Porque é que as empresas de tecnologia parecem obcecadas em enfiar Inteligência Artificial em cada aplicação, serviço e canto da nossa vida digital, muitas vezes contra a vontade dos utilizadores? A resposta pode ser mais simples do que parece: os líderes destas empresas não estão apenas a vender o produto; eles são “crentes” fervorosos.
Jensen Huang, o CEO da Nvidia (a empresa que mais lucra com a revolução da IA), protagonizou recentemente um momento que ilustra perfeitamente esta mentalidade. Segundo relatos, Huang ficou genuinamente confuso e frustrado ao saber que alguns gestores poderiam estar a travar a adoção da IA, chegando ao ponto de questionar a sua sanidade mental. Para ele, a automação total não é uma opção; é um imperativo.
A ordem de marcha: “Automatizem tudo”
O episódio, reportado pelo Business Insider, ocorreu durante uma reunião interna. Quando Huang soube que alguns gestores estavam a instruir os seus trabalhadores para usarem menos IA, a sua reação foi explosiva: “Vocês estão loucos?” (“Are you insane?”).
A sua diretiva foi clara e abrangente: ele quer que “toda a tarefa que seja possível de ser automatizada com inteligência artificial, seja automatizada com inteligência artificial”.
Huang tentou suavizar o golpe, assegurando às pessoas que “ainda teriam trabalho para fazer”, mas a mensagem subjacente é inequívoca: na visão da Nvidia, o trabalho humano deve ser, sempre que possível, substituído ou aumentado por algoritmos.

A bolha dos CEOs vs. a realidade dos trabalhadores
Esta postura agressiva de Huang gerou, previsivelmente, uma reação negativa por parte do público e dos trabalhadores da indústria. As críticas focam-se em dois pontos principais que parecem escapar à visão otimista dos executivos:
- O Medo do Desemprego: Quando um CEO fala em automatizar “tudo”, o trabalhador comum não ouve “eficiência”; ouve “despedimento”. A ideia de que a IA serve para substituir humanos, e não apenas para os ajudar, é uma preocupação real e estatisticamente fundamentada em muitos setores.
- As Alucinações da IA: Os modelos de linguagem (LLMs) atuais ainda são propensos a erros graves e “alucinações” (inventar factos). Forçar a sua utilização em todas as tarefas, sem critério, pode levar a erros operacionais graves e a uma dependência perigosa de ferramentas que não são 100% fiáveis.
O futuro é inevitável (porque eles querem que seja)
A atitude de Jensen Huang revela uma verdade importante sobre o estado atual da tecnologia: as pessoas que estão ao leme da revolução da IA não conseguem conceber que alguém não goste dela. Para eles, a resistência à IA é ilógica, um sinal de “loucura” ou de atraso.
Enquanto líderes como Huang, Sam Altman (OpenAI) e Satya Nadella (Microsoft) continuarem a acreditar que a IA é “a melhor coisa desde o pão fatiado”, a pressão para a integrar em todos os aspetos da nossa vida profissional e pessoal não vai abrandar. A questão já não é se devemos usar a IA, mas sim como vamos gerir a imposição dessa tecnologia por quem detém o poder.
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