e piedade. Já Desaparecido traz o personagem Fernando, que se apaixona por uma menina em um ponto de ônibus que sem coragem de se aproximar dela, resolve espalhar cartazes como se ele mesmo tivesse desaparecido, para chamar a atenção da garota.

Depois de rodar vários festivais levando diversos prêmios, Quando Parei de Me Preocupar com Canalhas, de Tiago Vieira, de São Paulo, arrematou mais um troféu, sendo escolhido como o melhor filme pelo júri oficial da Mostra Festival Cinema Brasileiro. Adaptado de uma história do cartunista Caco Galhardo, para a Revista Piauí, o curta apresenta de maneira bem divertida e irônica, o dia-a-dia de um personagem desiludido, com a atual situação política. No elenco, o cineasta conseguiu reunir nomes como o ator Matheus Nachtergaele, Paulo Miklos e Otto. Já o Júri popular escolheu como melhor filme da mesma mostra, o curta Uma Balada para Rocky Lane, de Djalma Galindo, de Pernambuco. Do gênero documentário, o curta retrata a decadência de um cinema em Arcoverde, sertão de Pernambuco, através dos olhos de um homem que conheceu e trabalhou no local, tendo adotado como nome Rocky Lane, famoso personagem do faroeste americano dos anos 40 e 50.

A seleção de longas (sem caráter competitivo) também chamou a atenção do público que teve a oportunidade de conferir filmes como o premiado Como Nossos Pais de Laís Bodanzky, que aborda o cotidiano de uma mulher que tem que enfrentar a difícil tarefa de ser mãe, profissional e esposa perfeita. Na linha experimental e autoral, o festival trouxe o belo e poético longa Lamparina da Aurora, do cineasta maranhense Frederico Machado, que traz elementos do gênero de suspense repleto de metáforas e religiosidade. Joaquim, o mais recente trabalho do cineasta pernambucano Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e Urubus) também fez parte da seleção de longas. O filme retrata uma ficção (pela visão do cineasta) sobre a vida de Joaquim José da Silva Xavier, ou mais conhecido como Tiradentes, herói da Inconfidência Mineira, no Brasil. E o Circuito Cinema de Penedo encerrou muito bem a seleção com o ótimo Tatuagem do também cineasta pernambucano Hilton Lacerda. O público lotou a sala de cinema para conferir o filme que foi lançado em 2013(mas que sempre permanece muito atual) e que aborda o relacionamento de um jovem militar, com um líder de uma trupe de teatro no auge da ditatura militar no Brasil. Com exceção de Lamparina da Aurora todos os filmes tiveram seus representantes para debaterem os filmes logo após cada sessão, com destaques para o atores Irandhir Santos(Tatuagem) e Clarisse Abujamra (Como Nossos Pais), assim como o diretor Hilton Lacerda.

A programação ainda contou com oficinas sobre diversos temas relacionados a formação cinematográfica como; a Oficina de Vídeo Ambiental, voltada para estudantes de educação básica, a do Panorama do Audiovisual Alagoano (aberta para todos os públicos) e a Oficina do Uso da Cor Como Ferramenta da Narrativa, voltada para os estudantes do curso médio, além de encontros e mesas redondas onde foram debatidos diversos assuntos relacionados ao mercado do audiovisual brasileiro atual.

Para mais informações sobre o Circuito Penedo de Cinema é só acessar: http://circuitopenedo.iecps.com.br/

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