A noite da 98.ª edição dos Prémios da Academia confirmou o que muitos analistas de tecnologia e entretenimento já previam: o streaming não é apenas um convidado, mas sim um dos pilares centrais de Hollywood. No entanto, para a Netflix, a cerimónia de 2026 deixou um sabor agridoce. Se, por um lado, a gigante liderada por Ted Sarandos saiu do Dolby Theatre com cinco estatuetas douradas na bagagem, por outro, viu novamente fugir-lhe por entre os dedos o galardão de Melhor Filme.
O grande destaque da noite para a plataforma foi a nova incursão de Guillermo del Toro pelo universo dos monstros clássicos. A sua reimaginação de “Frankenstein”, que já tinha chegado à passadeira vermelha com nove nomeações, dominou as categorias técnicas e artísticas. O filme arrecadou três Óscares: Melhor Design de Produção, Melhor Guarda-Roupa e Melhor Caracterização.
Se acompanhas as produções de Del Toro, sabes que o detalhe visual é a sua assinatura, e a Academia reconheceu a mestria com que o realizador mexicano trouxe a criatura de Mary Shelley para a era moderna. A vitória nestas categorias reforça o investimento massivo da Netflix em valores de produção que não ficam nada a dever aos grandes estúdios tradicionais.

Mas a maior surpresa — ou talvez não, dado o seu sucesso comercial — veio do departamento de animação. “KPop Demon Hunters”, que detém atualmente o título de filme mais visto de sempre na história da Netflix, conquistou o Óscar de Melhor Filme de Animação e ainda o de Melhor Canção Original. Este feito é particularmente relevante porque demonstra a capacidade da plataforma em unir o sucesso algorítmico (o tal “blockbuster” de streaming) com o prestígio da crítica e dos pares da indústria.
A barreira invisível do Melhor Filme
Apesar do sucesso de “Frankenstein” e das caçadoras de demónios, a Netflix continua a enfrentar um teto de vidro. Podes recordar-te de sucessos anteriores como “Roma”, “O Poder do Cão” ou “A Oeste Nada de Novo”, que limparam várias categorias em anos anteriores, mas o prémio de Melhor Filme continua a ser uma fortaleza difícil de conquistar para a empresa de Los Gatos.
Durante a cerimónia, o apresentador Conan O’Brien não deixou passar a oportunidade de lançar uma farpa tecnológica. Ao notar a presença de Ted Sarandos na plateia, o humorista brincou dizendo que aquela era “a primeira vez do co-CEO num cinema”, uma alusão direta à guerra eterna entre o modelo de distribuição digital e as salas de exibição tradicionais.
Até ao momento, a Apple TV+ continua a ser a única plataforma de streaming a ter conseguido o feito histórico de vencer o Óscar de Melhor Filme com “CODA”, lançado ainda durante o período da pandemia. Em 2026, as esperanças da Netflix estavam depositadas não só em “Frankenstein”, mas também em “Train Dreams”, que figurava na lista de nomeados para a categoria principal. Contudo, a tendência do ano aponta para uma luta renhida entre produções como “One Battle After Another” e “Sinners”.
Apple e a estratégia de qualidade sobre quantidade
Enquanto a Netflix aposta num volume colossal de conteúdos, a Apple parece manter a sua estratégia de “menos é mais”, focando-se em projetos de alto perfil que garantam presença constante nas grandes premiações. Este ano, o filme “F1”, distribuído pela empresa da maçã, conseguiu garantir o Óscar de Melhor Som, mantendo a relevância da marca no circuito de Hollywood.
Para ti, que consomes estes conteúdos no teu smartphone, tablet ou televisor, este panorama revela uma mudança de paradigma. A tecnologia que permite levar estas obras a milhões de ecrãs simultaneamente já não é vista como uma ameaça à “arte” do cinema, mas sim como o seu motor financeiro e criativo mais dinâmico. A questão que fica para o próximo ano é se a Netflix conseguirá finalmente ajustar a sua estratégia para convencer os membros mais conservadores da Academia de que merece a estatueta de Melhor Filme, ou se continuará a ser “apenas” a rainha das categorias técnicas e dos recordes de visualizações.
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