A novela terminou. Pouco mais de um ano depois de ter enfrentado a ameaça existencial de uma proibição total nos Estados Unidos, o TikTok garantiu a sua sobrevivência em solo americano através de uma reestruturação corporativa profunda. A aplicação de vídeos curtos, que se tornou um fenómeno cultural global, faz agora parte de uma nova entidade, a TikTok USDS Joint Venture LLC, num acordo desenhado milimetricamente para satisfazer as exigências de segurança nacional de Washington sem destruir o produto.
A transação, que recebeu luz verde tanto dos reguladores americanos como chineses, marca o fim do controlo maioritário da ByteDance sobre as operações nos EUA, cumprindo os termos da lei “divest-or-ban” (vender ou banir) assinada pelo Presidente Biden em 2024.
A nova matemática do poder: 80% ocidental
Para evitar o “apagão”, a ByteDance teve de abdicar do trono. A empresa chinesa detém agora apenas 19,9% da nova joint venture. A fatia de leão — 80,1% — passou para as mãos de um consórcio de investidores ocidentais e aliados.
Os novos “donos” do TikTok nos EUA são nomes pesados da finança e tecnologia:
- Silver Lake e Oracle: Firmas de investimento e tecnologia americanas.
- MGX: Uma firma de investimento de Abu Dhabi.
Estes três atuam como “investidores gestores”, detendo participações de 15% cada, com o restante capital distribuído por investidores menores, incluindo a firma da família de Michael Dell. Embora os valores financeiros não tenham sido revelados, a estrutura foi desenhada para garantir que o controlo efetivo da plataforma já não reside em Pequim.

CapCut e Lemon8 também mudam de mãos
O acordo é mais abrangente do que se pensava. A nova entidade TikTok USDS não vai gerir apenas a aplicação principal. O seu mandato de supervisão estende-se a todo o portefólio da ByteDance nos EUA, incluindo o popular editor de vídeo CapCut e a aplicação de estilo de vida Lemon8.
A nova empresa tem a responsabilidade total sobre “proteções de dados abrangentes, segurança de algoritmos, moderação de conteúdo e garantias de software” para os utilizadores americanos. Para liderar esta missão, Adam Presser, antigo chefe de operações e confiança do TikTok, assume o cargo de CEO da nova entidade, enquanto Shou Zi Chew, o rosto público do TikTok, mantém um lugar no conselho de administração de sete membros.
Interoperabilidade: o TikTok continua global
A grande vitória para os utilizadores e criadores de conteúdo é a garantia de interoperabilidade. Havia o receio de que este acordo criasse um “TikTok Americano” isolado do resto do mundo, uma espécie de ilha digital sem acesso às tendências globais.
O comunicado oficial dissipa esse medo. A nova estrutura permite que os utilizadores dos EUA continuem a desfrutar de uma “experiência TikTok global”. Isto significa que um criador em Nova Iorque continua a poder ser descoberto em Paris ou Tóquio, e as empresas americanas podem continuar a operar à escala mundial. As entidades da TikTok global nos EUA gerirão esta ponte técnica, assegurando que o comércio eletrónico, a publicidade e o marketing fluem sem fronteiras, apesar da separação na governação e na propriedade.
Este acordo estabelece um precedente vital para a indústria tecnológica: é possível resolver conflitos de soberania digital e segurança nacional através da engenharia corporativa, mantendo a internet global (relativamente) intacta.
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