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A IA que gozava com Martin Luther King Jr. foi silenciada

Vitor Urbano por Vitor Urbano
17/10/2025
Em Inteligência Artificial, Tecnologia

A inteligência artificial generativa deu-nos um poder que, até há pouco tempo, pertencia ao domínio da ficção científica: a capacidade de “ressuscitar” os mortos. Com a nova e revolucionária plataforma de vídeo Sora, da OpenAI, os utilizadores começaram a criar e a partilhar vídeos realistas de figuras históricas, desde Isaac Newton a Michael Jackson. O que começou como uma experiência fascinante, rapidamente descarrilou para o território do desrespeito.

Depois de vários utilizadores terem criado e partilhado vídeos ofensivos e trocistas de Martin Luther King Jr., a OpenAI, a empresa por trás da tecnologia, foi forçada a intervir. Numa decisão que marca um dos primeiros grandes confrontos entre a liberdade da IA generativa e a decência humana, a empresa anunciou que pausou temporariamente a capacidade de gerar vídeos do icónico líder dos direitos civis.

Martin luther king jr. Ia

A linha vermelha da decência: o que aconteceu?

A polémica explodiu quando começaram a circular nas redes sociais, como o TikTok e o YouTube, vídeos gerados por IA que retratavam o Dr. King de formas profundamente desrespeitosas. Os relatos indicam que alguns destes vídeos mostravam a figura histórica a fazer sons de animais ou a lutar com Malcolm X.

A reação foi imediata e contundente, culminando num apelo direto da Dra. Bernice King, a filha de Martin Luther King Jr., para que as pessoas parassem de criar e de partilhar estes clips. O seu pedido ecoou o de outras famílias de figuras públicas, como a da filha de Robin Williams, que já tinha expressado a sua angústia perante as recriações deepfake do seu falecido pai.

Confrontada com uma crescente onda de indignação e com um pedido formal por parte da família do Dr. King, a OpenAI tomou a decisão de intervir.

Statement from OpenAI and King Estate, Inc.

The Estate of Martin Luther King, Jr., Inc. (King, Inc.) and OpenAI have worked together to address how Dr. Martin Luther King Jr.’s likeness is represented in Sora generations. Some users generated disrespectful depictions of Dr.…

— OpenAI Newsroom (@OpenAINewsroom) October 17, 2025

A resposta da OpenAI: um passo atrás, mas um passo necessário

Num comunicado, a OpenAI reconheceu a complexidade da situação. A empresa afirmou que, embora existam “fortes interesses de liberdade de expressão na representação de figuras históricas”, acredita que “as figuras públicas e as suas famílias devem, em última análise, ter o controlo sobre a forma como a sua imagem é utilizada”.

Como resultado, a empresa não só pausou a geração de vídeos do Dr. King, como também anunciou que está a criar um novo sistema. Este sistema permitirá que os representantes autorizados ou os herdeiros de uma figura pública possam solicitar à OpenAI que restrinja o uso da sua imagem na plataforma Sora.

O dilema do “opt-out”: a tecnologia primeiro, a ética depois?

Apesar de ser um passo na direção certa, a abordagem da OpenAI expõe um problema fundamental na filosofia de desenvolvimento de muitas empresas de IA, a do “opt-out”.

O que é que isto significa? Significa que, por defeito, a IA pode ser usada para recriar qualquer pessoa, a menos que os detentores dos direitos (neste caso, a família) peçam ativamente para serem excluídos. Esta abordagem coloca um fardo enorme sobre as famílias e os criadores de conteúdo, que são forçados a policiar constantemente a plataforma em busca de abusos e a submeter pedidos de remoção, em vez de a empresa pedir permissão à partida (um sistema de “opt-in”).

Este caso é um exemplo paradigmático da cultura de “lançar primeiro, resolver os problemas depois” que domina o mundo da tecnologia. A OpenAI lançou uma ferramenta incrivelmente poderosa sem ter salvaguardas éticas suficientemente robustas, e agora está a correr para apagar os fogos que ela própria ajudou a criar.

A empresa já confirmou que está a trabalhar em novas políticas de moderação mais apertadas para o Sora e em ferramentas que darão mais controlo aos detentores de direitos de autor e às famílias. No entanto, este incidente serve de alerta. A capacidade de recriar qualquer pessoa, viva ou morta, com um realismo assustador já não é uma fantasia. É uma realidade. E, como o caso de Martin Luther King Jr. demonstra de forma dolorosa, a nossa sociedade ainda está muito longe de estar preparada para as suas consequências. Este é apenas o começo de uma longa e difícil conversa sobre as regras da nossa nova realidade sintética.

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Vitor Urbano

Vitor Urbano

Frequentou a licenciatura de Desporto em Setúbal e atualmente reside na Letónia. Apaixonado por novas tecnologias e fã do "pequeno" Android desde 2009.

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