A corrida ao ouro da Inteligência Artificial não se limita a Silicon Valley. Do outro lado do mundo, a China está a acelerar a sua própria revolução de semicondutores, e os investidores estão a responder com entusiasmo desenfreado. A Montage Technology, uma empresa líder no fabrico de chips para centros de dados e IA, protagonizou hoje uma estreia fulgurante na bolsa de Hong Kong, com as suas ações a dispararem 57% logo na abertura.
Este movimento não é um caso isolado, mas sim um sintoma de uma tendência maior: o mercado está a apostar forte na capacidade da China de construir a sua própria infraestrutura tecnológica, impulsionada por políticas governamentais agressivas de autossuficiência.
Uma estreia de 763 milhões de euros
Os números da Operação Pública Inicial (OPI) são robustos. A Montage vendeu quase 66 milhões de ações, arrecadando cerca de 7.043 milhões de dólares de Hong Kong (aproximadamente 763 milhões de euros).
As ações abriram a negociar a 168 HKD, um salto significativo face ao preço fixado de 106,89 HKD. Embora os ganhos tenham moderado ligeiramente para cerca de 48,8% ao longo da manhã, a mensagem foi entregue: há um apetite voraz por ativos de hardware chineses.
Curiosamente, este preço de entrada representou um desconto de 44% em relação à cotação da empresa na bolsa de Xangai, onde já está listada desde 2019 e onde viu o seu valor mais do que duplicar no último ano. Esta estratégia de preços pode ter ajudado a alimentar a febre de compra inicial.

Quem é a Montage? O gigante invisível da memória
A Montage não é uma startup desconhecida. Sediada em Xangai, a empresa é, segundo a consultora Frost & Sullivan, o maior fornecedor mundial por volume de negócios no segmento de chips de interligação de memória, detendo uma quota de mercado de 36,8%.
Estes componentes são vitais. Num mundo onde a IA exige o processamento de quantidades massivas de dados, a velocidade e eficiência com que a memória comunica com o processador são críticas. A Montage fornece a “canalização” essencial para que os centros de dados e aceleradores de IA funcionem.
A empresa tem um passado curioso: chegou a estar listada no Nasdaq, em Nova Iorque, em 2013, mas abandonou a bolsa americana meses depois após ser adquirida por uma estatal chinesa, um prenúncio do desacoplamento tecnológico que viria a definir a década seguinte.
O plano de Pequim: Autossuficiência 2030
A euforia dos investidores não se explica apenas pelos fundamentais da empresa. Há um fator político inegável. A China declarou a autossuficiência tecnológica como a prioridade número um do seu próximo plano quinquenal (2026-2030).
No contexto da guerra comercial com os Estados Unidos — que expôs a vulnerabilidade da China em áreas-chave como os semicondutores avançados —, Pequim está a injetar recursos e apoio político nas suas campeãs nacionais. Os investidores estão a apostar que empresas como a Montage serão as grandes beneficiárias deste “escudo” estatal e do investimento massivo em infraestrutura de IA doméstica.
A estratégia do “Low Cost” na IA
Enquanto as empresas americanas lideram na inovação de ponta, os analistas acreditam que as tecnológicas chinesas têm uma carta na manga: a vantagem competitiva do custo.
A expectativa é que, ao reduzirem o fosso tecnológico, estas empresas consigam oferecer serviços de IA e hardware a custos significativamente mais baixos do que os rivais ocidentais, capturando mercados emergentes e a própria procura interna gigantesca da China. A estreia da Montage é mais um sinal de que a “Muralha de Silício” da China está a ficar mais alta e mais valiosa.
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