Durante mais de uma década, o Google Drive foi o cofre digital de milhões de pessoas. Guardamos lá tudo: diplomas, contratos de trabalho, identificações e memórias. A conveniência sempre superou o risco. Mas a Google decidiu mudar as regras do jogo com a introdução das suas novas funcionalidades “inteligentes” no Drive, e para muitos utilizadores, a linha vermelha da privacidade foi cruzada.
A novidade, disponível para subscritores do plano Gemini e Workspace, consiste em resumos automáticos gerados por IA. O problema? A Google não pede permissão. A IA varre pastas, ficheiros e até o conteúdo de PDFs e imagens digitalizadas para te dar um resumo não solicitado assim que abres um diretório.
“Sem o meu consentimento explícito”
O choque para muitos utilizadores, incluindo eu próprio enquanto subscritor do Google AI Pro, foi a natureza intrusiva desta funcionalidade. Não houve um botão de “aceitar”; houve apenas um comunicado de imprensa e, de repente, a IA estava a ler os meus documentos privados.
Quando questionada, a Google afirmou que a compra de uma subscrição de IA constitui consentimento para experimentar novas funcionalidades. “Ativamo-las por defeito para que os utilizadores possam utilizar o valor que compraram imediatamente”, disse um porta-voz.
Esta atitude de “opt-out” (tens de desligar se não quiseres) em vez de “opt-in” (tens de ligar se quiseres) em matérias de privacidade é alarmante. Ver um resumo detalhado de um documento sensível aparecer no ecrã sem que eu tenha pedido gera uma sensação imediata de vigilância, não de ajuda.

A questão da encriptação e da confiança
A Google garante que os dados não são usados para treinar os seus modelos generativos e que tudo é encriptado. No entanto, a empresa admitiu que gere as chaves de encriptação para fornecer serviços como pesquisa e indexação. Isto significa que, tecnicamente, a Google tem a capacidade de aceder ao conteúdo para o resumir “em teu nome”.
Se a Google tem acesso às chaves e decide implementar funcionalidades que leem o conteúdo proativamente, o que impede que, no futuro, esses dados sejam usados para publicidade direcionada ou outros fins? A confiança, que era a base da relação com o Drive, está a ser erodida.
A fuga para alternativas seguras
Perante esta invasão de privacidade, a única solução lógica para documentos sensíveis é movê-los.
- Desligar as funcionalidades: Podes ir às definições de privacidade do Workspace e desligar as “Funcionalidades Inteligentes”, mas isso remove também a utilidade da IA que pagaste.
- Mudar de casa: A alternativa é migrar documentos críticos (IDs, impostos, saúde) para serviços com encriptação do lado do cliente, onde a empresa não tem as chaves. Opções como Bitwarden (para armazenamento seguro), Cryptomator (para encriptar ficheiros antes de irem para a nuvem) ou Filen estão a ganhar tração entre quem já não confia no “olho que tudo vê” da Google.
A conveniência do Google Drive é inegável, mas o preço a pagar pode ter-se tornado demasiado alto: a tua privacidade.
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