A missão Artemis II, que a NASA prevê lançar a 6 de fevereiro de 2026 a partir do Kennedy Space Center, na Florida, vai transportar o microssatélite argentino ATENEA como carga secundária, tornando a Argentina o único país latino‑americano com um satélite próprio a bordo do primeiro voo tripulado à vizinhança da Lua em mais de 50 anos, numa colaboração com a agência espacial CONAE orientada para o estudo da radiação espacial e das comunicações em alta órbita.

Artemis II: regresso tripulado à órbita lunar
Artemis II é a primeira missão tripulada do programa Artemis e sucede ao voo não tripulado Artemis I, que validou o desempenho combinado do foguetão Space Launch System (SLS) e da cápsula Orion em órbita lunar. Prevê um trajecto de cerca de dez dias, levando os quatro astronautas a cerca de 4 700 milhas para além da face oculta da Lua, a maior distância de sempre relativamente à Terra para uma tripulação humana.
A NASA indica que o objectivo central é testar em condições reais os sistemas de suporte de vida, navegação e comunicações da Orion antes de autorizar um alunagem tripulada na Artemis III, actualmente apontada para meados de 2027. Durante o voo, a missão também servirá de plataforma para a validação de cargas secundárias, como CubeSats científicos e tecnológicos fornecidos por parceiros internacionais, entre os quais se destaca o ATENEA.
Tripulação e preparativos no Kennedy Space Center
A tripulação da Artemis II será composta por Reid Wiseman, Victor Glover e Christina Koch, da NASA, e pelo canadiano Jeremy Hansen, da Agência Espacial Canadiana. Wiseman comanda a missão, Glover assume a função de piloto, enquanto Koch e Hansen actuam como especialistas de missão, responsáveis por operações científicas e sistemas críticos.
O SLS e a Orion concluíram recentemente o transporte desde o Vehicle Assembly Building até à Plataforma 39B, no Kennedy Space Center, num percurso de aproximadamente oito horas e meia. A NASA programou um ensaio geral molhado (wet dress rehearsal) para o início de fevereiro, exercício que simula a contagem decrescente e o carregamento de propelentes para avaliar a prontidão do sistema de lançamento antes da janela de 6 de fevereiro.
O satélite ATENEA e o papel da Argentina
ATENEA é um CubeSat de classe 12U, com dimensões aproximadas de 30 por 20 por 20 centímetros, desenvolvido sob coordenação da CONAE em parceria com a Universidade Nacional de La Plata (UNLP), a Universidade Nacional de San Martín (UNSAM), a Universidade de Buenos Aires, o Instituto Argentino de Radioastronomia (IAR), a Comissão Nacional de Energia Atómica (CNEA) e a empresa VENG S.A.. Segundo a documentação técnica, o satélite será libertado em órbita terrestre alta após a fase principal da missão, num regime orbital escolhido para caracterizar o ambiente de radiação e validar sistemas de comunicações de longo alcance.
A missão de satélite ATENEA centra‑se na medição de radiação em diferentes condições de blindagem, na recolha de dados de navegação por GPS e em testes de comunicações que interessam tanto à segurança dos astronautas como à concepção de futuros veículos para espaço profundo. A Presidência argentina e a CONAE sublinham que a selecção do satélite para a Artemis II demonstra a maturidade tecnológica do país e consolida uma trajectória de décadas na área de observação da Terra e investigação espacial, agora estendida à cooperação directa em voos tripulados.
Especificações técnicas do satélite ATENEA
Cooperação NASA-CONAE e impacto geopolítico
O acordo que formaliza a participação da Argentina na Artemis II foi assinado em maio de 2025, quando a NASA e a CONAE estabeleceram os termos de integração de ATENEA como carga secundária do SLS. A agência norte‑americana enquadra esta colaboração na estratégia de internacionalização do programa Artemis, que já conta com dezenas de países signatários dos Acordos Artemis.
Para a Argentina, o envolvimento directo numa missão tripulada de referência tem um valor que ultrapassa a vertente científica: o governo apresenta o projecto como prova de capacidade técnica e instrumento de projeção externa num contexto económico complexo. Ao tornar‑se o único país latino‑americano com um satélite próprio a bordo da Artemis II, a Argentina procura reforçar a sua posição na região em matéria de política espacial, num cenário em que Brasil, México e outros actores têm programas em fases distintas de desenvolvimento.
O que está em jogo para futuras missões lunares
Os dados de radiação recolhidos por ATENEA em órbita terrestre alta podem ser utilizados para calibrar modelos de risco para astronautas em missões prolongadas além da órbita baixa, incluindo futuras estadias em órbita lunar ou em trajectos para Marte. Segundo documentação técnica associada a CubeSats da Artemis, estas medições contribuem para optimizar blindagens, trajectórias e protocolos operacionais, reduzindo a exposição acumulada da tripulação.
Se a Artemis II confirmar o desempenho previsto da Orion e do SLS, a NASA estará em melhor posição para avançar com a Artemis III e os planos de infra‑estruturas como o posto avançado lunar Gateway, onde parcerias internacionais – incluindo possíveis participações latino‑americanas – poderão ganhar espaço. Nesse cenário, missões como a de ATENEA funcionam como demonstradores tecnológicos e diplomáticos, abrindo portas a contributos mais robustos em cargas científicas, módulos de superfície ou segmentação de serviços de telecomunicações lunares.
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