Apesar da crescente digitalização do consumo, o varejo físico mantém ampla predominância no comportamento do consumidor. Um recente levantamento revela que 97% dos compradores ainda recorrem às lojas físicas como principal canal de compras. Contudo, os gastos online já respondem por 22% do total consumido, sinalizando uma convivência cada vez mais integrada entre plataformas físicas e digitais.

A tendência não expressa apenas mudança tecnológica, mas evoluções nas rotinas, na composição dos gastos e na forma como os consumidores definem prioridades. Embora a visita ao ponto de venda tradicional continue sendo maioria quase absoluta, o peso financeiro das plataformas digitais aponta expansão vigorosa, especialmente em categorias de conveniência e planejamento. A adaptação dos canais e a segmentação do público tornam-se, portanto, chave estratégica para o setor.
Entretenimento digital cresce mais que consumo tradicional
A evolução dos gastos mostra que o entretenimento digital vem assumindo um papel central dentro do orçamento dos consumidores. Enquanto hipermercados e supermercados ainda registram avanços modestos em volume de compras, é nas plataformas online que se observa a maior vitalidade, sobretudo em segmentos de lazer. Jogos digitais, streaming e apostas online tornaram-se alternativas frequentes de consumo, muitas vezes substituindo ou complementando experiências físicas.
Um exemplo claro desse movimento está no mercado de jogo online, onde modalidades inovadoras ganham destaque e atraem públicos cada vez mais jovens. Entre elas, o poker com bitcoin cresce como tendência, combinando tecnologia, conveniência e novas formas de pagamento. Esta combinação reforça o peso do entretenimento remoto no mix de despesas, mostrando que, além da busca por preços, o consumidor valoriza experiências interativas e digitais que ampliam a noção de consumo além do varejo tradicional.
Digital avança, mas com fidelidade localizada por categoria
Mesmo diante da expansão digital, o grau de fidelidade varia fortemente entre categorias de consumo. Bebidas e itens recorrentes lideram em fixação de marca: o café, por exemplo, tem 43% de consumidores fieis a uma única marca. Logo em seguida vêm a alimentação animal (39%) e a cerveja (35%). Esses segmentos têm características que combinam sabor, hábito e confiança, fatores determinantes para manter padrões de compra mesmo diante de promoções concorrentes.
Em contraste, snacks e alimentos biológicos enfrentam maior rotatividade. Apenas 11% e 9% dos consumidores, respectivamente, afirmam aderir a uma única marca nessas áreas. Fatores como curiosidade, relação menor com necessidades e abertura à experimentação tornam essas categorias menos estáveis do ponto de vista da lealdade do consumidor.
Marcas próprias ganham alcance expressivo, principalmente em higiene e limpeza
As marcas próprias dos varejistas vêm consolidando presença marcante, especialmente em segmentos com menor apego histórico por parte dos consumidores. O destaque fica para os produtos de higiene e limpeza, onde itens de marca própria alcançam até 92% de participação no carrinho dos consumidores, número expressivo que denota consolidação.
Esse desempenho está diretamente relacionado à percepção crescente de qualidade, associada ao fator preço. Em tempos de gastos mais planejados, os consumidores passam a valorizar mais o custo-benefício do que símbolos convencionais de reputação.
Alimentos secos, produtos frescos e até algumas categorias de cuidados com o corpo têm vivenciado também crescimento das marcas próprias, ainda que em ritmos distintos. A elasticidade nessas áreas permite testes por parte do consumidor, que, se satisfeito, tende a manter a escolha com base no desempenho e não apenas na identidade da marca. Para os varejistas, isso representa uma mudança estrutural nas margens e no poder de negociação com fornecedores tradicionais, além de abrir possibilidades nas estratégias de fidelização.
Quatro perfis de consumo redefinem as estratégias de comunicação do varejo
Comportamentos fragmentados não são apenas uma questão de canal ou categoria. Uma segmentação mais refinada do estudo revela que o público está dividido, de forma quase equilibrada, em quatro grandes perfis de consumo: constrained (29%), deal seekers (28%), attentive (25%) e engaged (18%).
Os constrained, ou limitados, representam o grupo mais vulnerável economicamente. Mantêm consumo básico, focados em preços e promoções essenciais. Já os deal seekers buscam ativamente ofertas, mesmo quando dispõem de orçamento mais amplo, seu comportamento é guiado por planejamento e comparação constante.
Os attentive são consumidores informados, atentos à composição dos produtos, sustentabilidade e experiências consistentes de marca. Valor representam mais do que preço. Por fim, os engaged são os mais ligados emocionalmente às suas marcas e canais, mantendo comportamento mais estável e menos sensível às oscilações externas.
Para o varejo, a compreensão desses perfis transforma diretamente a lógica de comunicação e promoção. Na prática, aciona com mais precisão o investimento em retail media, as plataformas digitais de veiculação publicitária dentro dos próprios canais de compra. Ao entender não apenas o que se consome, mas também como e por que, cada ação torna-se mais eficaz e personalizada.
Comércio vive fase de transição híbrida, com desafios e oportunidades
A coexistência entre varejo físico e digital já não é mais tendência, mas cenário consolidado. Ainda que 97% utilizem canais físicos, os 22% dos gastos que transitam pela internet indicam papel estratégico do ambiente digital na jornada de consumo.
Mais do que disputa de canais, o momento atual exige do setor uma leitura integrada das rotinas, motivações e valores dos compradores. A personalização das ofertas, o ajuste dos sortimentos e o uso inteligente de dados seguem como diferenciais para quem deseja manter relevância nos dois mundos.










