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Bruxelas investiga Google por alegada ocultação de conteúdos jornalísticos

Alfredo Beleza por Alfredo Beleza
14/11/2025
Em Notícias

A Comissão Europeia abriu uma investigação formal à Google por suspeitas de despromoção injustificada de conteúdos jornalísticos nos resultados do motor de pesquisa, no âmbito da Lei dos Mercados Digitais (DMA). A investigação incide sobre a política de “site reputation abuse”, que poderá estar a penalizar publishers que recorrem a conteúdos promocionais de terceiros, uma prática central para o modelo de monetização de muitos meios de comunicação.

Bruxelas investiga google por alegada ocultação de conteúdos jornalísticos
Imagem gerada por IA (Gemini)

​De acordo com a Comissão Europeia (principal órgão executivo da UE), esta atuação pode reduzir significativamente o tráfego que chega aos sites noticiosos, afetar receitas publicitárias e limitar a liberdade das empresas de media para conduzirem o seu negócio de forma legítima, inovarem e colaborarem com parceiros comerciais. A investigação coloca em confronto direto o poder das grandes plataformas digitais com a sustentabilidade económica do jornalismo, num momento em que os reguladores europeus intensificam o escrutínio sobre os chamados “gatekeepers”.​

O que está em causa

A Comissão Europeia pretende apurar se a Google despromove, de forma sistemática, conteúdos de publishers quando estes incluem artigos patrocinados, branded content ou outras formas de parcerias comerciais. O foco recai sobre sinais de que sites de notícias passam a surgir em posições inferiores na pesquisa quando alojam este tipo de conteúdos, apesar de estes fazerem parte de práticas legítimas de monetização.​

Segundo o executivo comunitário, esse comportamento pode violar as obrigações do DMA de garantir condições justas, razoáveis e não discriminatórias para empresas que dependem das grandes plataformas para alcançar o público, em particular os meios de comunicação social. Em causa está a possibilidade de as regras de ranking do motor de pesquisa condicionarem, na prática, a viabilidade económica de um setor já pressionado pela fragmentação publicitária e pela concorrência das plataformas.​

A Lei dos Mercados Digitais e os riscos para a Google

A investigação corre ao abrigo do DMA, enquadramento que prevê sanções pesadas para plataformas designadas como “gatekeepers”, como é o caso da Alphabet, casa-mãe da Google. Se Bruxelas concluir que houve infração, a empresa pode enfrentar multas até 10% do volume de negócios mundial anual, valor que pode chegar aos 20% em caso de reincidência.​

O processo tem um prazo indicativo de 12 meses para conclusão, refletindo a intenção da Comissão de acelerar este tipo de dossiês em comparação com as tradicionais investigações antitrust. Paralelamente, a Google já enfrenta outros inquéritos europeus relacionados com a forma como promove os seus próprios serviços verticais na pesquisa e com as regras aplicadas a developers e anunciantes, o que reforça a pressão regulatória sobre o grupo.​

A resposta da Google e o debate sobre o “parasite SEO”

A Google rejeita as acusações e sustenta que a investigação é “equivocada” e “sem mérito”, alegando que a política de “site reputation abuse” visa combater práticas abusivas conhecidas como “parasite SEO”. Segundo a empresa, essa política procura impedir que terceiros utilizem sites reputados para alojar conteúdos de baixa qualidade, desenhados para manipular o algoritmo de ranking e captar tráfego sem oferecer valor real ao utilizador.​

Em declarações públicas e num artigo publicado no seu blog oficial, a Google argumenta que recuar nesta política arrisca premiar maus atores, degradar a qualidade dos resultados e prejudicar milhões de utilizadores europeus. A empresa sustenta ainda que um tribunal alemão já validou a razoabilidade desta abordagem anti-spam, apresentando essa decisão como prova de que as medidas são proporcionais e aplicadas de forma consistente.​

Impacto potencial para publishers e ecossistema mediático

Para os publishers, o centro da disputa não está apenas na posição de cada link nas páginas de resultados, mas no modelo económico que sustenta o jornalismo digital. A Comissão assinala que a penalização de sites que acolhem conteúdos de parceiros pode restringir uma “forma comum e legítima” de monetização, vulnerabilizando meios de comunicação que dependem de publicidade e acordos comerciais para financiar redações e produção noticiosa.​

Críticos da política da Google alertam que qualquer queda relevante de tráfego proveniente da pesquisa tem efeitos diretos nas receitas e na capacidade dos meios continuarem a investir em conteúdos de qualidade. Além disso, surgem receios de que alguns sites possam ser removidos do índice da pesquisa em determinadas circunstâncias, cenário que, segundo fontes da Comissão, é teoricamente possível no âmbito da política em análise.​

Inteligência artificial, pesquisa e a tensão estrutural

Embora a investigação atual não abranja diretamente os resumos gerados por IA (AI Overviews), estes permanecem no pano de fundo das preocupações dos publishers. Federações de imprensa, como a italiana FIEG, já apresentaram queixas formais sobre o impacto desses resumos nas leituras e no tráfego encaminhado para os sites noticiosos, argumentando que a IA pode interpor-se entre as redações e o público.​

O caso ilustra uma tensão de fundo: a mesma plataforma que organiza o acesso à informação para utilizadores funciona como intermediário dominante entre anunciantes e meios de comunicação, o que amplifica qualquer alteração algorítmica. A forma como Bruxelas enquadrar a política de “site reputation abuse” poderá definir limites concretos para o poder das plataformas sobre a descoberta de notícias e servir de precedente para futuros dossiês relacionados com IA generativa aplicada à pesquisa.​

Conclusão

A investigação de Bruxelas à Google é mais do que um conflito técnico sobre critérios de ranking e assume a forma de um teste político e económico ao DMA e ao equilíbrio de forças entre plataformas e publishers. Se a Comissão Europeia concluir que houve discriminação injustificada de conteúdos jornalísticos, pode impor sanções severas e obrigar a uma revisão profunda das políticas anti-spam da Google na Europa, com impacto direto na forma como o jornalismo é descoberto e financiado no espaço digital

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Alfredo Beleza

Alfredo Beleza

É o fundador e director editorial do TecheNet. Com carreira internacional como CEO e director comercial e de marketing em empresas em Portugal, na Suíça e no Brasil, desenvolveu uma perspectiva aprofundada sobre a intersecção entre tecnologia, negócios e mercados globais. Com formação em Gestão, Administração e Marketing pela Webster University, na Suíça, fundou o TecheNet como um projecto editorial comprometido com o rigor e a imparcialidade da informação tecnológica em língua portuguesa.

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