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Morte traumática: revelados os últimos momentos de bebês mamutes

Luiz Guilherme Trevisan Gomes por Luiz Guilherme Trevisan Gomes
15/07/2014
Em Ciência
Imagens de tomografia computadorizada trouxeram à tona as mortes de dois filhotes de mamutes, um dos quais, lyuba, mostrado acima. Crédito: francis latreille; university of michigan museum of paleontology
imagens de tomografia computadorizada trouxeram à tona as mortes de dois filhotes de mamutes, um dos quais, lyuba, mostrado acima. Crédito: francis latreille; university of michigan museum of paleontology

Imagens de tomografia computadorizada revelaram as mortes agonizantes de dois bebês mamutes que viveram há mais de 40 mil anos. Os filhotes de aproximadamente 1 e 2 meses de idade, descobertos na Sibéria, se engasgaram com lama, sugere uma equipe de pesquisadores em artigo veiculado no Journal of Vertebrate Paleontology.

A lama inalada impediu que os filhotes de mamute-lanoso respirassem, de acordo com Daniel Fisher, diretor do Museu de Paleontologia da Universidade de Michigan e autor líder do estudo.

Lyuba e Khroma

Os mamutes-lanosos são parentes dos elefantes modernos e foram extintos há cerca de 10 mil anos. Estima-se que, na última glaciação (entre 110 e 12 mil anos atrás), esses gigantes tenham habitado uma região que se estende do norte da Eurásia à América do Norte.

Em 2007, um pastor de renas encontrou um dos filhotes, batizado de Lyuba (“amor”, em russo), às margens de um rio congelado na Península de Yamal, no norte da Rússia. O excelente estado de conservação do animal descoberto — que possibilitou a realização da tomografia do esqueleto completo — deveu-se à colonização do corpo por bactérias que produzem ácido lático, o que fez do corpo uma “salmoura”, observa Fisher, capaz de torná-lo intragável para animais necrófagos, afastando-os.

O segundo animal, Khroma, foi descoberto em 2008 no solo congelado — permafrost ou pergelissolo — da bacia do Rio Khroma. Ao contrário de Lyuba, Khroma teve o coração, os pulmões e partes do crânio e da tromba devorados por necrófagos entre a data da descoberta e a remoção do corpo.

Através de uma técnica desenvolvida por Fisher, que consiste na contagem de camadas de crescimento dos dentes (algo parecido com a contagem de anéis de crescimento das árvores), foi possível determinar as idades de Lyuba e Khroma no momento de suas mortes: 1 e 2 meses, respectivamente.

Tomografia computadorizada mostrando a cabeça e os ombros de lyuba (acima) e khroma (abaixo), bem como os sedimentos inalados pelos mamutes e conservados nas suas vias respiratórias. Imagem: university of michigan museum of paleontology
tomografia computadorizada mostrando a cabeça e os ombros de lyuba (acima) e khroma (abaixo), bem como os sedimentos inalados pelos mamutes e conservados nas suas vias respiratórias. Imagem: university of michigan museum of paleontology

Finais trágicos

As imagens obtidas e a dissecação de alguns poucos tecidos (o montante dissecado foi limitado para não danificar os espécimes) revelaram que ambos os mamutes estavam sadios quando morreram. De fato, Khroma havia acabado de se alimentar do leite materno, conservado no seu organismo com a aparência de “iogurte”, ressalta Fisher.

Lyuba veio a falecer em decorrência da inalação de lama normalmente encontrada em leitos de lagos. Os sedimentos encontrados no seu aparelho respiratório incluem a vivianite, mineral formado por ferro e fosfato tipicamente encontrado em ambientes pobres em oxigênio, como o fundo de um lago.

Ainda, Lyuba apresentou sinais do reflexo de imersão dos mamíferos, resposta autônoma que ocorre quando a pele e os músculos faciais dos mamíferos (inclusive os humanos) entram em contato com a água fria. Tal reflexo visa proteger órgãos vitais, como coração e cérebro, durante mergulhos intencionais ou acidentais, propiciando um aumento da capacidade de retenção do oxigênio, e age desviando a circulação sanguínea das extremidades para esses órgãos. Assim, o fosfato de ferro observado em tecidos faciais do filhote pode ter se originado do ferro presente no sangue enviado para o cérebro e do fósforo contido na vivianite, de forma que os elementos teriam entrado em contado depois que as bactérias se alimentaram dos ossos de Lyuba, fazendo com que o fósforo fosse liberado do crânio.

O quadro proposto pelos pesquisadores descreve uma morte trágica: Lyuba provavelmente atravessava um lago congelado quando o gelo cedeu e o animal caiu de cabeça para baixo, inalando os sedimentos do leito. Em seguida, o pequeno mamute teria tentado eliminar a lama das vias respiratórias soprando-a pela tromba, mas apenas conseguiu sufocar ainda mais, tendo em vista que as vias nasais se afunilam na tromba. Segundo Fisher, a lama “se moveu direto para sua traqueia e brônquios”, em um momento em que o animal estava cansado demais para continuar tentando eliminá-la.

Já a morte de Khroma envolve mais especulações, uma vez que parte do seu corpo serviu de alimento a outros animais, porém, constatou-se que sua coluna estava quebrada e que sua traqueia continha lama de um rio de forte correnteza. Um cenário põe Khroma na margem do rio — o solo em que se apoiava cedeu, levando à queda que fraturou sua coluna, e a soterrou sob a lama inalada por ela enquanto tentava se desprender.

Para os cientistas, os últimos momentos dos dois mamutes são mais do que uma história de terror. Por exemplo, o cérebro de Khroma era menor do que o de um elefante moderno recém-nascido, o que indica um período de gestação menor para aqueles animais. Ademais, talvez as diferenças de tamanho entre os ossos faciais de Khroma, maiores, e os de Lyuba não representem meramente a diferença de idade, mas uma possível diferença entre populações de mamutes, propõe um comunicado de imprensa lançado pela Universidade de Michigan.

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Tags: animaisesqueletomamutemorte
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Luiz Guilherme Trevisan Gomes

Luiz Guilherme Trevisan Gomes

é graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e trabalha como consultor financeiro na Valore Brasil - Controladoria de Resultados. Atualmente, cursa o MBA em Controladoria e Finanças na Universidade de São Paulo (USP). Entusiasta da razão e da ciência, fundou o espaço de divulgação científica Make It Clear Brasil, em 2013.

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