O mundo da tecnologia assistiu esta semana a um momento de rara exposição sobre os bastidores das gigantes de Silicon Valley. Mark Zuckerberg, o diretor executivo da Meta, prestou um depoimento crucial num tribunal que pode mudar para sempre a forma como olhas para as redes sociais. No centro da discussão está a saúde mental dos mais jovens e uma revelação surpreendente: a tentativa de aproximação entre Zuckerberg e o seu histórico rival, Tim Cook.
Durante o julgamento que decorre no Novo México, Zuckerberg foi confrontado com o impacto que o Facebook e o Instagram têm tido na vida de crianças e adolescentes. O caso, movido pelo estado norte-americano, acusa a Meta de não ter protegido os menores contra predadores online e de ter falhado na moderação de conteúdos exploratórios. É neste cenário de pressão jurídica que surge o detalhe de uma troca de mensagens entre os líderes das duas maiores empresas do setor.
Zuckerberg revelou que, em fevereiro de 2018, enviou um correio eletrónico a Tim Cook com o intuito de discutir o bem-estar dos jovens utilizadores. Segundo o líder da Meta, a ideia era encontrar pontos comuns onde ambas as empresas pudessem colaborar para tornar o ambiente digital mais seguro. “Achei que havia oportunidades que a nossa empresa e a Apple poderiam estar a aproveitar e quis falar com o Tim sobre isso”, explicou Zuckerberg perante o tribunal, reforçando que se preocupa com a segurança de quem utiliza os seus serviços.

Uma trégua momentânea antes da guerra pública
Esta revelação é particularmente interessante se tivermos em conta o histórico de hostilidade entre os dois executivos. Embora em fevereiro de 2018 a relação ainda não tivesse atingido o ponto de rutura total, o timing é quase irónico. Apenas um mês depois desta tentativa de contacto, rebentou o escândalo da Cambridge Analytica, que levou Tim Cook a criticar publicamente o modelo de negócio da Meta (na altura ainda Facebook), focado na monetização de dados privados.
Desde então, a relação entre ambos tem sido marcada por trocas de acusações e ataques diretos. A Apple avançou com medidas de transparência no rastreio de aplicações que custaram milhares de milhões de euros à Meta, enquanto Zuckerberg tem aproveitado diversas oportunidades para criticar o ecossistema fechado da marca da maçã. Saber que, pouco antes de tudo isto, Zuckerberg procurou o apoio de Cook para lidar com a segurança infantil, lança uma nova luz sobre as dinâmicas de poder em Cupertino e Menlo Park.
A tática de comparação com a Apple
Esta não é a primeira vez que o nome da Apple surge neste processo judicial. Recentemente, foram reveladas mensagens internas onde Zuckerberg sugeria que a Meta deveria reduzir o investimento em investigação sobre os danos causados pelas suas plataformas aos utilizadores. O argumento utilizado pelo executivo foi, no mínimo, insólito: ele citou a Apple como um exemplo a seguir, alegando que a empresa de Tim Cook não faz este tipo de estudos internos sobre o impacto dos seus produtos na saúde mental.
Esta estratégia de defesa parece ser uma tentativa de normalizar a falta de escrutínio interno, sugerindo que, se a Apple não o faz, a Meta também não deveria ser penalizada por não o fazer de forma tão profunda. No entanto, os críticos e os advogados de acusação não aceitam esta comparação, sublinhando que a natureza de um sistema operativo ou de um iPhone é fundamentalmente diferente da natureza viciante e algorítmica de uma rede social.
O braço de ferro sobre a verificação de idade
Outro ponto de fricção que ficou evidente durante o julgamento prende-se com a responsabilidade da verificação de idade. Se tens filhos ou familiares menores, este é um tema que te afeta diretamente. A Meta defende que a responsabilidade de garantir que um utilizador tem idade legal para estar numa rede social deve recair sobre a Apple e a Google, através das suas lojas de aplicações (App Store e Play Store).
Por outro lado, a Apple mantém uma posição firme: a responsabilidade é dos criadores das aplicações. Para a empresa liderada por Tim Cook, a verificação deve ser feita caso a caso, dentro de cada aplicação, respeitando a minimização de dados e a privacidade. Este empurrar de responsabilidades entre as gigantes tecnológicas deixa os reguladores e os pais num limbo perigoso, enquanto os processos judiciais avançam.
Este julgamento está a ser comparado por especialistas aos processos históricos contra a indústria do tabaco nos anos 90. Tal como aconteceu com os cigarros, alega-se que a Meta tinha conhecimento dos danos que os seus produtos causavam e que, ainda assim, optou por esconder essa informação do público para proteger os seus lucros. O desfecho deste caso poderá ditar novas regras rigorosas para o funcionamento das redes sociais em todo o mundo.
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