A Huawei afirma ter reduzido quase totalmente a dependência da tecnologia dos EUA, após vários anos de restrições comerciais que limitaram o acesso da empresa chinesa a semicondutores, software e componentes estrangeiros.
Richard Yu, presidente do conselho de administração da divisão de consumo, considera que o desenvolvimento dos processadores Kirin, do sistema operativo HarmonyOS e de uma cadeia de fornecimento nacional permitiu substituir grande parte das tecnologias anteriormente importadas.
As declarações foram feitas durante um encontro com jornalistas internacionais, realizado a 29 de setembro de 2026, e posteriormente divulgadas pela empresa.
A avaliação de Richard Yu representa um balanço da estratégia de autonomia tecnológica da Huawei, mas não significa que tenham desaparecido todas as dependências externas. A produção dos semicondutores mais avançados continua a enfrentar limitações que a própria fabricante reconhece.

Processadores Kirin e HarmonyOS sustentam estratégia da Huawei
As restrições comerciais impostas pelos Estados Unidos a partir de 2019 obrigaram a Huawei a procurar alternativas a fornecedores e tecnologias que anteriormente utilizava nos seus produtos. A resposta passou pelo desenvolvimento de componentes próprios e pelo reforço das relações com empresas chinesas, numa tentativa de reduzir a exposição a novas limitações de exportação.
Os processadores Kirin constituem uma das principais peças dessa estratégia. Desenvolvidos pela Huawei, permitem à fabricante controlar o desenho de uma componente central dos seus telemóveis, embora a produção física dos chips dependa de instalações e equipamentos especializados.
O lançamento da série Huawei Mate 90, no início de outubro, demonstra os resultados desta aposta. Os novos modelos combinam diferentes processadores Kirin com o HarmonyOS 7, sistema operativo desenvolvido pela empresa e independente do Android na sua arquitetura atual.
A Huawei passou, assim, a controlar duas componentes fundamentais da plataforma dos seus telemóveis. Esta integração reduz a dependência de fornecedores externos, mas não garante, por si só, autonomia em toda a cadeia de produção.
O percurso é particularmente relevante porque, antes das restrições norte-americanas, a empresa utilizava o ecossistema Android da Google e recorria a tecnologias estrangeiras em várias etapas do desenvolvimento dos seus equipamentos. A substituição dessas soluções exigiu não apenas novos componentes, mas também um ecossistema de aplicações e serviços capaz de sustentar a utilização quotidiana dos dispositivos.
Produção de chips avançados continua a ser uma limitação
A principal dificuldade permanece na indústria dos semicondutores. Richard Yu reconheceu que a China continua a depender de equipamentos de litografia ultravioleta profunda, conhecidos pela sigla DUV, enquanto procura desenvolver alternativas nacionais às máquinas de litografia ultravioleta extrema, ou EUV.
Estas últimas são utilizadas na produção comercial dos chips mais avançados, com circuitos de dimensões cada vez menores. As restrições à exportação destes equipamentos dificultam a capacidade dos fabricantes chineses para acompanhar os processos industriais utilizados por empresas como a TSMC e a Samsung.
Segundo a Reuters, a capacidade chinesa para fabricar processadores avançados continua limitada. A agência relaciona esta dificuldade com a dependência de equipamentos DUV e com as restrições ao acesso à litografia EUV.
A Huawei procura compensar parte destas limitações através de alterações na arquitetura dos processadores. O Kirin 9050 Pro, utilizado nas configurações superiores da série Mate 90, recorre à tecnologia LogicFolding, que reorganiza partes das ligações internas do circuito em três dimensões.
Como já explicámos no artigo dedicado ao Kirin 9050 Pro, esta abordagem procura aumentar a densidade e o desempenho dos circuitos sem depender exclusivamente de processos de fabrico mais avançados.
A solução, contudo, não elimina as limitações industriais. A maior complexidade do fabrico e as exigências adicionais de silício podem condicionar a capacidade de produção.
Por outro lado, desenvolver um processador na China não significa que todos os equipamentos, ferramentas de conceção e processos utilizados no seu fabrico sejam de origem chinesa. A distinção é essencial para avaliar o alcance da independência tecnológica defendida pela Huawei.
Acordo com a Qualcomm mostra que as relações tecnológicas continuam
A afirmação de Richard Yu ganhou um novo enquadramento poucos dias depois do encontro com a imprensa. A 5 de outubro, a Huawei e a norte-americana Qualcomm anunciaram um acordo plurianual de licenciamento de patentes que abrange tecnologias 5G, inteligência artificial, computação e redes.
Segundo o comunicado oficial da Qualcomm, o entendimento prevê licenças cruzadas entre as duas empresas e a aquisição, pela Qualcomm, de determinadas patentes da Huawei registadas nos Estados Unidos. A conclusão da transação permanece sujeita às aprovações regulamentares necessárias.
O acordo não representa um regresso ao fornecimento de processadores da Qualcomm à Huawei. Trata-se de uma relação de propriedade intelectual, que permite às empresas utilizar tecnologias protegidas por patentes nas condições estabelecidas contratualmente.
Ainda assim, demonstra que a autonomia tecnológica não implica necessariamente a eliminação das relações com empresas norte-americanas. A indústria dos semicondutores e das telecomunicações funciona com normas, patentes e tecnologias desenvolvidas por organizações de diferentes países.
A Huawei pode reduzir a utilização de componentes fabricados nos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, continuar a participar em acordos internacionais de licenciamento.
Autonomia tecnológica não significa independência total
A evolução da Huawei desde 2019 demonstra que as restrições comerciais não impediram a empresa de desenvolver alternativas em áreas fundamentais para o seu negócio. Os processadores Kirin, o HarmonyOS e a reorganização da cadeia de fornecimento representam progressos concretos na substituição de tecnologias estrangeiras.
No entanto, a afirmação de que a dependência dos Estados Unidos foi praticamente eliminada continua a ser uma avaliação da administração da empresa. Não foi apresentada uma análise independente que permita quantificar essa redução em toda a cadeia tecnológica.
Persistem igualmente diferenças entre a capacidade de conceber processadores, a disponibilidade de fábricas para os produzir e o acesso aos equipamentos necessários para fabricar chips com os processos industriais mais avançados.
É nesta última área que se mantém uma das principais dificuldades para a Huawei e para a indústria chinesa. O desenvolvimento de máquinas nacionais de litografia EUV poderá reduzir essa limitação, mas a existência de projetos nesta área não equivale à disponibilidade de equipamentos comerciais capazes de substituir os sistemas atualmente utilizados pelos principais fabricantes mundiais.
A declaração de Richard Yu reflete, por isso, uma mudança significativa na estratégia tecnológica da Huawei, mas não demonstra que a empresa tenha alcançado independência em todas as etapas de desenvolvimento e produção dos seus equipamentos.
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