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Addyi – um comprimido chamado desejo!

Ana Reis Felizardo por Ana Reis Felizardo
20/08/2015 - Atualizado a 20/06/2016
Em Ciência

Ontem a FDA (Food and Drug Administration) anunciou a sua aprovação de um medicamento inovador – o Addyi -, dando início a uma torrente de reflexões, comentários que, esperemos, irão “abanar” a forma como a sexualidade feminina é vista pela comunidade científica e pela sociedade em geral.

O medicamento com o princípio activo flibanserin, foi criado pela Boehringer Ingelheim, uma farmacêutica alemã, com o objectivo inicial de tratar a depressão, no entanto, os testes revelaram uma fraca eficácia para essa finalidade, desvendando outra possibilidade: a de actuar a nível do tratamento do transtorno do desejo sexual hipoactivo em mulheres em pré-menopausa.

Já o apelidaram de “Viagra Feminino” – primeiro erro! – O Addyi, nada tem que ver com Viagra. A sua composição é completamente diferente e o modo como actua também. O Viagra destina – se a tratar a disfunção eréctil masculina e o Addyi a tratar a HSDD ou “transtorno do desejo sexual hipoactivo”. Pode parecer igual, mas não é: a disfunção eréctil, está relacionada com a capacidade de erecção, não actua a nível do desejo sexual, daquele que vêm do cérebro… quer em homens como em mulheres.

Para evitar confusões, distinguem-se pela cor: se o primeiro, é azul, o outro é cor-de-rosa. Assim, a forma redutora e simplista de encarar um e outro fica facilitada, encaixa perfeitamente nos nossos estereótipos de género – azul para meninos e rosa para meninas! Neste aspecto o assunto fica arrumado, podemos ficar tranquilos que o nosso pensamento dualista não será agitado.

Surgem também em destaque os possíveis efeitos secundários, como se nenhum outro medicamento os tivesse: o Addyi pode causar tonturas, sonolência, náuseas, fadiga, insónias, secura da boca e… desmaios. Muitas vozes irão erguer-se sublinhando a importância destes efeitos. Claro que não é agradável para ninguém, desmaiar em pleno acto sexual! Já em relação à secura da boca, pode sempre tirar-se partido disso, usando umas brincadeiras com água, com gelo…

O cerne da questão reside exactamente nisso, nos dias de hoje, não temos muito tempo para brincadeiras, é um facto. Só tomar o comprimido não parece que seja suficiente para ultrapassar esse obstáculo: uma mulher, depois de um dia de trabalho fora de casa, de uma ida ao ginásio para tirar a barriga, de ir para casa preparar banhos para os filhos, refeições para todos e deixar a casa arrumada, é capaz de mostrar resistência a esta droga. Aliás, sugerimos que conste nas advertências, tal como o consumo de álcool. Mas talvez, quem sabe, na hora certa e na dosagem recomendada, possa dar-se o caso de a mulher preferir uma noite de sexo a um cesto de roupa para passar… é algo a experimentar.

Com isto queremos dizer que muitos comportamentos estão enraizados e as exigências que a sociedade coloca sobre as mulheres precisam de mais do que um comprimido.

A eficácia do medicamento é questionada, na medida em que é difícil saber se o transtorno tem uma causa que não seja meramente psicológica, logo alvo de tratamento na área da sexologia e da psicologia, por exemplo.

Até muito recentemente a sexualidade feminina era negada e reduzida à função de procriação, no entanto, em especial depois de outro medicamento igualmente polémico – falamos da pilula contraceptiva, em meados do século passado – foi dado um passo em relação ao modo como era / é vista a sexualidade feminina e foi dada importância e afirmada a legitimidade da dimensão do prazer e do desejo sexual feminino como forma de viver a vida em pleno e alcançar a felicidade.

É recorrente ouvir os sexólogos justificarem que a sexualidade feminina ainda é muito desconhecida da ciência. Isso é algo que nos espanta, na medida em já fomos à Lua, já revelámos alguns mistérios de Marte, descodificámos o genoma humano e… a sexualidade feminina permanece por descobrir?! Ou os cientistas andam muito distraídos ou então esta é a prova de que a mentalidade humana evolui a uma velocidade quase nula.

Certamente irão erguer-se vozes contra o uso do medicamento, mas por uma questão de respeito para com todas as mulheres que ao longo dos seculos têm sofrido e recalcado o seu desejo sexual até o tornarem nulo, em especial quando a sua fertilidade tende a diminuir, é importante manter a mente aberta e observar, dar uma oportunidade à medicina para dar uma ajuda.

A verdade sobre as questões de sexualidade é difícil de obter, por inúmeros factores, no entanto, é de referir que, de acordo com os dados do Inquérito sobre Saúde e Sexualidade, de 2007, em Portugal, verificava-se uma taxa de disfunções sexuais femininas da ordem dos 56% (contra 24% nos homens). No que respeita as disfunções especificamente relacionadas com o desejo afectavam 35% da população feminina (e 15,5% nos homens), e é neste aspecto que pretende actuar o novo comprimido milagroso.

Resta saber quando chegará o medicamento a Portugal e que mulheres terão acesso ao mesmo. Além de nos atrevermos a especular sobre a possível dificuldade de comunicação entre mulheres e profissionais de saúde sobre assuntos relacionados com a sua sexualidade que ultrapassem a dimensão contraceptiva, também nos parece admissível antever que o custo do medicamento, se demasiado elevado, também o pode tornar desigualmente acessível entre classes.

Tags: Addyicomprimidomedicamentomedicinamulheressaúdesexualidade
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Ana Reis Felizardo

Ana Reis Felizardo

É licenciada em Sociologia pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Politicas da Universidade de Lisboa, onde também está a fazer Mestrado em Família e Género. Tem uma paixão atribulada pela escrita, com a qual por vezes corta relações. Tem uma relação estável e igualmente apaixonada com a música, o teatro, o cinema, a literatura e demais expressões artísticas.

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