A promessa original das criptomoedas era a de um sistema financeiro descentralizado, livre da supervisão dos bancos e dos governos. No entanto, essa mesma liberdade tornou-se um refúgio para atividades ilícitas. Uma nova e massiva investigação jornalística acaba de expor a dimensão real deste problema, revelando que há, pelo menos, 28 mil milhões de dólares em fundos de origem criminosa a circular na indústria de criptoativos.
A investigação, conduzida pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação e publicada em colaboração com o The New York Times e outros 36 meios de comunicação social, rastreou este dinheiro até às mãos de hackers norte-coreanos, ladrões e golpistas com esquemas que se estendiam por vários continentes. O relatório não só quantifica o problema, como também aponta o dedo às plataformas de troca (exchanges) que permitem a movimentação destas somas sem o devido escrutínio.
O rasto do dinheiro: como as plataformas são usadas
O relatório utilizou dados agregados da Chainalysis, registos públicos e informações de especialistas forenses para ligar transações a contas e identificar os proprietários de carteiras digitais. A investigação identificou nove carteiras digitais como os principais destinatários destes fundos de origem ilícita.
Duas das maiores plataformas de criptomoedas do mundo, a Binance e a OKX, surgem em destaque como recetoras de grandes volumes destes fundos suspeitos. Os números são alarmantes:
- Fraude em Larga Escala: No total, as bolsas de criptomoedas terão recebido pelo menos 4 mil milhões de dólares ligados a fraudes só no ano passado.
- Depósitos Suspeitos: Mais de 500 milhões de dólares de fundos ilícitos fluíram para a Binance, OKX e Bybit no último ano, através de balcões de troca de dinheiro por criptomoedas.
A investigação apurou, por exemplo, que a Binance, que já tinha concordado em pagar uma multa de 4.3 mil milhões de dólares em 2023 por infrações relacionadas com lavagem de dinheiro (incluindo o processamento de transações para grupos terroristas como o Hamas), recebeu, após esse caso, 400 milhões de dólares em depósitos do Huione Group. Esta operação cambojana foi sinalizada pelo Departamento do Tesouro dos EUA por atividade criminosa e foi descrita como uma “Amazon para criminosos” por gerir um marketplace onde se vendia material ilegal.

A falha da regulação e o dilema do setor
A investigação salienta que, embora o setor afirme ter melhorado as suas práticas de autorregulação, a realidade é que estas atividades ilícitas continuam a acontecer em larga escala. A essência do problema reside na facilidade com que o anonimato das transações de criptomoedas atrai quem procura fugir ao controlo das autoridades.
O relatório lança o desafio: será que as plataformas de ativos digitais devem deixar circular fundos suspeitos sem fazer perguntas?
- O Problema da Escala: “As autoridades policiais não conseguem lidar com a quantidade avassaladora de atividades ilícitas neste espaço”, destacou Julia Hardy, cofundadora da zeroShadow, uma empresa de investigações de criptomoedas.
Isto sugere que a responsabilidade de fiscalização tem de ser partilhada pelas próprias bolsas de criptomoedas.
A política do ‘virar a página’: Trump e a regulação mais leve
Este relatório surge num momento particularmente sensível nos Estados Unidos, onde a estratégia de regulação do mercado de criptoativos mudou radicalmente de rumo após a chegada do Presidente Donald Trump à Casa Branca.
Trump, que e a sua família têm investido massivamente no setor (a sua família criou a World Liberty Financial, uma startup de criptomoedas), inverteu a estratégia de regulação da administração anterior, promovendo um ambiente regulatório mais leve.
- Desmantelamento da Fiscalização: O relatório recorda que, em abril, o Departamento do Tesouro desmantelou uma equipa de fiscalização de criptomoedas, defendendo que os promotores deveriam focar-se nos terroristas e traficantes de drogas que usam criptomoedas, e não nas plataformas em si.
Esta postura política, que reduz as responsabilidades de fiscalização do setor, contrasta com as evidências desta nova investigação, que provam que as atividades ilícitas continuam a ocorrer em larga escala e que os dados já rastreados podem ser apenas “a ponta do iceberg“.
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