Lua de Saturno abriga água líquida sob imensa camada de gelo

Pesquisadores descobriram a presença de água líquida entre a camada de gelo que recobre Encélado (acima), lua de Saturno, e seu núcleo rochoso. Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute

Pesquisadores descobriram a presença de água líquida entre a camada de gelo que recobre Encélado (acima), lua de Saturno, e seu núcleo rochoso. Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute

 

 




Cientistas descobriram um oceano situado abaixo da superfície congelada da lua Encélado, satélite do planeta Saturno, levantando suspeitas quanto à possível existência de vida extraterrestre nas suas profundezas.

“A principal implicação do nosso trabalho é a de que existem ambientes potencialmente habitáveis” e completamente inesperados no nosso sistema solar, afirma Luciano Iess, engenheiro aeroespacial da Universidade de Roma “La Sapienza” e autor líder do estudo responsável pela descoberta, publicado na Science.

A pesquisa indica que o grande depósito de água esteja compreendido entre o núcleo rochoso do corpo celeste e uma camada de gelo de cerca de 35 quilômetros de espessura, fato que confere a Encélado um estado especial, compatível com o da lua Europa, de Júpiter, no qual a água líquida está em contato com a rocha. Os pesquisadores acreditam que rocha e água sejam essenciais para que, com o passar dos éons geológicos, compostos químicos não viventes se transformem em formas de vida, justificando, então, um maior interesse científico sobre a pequena lua de Saturno — cujo diâmetro máximo é de 500 quilômetros.

Estima-se que a temperatura na superfície de Encélado atinja -180 graus Celsius, mas a água líquida é possível graças ao calor produzido por forças de maré que flexionam e quebram o gelo, depositando água líquida abaixo da camada congelada. As forças de maré que provocam o degelo na lua são decorrentes da força gravitacional exercida por Saturno, sugerindo que corpos celestes muito distantes da fonte de calor das estrelas também possam ter vida.

Listras de tigre

Observe as quatro faixas azuladas que aparecem na parte inferior direita da imagem. Essas faixas são as "listras de tigre", visualizadas inicialmente pela sonda Cassini em 2005. Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute

Observe as quatro faixas azuladas que aparecem na parte inferior direita da imagem. Essas faixas são as “listras de tigre”, visualizadas inicialmente pela sonda Cassini em 2005. Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute

 

 

Em 2005, a sonda Cassini-Huygens capturou imagens de enormes colunas de água salgada sendo expelidas no polo sul de Encélado. As observações seguintes do satélite acrescentaram às imagens anteriores a descoberta de compostos orgânicos baseados em carbono liberados por fendas escuras, as “listras de tigre”. Os indícios de água abaixo da superfície de Encélado levaram os pesquisadores da missão Cassini-Huygens a estudar o campo gravitacional da lua com precisão.

Entre 2010 e 2012, em três aproximações distintas, a sonda Cassini mensurou leves desvios na trajetória da lua, uma vez que o campo gravitacional de um corpo celeste é alterado por mudanças na densidade e quantidade de rocha e água presentes na sua superfície. A partir da variação do campo gravitacional, a própria órbita da sonda é afetada, e os desvios no caminho trilhado pelo dispositivo podem ser captados por telescópios terrestres. No caso descrito, radiotelescópios não só mediram as variações na trajetória da sonda, como mapearam, indiretamente, os aspectos geológicos da lua.

Posteriormente, a comparação das medidas do campo gravitacional variável com a topografia da lua levou os cientistas à conclusão de que grandes quantidades de água líquida (cuja densidade é 7% maior do que a do gelo, fazendo com que ela gere um efeito gravitacional maior) escondiam-se sob a gélida superfície.

Os pesquisadores calcularam que a camada de água no polo sul de Encélado — região onde foram encontrados os jatos d’água e listras de tigre — tenha cerca de 10 quilômetros de espessura, mas não souberam precisar se o oceano se espalha ao redor da lua. No entanto, foi possível fazer inferências quanto às características dos fenômenos investigados.

Parece plausível que o vapor d’água lançado pelos gêiseres venha do oceano oculto e saia pelas fissuras da superfície, passando por um sistema de “encanamentos”, explica David Stevenson, cientista planetário do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) em Pasadena e coautor do estudo. Ainda, o sal das colunas de água pode ter sido produzido pela constante dissolução da rocha, que está em contato direto com a água líquida.

Expectativa de vida

Detalhe dos gêiseres nas listras de tigre de Encélado, denominadas Alexandria Sulcus, Cairo Sulcus, Baghdad Sulcus e Damascus Sulcus em referência a cidades mencionadas pelas histórias da obra literária "As Mil e Uma Noites". Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute

Detalhe dos gêiseres nas listras de tigre de Encélado, denominadas Alexandria Sulcus, Cairo Sulcus, Baghdad Sulcus e Damascus Sulcus em referência a cidades mencionadas pelas histórias da obra literária “As Mil e Uma Noites”. Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute

 

 

Para Jonathan Lunine, astrobiólogo da Universidade Cornell, no estado americano de Nova York, e membro da equipe Cassini, tanto o material orgânico detectado nas colunas de água e nos arredores das listras de tigre quanto a descoberta de que o oceano se localiza sobre a rocha aumentam a probabilidade de que haja — ou tenha havido — alguma forma de vida em Encélado: “[c]omo no fundo dos nossos oceanos, a água líquida se infiltraria na rocha, obteria nutrientes e se aqueceria”, pondera Lunine, fazendo do interior de Encélado uma zona de interesse para a busca de vida.

Todavia, os instrumentos da Cassini não são suficientes para esta procura, pois seria necessário identificar uma química orgânica complexa na lua, tarefa que Lunine considera demasiado pesada para o espectrômetro (instrumento utilizado para medir as propriedades da luz emitida por um objeto) da sonda. Agora, os operadores da missão Cassini esperam que a sonda passe pelos gêiseres, no mínimo, mais uma vez até o fim da missão, programado para 2017, a fim de que possam estudar melhor a composição dos jatos.

Fontes: National Geographic, NewScientist

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é graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e trabalha como consultor financeiro na Valore Brasil - Controladoria de Resultados. Atualmente, cursa o MBA em Controladoria e Finanças na Universidade de São Paulo (USP). Entusiasta da razão e da ciência, fundou o espaço de divulgação científica Make It Clear Brasil, em 2013.

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