A inteligência artificial pode reduzir o poder negocial dos trabalhadores da zona euro, mesmo antes de provocar alterações significativas no emprego. O alerta foi feito por Philip Lane, economista-chefe do Banco Central Europeu (BCE), que considera que a possibilidade de substituição de determinadas funções poderá enfraquecer a capacidade dos trabalhadores para negociar aumentos salariais.

A avaliação surge num período em que a inflação continua pressionada pelos preços da energia e as empresas mantêm planos de contratação moderados. Para Lane, a ameaça de automatização pode acrescentar um novo fator de contenção salarial, mesmo que a inteligência artificial ainda não tenha provocado mudanças relevantes nos níveis gerais de emprego.
Como a IA pode afetar o poder negocial dos trabalhadores
Num discurso proferido a 13 de outubro, em Dublin, durante o International AI Summit, Philip Lane explicou que a inteligência artificial ainda não alterou de forma significativa as tendências gerais do emprego na zona euro. No entanto, os planos de contratação continuam moderados, o que afeta particularmente os profissionais que procuram o primeiro emprego.
O economista considera que a possibilidade de substituir determinadas funções por sistemas de IA poderá reduzir a capacidade dos trabalhadores para exigir melhores remunerações. Esta pressão poderá moderar o crescimento dos salários e diminuir a proporção do rendimento gerado pela economia que é destinada ao trabalho.
O mecanismo não exige necessariamente despedimentos. Se os trabalhadores considerarem que as suas funções podem ser automatizadas, poderão ter menos margem para negociar aumentos salariais ou procurar melhores condições noutras empresas.
A análise não demonstra, contudo, que esta relação já esteja a produzir efeitos mensuráveis. Lane apresenta-a como uma possibilidade que ajuda a compreender a evolução do mercado de trabalho.
O responsável já tinha abordado esta hipótese a 5 de outubro, quando relacionou a potencial substituição de trabalhadores pela IA com a moderação da procura de mão de obra e as dificuldades em obter aumentos salariais que compensem a subida dos preços da energia.
Metade dos trabalhadores inquiridos já utiliza IA
A preocupação com os efeitos da automatização surge num momento de rápida adoção da inteligência artificial nas empresas europeias.
Segundo um estudo publicado pelo BCE em agosto de 2026, a percentagem de trabalhadores inquiridos que utiliza IA nas suas atividades profissionais duplicou em dois anos, de 26% em 2024 para 52% em 2026.
Os resultados baseiam-se no inquérito às expectativas dos consumidores do BCE, que recolhe mensalmente respostas de cerca de 20.000 pessoas em 11 países da zona euro.
Os participantes que utilizam estas ferramentas comunicaram poupanças de tempo, mas os ganhos concentram-se em determinados setores e tarefas especializadas, como a programação. Apesar da rápida adoção, o BCE considera que ainda é demasiado cedo para identificar efeitos relevantes na produtividade agregada da economia.
A transformação também não afeta todas as profissões da mesma forma. Algumas funções poderão beneficiar de maior procura por competências complementares à inteligência artificial, enquanto outras enfrentam um risco superior de substituição.
Esta diferença reforça a importância da adaptação profissional. Como analisámos no artigo sobre a utilização da IA no trabalho, a automatização de tarefas não implica necessariamente a eliminação de profissões, mas pode alterar as competências exigidas e a forma como as empresas organizam o trabalho.
Investimento em IA também pressiona as taxas de juro
As consequências económicas da inteligência artificial não se limitam ao emprego e aos salários.
Philip Lane considera plausível que o crescimento mundial do investimento em IA, associado às expectativas de ganhos futuros de produtividade, esteja a contribuir para a subida das taxas de juro de longo prazo.
O desenvolvimento de modelos, a construção de centros de dados e a expansão da infraestrutura computacional exigem investimentos elevados. O financiamento destas atividades tem contribuído para o crescimento da dívida associada ao setor tecnológico, sobretudo nos mercados internacionais.
Apesar de a dimensão do investimento europeu ser inferior à registada nos Estados Unidos e noutras regiões, a subida das taxas de juro internacionais também se transmite à zona euro.
Para o BCE, esta evolução representa um aperto das condições financeiras. Taxas de juro de longo prazo mais elevadas podem reduzir o investimento das empresas, pressionar os custos de financiamento e moderar a atividade económica.
Estes efeitos são relevantes para as decisões de política monetária, uma vez que condições financeiras mais restritivas podem contribuir para reduzir as pressões inflacionistas a médio prazo.
Lane alertou ainda para os riscos associados às avaliações elevadas das empresas de IA e ao aumento da emissão de dívida para financiar o setor. Uma revisão das expectativas de crescimento poderá afetar os mercados financeiros e colocar em causa parte dos investimentos realizados.
BCE reconhece potencial da IA para a economia europeia
Apesar dos riscos identificados, Philip Lane considera que a inteligência artificial poderá aumentar a produtividade e ajudar a compensar os efeitos económicos do envelhecimento da população europeia.
A tecnologia pode permitir que as empresas produzam mais com os recursos disponíveis, mas os resultados dependerão da forma como a IA é integrada nos processos de trabalho e da capacidade de adaptação das organizações e dos trabalhadores.
A principal incerteza está na distribuição desses ganhos. Uma melhoria da produtividade não garante, por si só, aumentos salariais proporcionais, sobretudo se a automatização reduzir a procura por determinadas competências.
Para já, o BCE não identifica uma transformação generalizada do emprego provocada pela inteligência artificial. A possibilidade de a tecnologia estar a limitar o poder negocial dos trabalhadores permanece uma hipótese económica que terá de ser confrontada com a evolução dos salários, da contratação e da produtividade.
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