O panorama do streaming mundial está prestes a enfrentar o seu terramoto mais significativo. Ted Sarandos, o co-CEO da Netflix, marcou presença numa audiência decisiva no Senado dos Estados Unidos na semana passada, onde assumiu a tarefa hercúlea de defender a fusão da gigante do streaming com a Warner Bros. Discovery (WBD). O negócio, que envolve valores astronómicos na ordem dos 82,7 mil milhões de dólares (cerca de 76 mil milhões de euros), tem levantado sobrancelhas entre os reguladores de concorrência. No entanto, para o executivo, a equação é simples e contra-intuitiva: a união destas duas potências resultará numa descida nos preços das assinaturas para os consumidores.
Numa altura em que o mercado se habituou a aumentos anuais de preços, a promessa da Netflix de que “maior é mais barato” é uma jogada estratégica fundamental para garantir a aprovação do negócio.
A matemática da poupança: o argumento dos 80%
A principal linha de defesa de Sarandos baseia-se na eficiência da consolidação. Segundo a visão do executivo, a fusão dos vastos catálogos de ambos os grupos numa única oferta — colocando Stranger Things ao lado de House of the Dragon — permitirá criar pacotes combinados que são financeiramente mais acessíveis do que a subscrição separada de cada serviço.
“Com a WBD, criaremos mais valor. Vamos dar aos consumidores mais conteúdo por menos”, afirmou Ted Sarandos durante a sua intervenção sob juramento.
Para sustentar esta tese, o co-CEO apresentou dados reveladores sobre o comportamento atual dos consumidores: existe uma sobreposição massiva entre as bases de utilizadores. Os dados indicam que 80% dos atuais subscritores da HBO Max já possuem também uma conta na Netflix.
Para Sarandos, isto demonstra que os serviços funcionam atualmente numa lógica de complementaridade, e não de exclusão mútua. Ao fundir as plataformas, a Netflix argumenta que pode eliminar a ineficiência de pagar duas faturas separadas, oferecendo um preço único que, embora possa ser mais alto que uma subscrição individual atual, será inferior à soma das duas partes.

“Não somos um monopólio”: a defesa contra a Disney e Amazon
O maior obstáculo a este negócio é o receio de que a nova “Super Netflix” sufoque a concorrência. Sarandos tentou desmontar esta ideia argumentando que o setor do entretenimento digital continua robusto e hiper-competitivo.
O executivo sublinhou que, mesmo após esta fusão histórica, a nova entidade continuará a enfrentar uma guerra aberta contra outros gigantes tecnológicos e de media com bolsos fundos, nomeadamente a Disney, a Hulu, a Amazon Prime e o YouTube.
Outro ponto chave na argumentação foi a distinção dos modelos de negócio: enquanto a Netflix opera primariamente como uma plataforma de distribuição global tecnológica, a Warner Bros. Discovery mantém o seu ADN histórico de estúdio de produção de Hollywood. A fusão, segundo a Netflix, une o melhor da tecnologia com o melhor da produção criativa.
Votação antecipada em março
O processo parece estar agora em velocidade de cruzeiro. Conforme detalhado pela Variety, a Warner Bros. Discovery está a acelerar os procedimentos para finalizar o acordo, tendo antecipado a votação dos seus acionistas para as primeiras semanas de março deste ano.
Resta agora aguardar para ver se os reguladores americanos (e europeus) compram a tese de que uma empresa de 82 mil milhões de dólares vai, de facto, baixar a conta mensal das famílias, ou se esta promessa é apenas uma estratégia para passar no crivo da lei antitrust.
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