O Conselho de Supervisão da Meta, o organismo independente que funciona como o “Supremo Tribunal” para as decisões de conteúdo do Facebook e Instagram, emitiu um veredicto que está a gerar perplexidade. O Conselho decidiu que a Meta agiu corretamente ao não remover um vídeo manipulado que fazia passar imagens de um protesto na Sérvia por uma manifestação de apoio ao ex-presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, na Holanda.
A decisão surge num contexto sensível, dias após a extradição de Duterte para o Tribunal Penal Internacional (TPI) em março de 2025, e estabelece um precedente sobre como a plataforma lida com desinformação política visualmente convincente.
O vídeo: Sérvia ou Holanda?
O conteúdo em causa era uma peça de desinformação clássica. Utilizava imagens reais de um protesto na Sérvia, mas foi editado com áudio sobreposto (incluindo cânticos de “Duterte” e a canção revolucionária “Bayan Ko”) e legendas falsas para criar a ilusão de que uma multidão se tinha reunido em Haia para apoiar o ex-líder filipino.
O vídeo alcançou cerca de 100.000 visualizações e centenas de partilhas. Embora os sistemas automatizados da Meta tenham sinalizado o vídeo como “potencial desinformação” e reduzido a sua visibilidade para utilizadores fora dos EUA, ele nunca chegou a ser revisto por verificadores de factos humanos devido ao “elevado volume de publicações”.

A contradição: é “alto risco”, mas pode ficar
A parte mais controversa da decisão do Conselho de Supervisão reside na sua lógica. O Conselho concordou com a manutenção do vídeo na plataforma, mas, ao mesmo tempo, criticou a Meta por não ter aplicado um rótulo de aviso.
Segundo o Conselho, o vídeo deveria ter recebido a etiqueta de “Alto Risco” porque continha “um vídeo digitalmente alterado e fotorrealista com um elevado risco de enganar o público durante um evento público significativo”.
A questão que fica no ar é: se um conteúdo é classificado como sendo de “alto risco” de engano público e é totalmente fabricado, qual é a justificação para que permaneça acessível numa das maiores redes sociais do mundo?
Falhas no sistema de verificação
O caso expôs também as fragilidades no sistema de verificação da Meta. O Conselho recomendou que a empresa melhore os seus processos:
- Filas de Prioridade: A criação de filas de verificação de factos separadas para conteúdos virais de natureza semelhante aos que já foram desmentidos num mercado.
- Melhores Ferramentas: Os verificadores de factos precisam de ferramentas mais rápidas para identificar manipulações virais.
- Rótulos Claros: A Meta deve descrever melhor os seus rótulos de “media manipulada” para que os utilizadores entendam o que estão a ver.
Este veredicto surge numa altura em que a Meta tem vindo a recuar nos seus programas de verificação de factos tradicionais (tendo-os suspendido nos EUA em janeiro a favor das “Notas da Comunidade”), o que levanta dúvidas sobre se a empresa está a delegar a responsabilidade da verdade na sua própria audiência.
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