A Vodafone Portugal concretizou a primeira videochamada com encriptação quântica do país, ligando três localizações distintas em Lisboa através da sua rede de fibra ótica de nova geração. A demonstração decorreu a 17 de abril de 2026, durante a semana do World Quantum Day, e envolveu o Vodafone Innovation Hub na sede da operadora, um data center da Vodafone e o Laboratório de Tecnologias Quânticas do Instituto Superior Técnico, em parceria com o PQI – Portuguese Quantum Institute. A solução utilizada foi a plataforma QuKy da empresa italiana ThinkQuantum, assente na tecnologia Quantum Key Distribution (QKD).

A ameaça quântica à criptografia convencional
A criptografia convencional assenta em algoritmos matemáticos cuja segurança depende da incapacidade dos computadores atuais para os resolver em tempo útil. A computação quântica coloca este equilíbrio em causa: processadores quânticos suficientemente avançados poderão comprometer os métodos de encriptação que protegem comunicações em setores como a saúde, a banca, a energia e as telecomunicações.
É neste enquadramento que a adoção de tecnologias resistentes à computação quântica se torna progressivamente mais urgente para operadores e organizações com dados de longa duração. A videochamada com encriptação quântica realizada pela Vodafone Portugal é o primeiro registo público e documentado de uma operadora nacional a validar esta capacidade num ambiente de rede real.
Quantum Key Distribution: como funciona a tecnologia QKD
A tecnologia QKD distribui chaves de encriptação verdadeiramente aleatórias, geradas segundo as leis da física quântica, sem recorrer à complexidade de algoritmos matemáticos. Qualquer tentativa de interceção altera o estado das partículas transmitidas, tornando a intrusão detetável antes de os dados serem comprometidos. Esta propriedade confere ao QKD uma robustez que os métodos criptográficos convencionais não conseguem assegurar perante adversários com capacidade quântica.
Arquitetura técnica da demonstração
A transmissão segura foi realizada numa topologia de três nós, com a sede da Vodafone e um data center da operadora ligados por um nó central instalado no Instituto Superior Técnico. A comutação ótica nesse nó central simplificou a arquitetura e reduziu o número de equipamentos necessários, num desenho concebido para ser escalável em implementações de rede reais.
A infraestrutura de fibra ótica dedicada foi disponibilizada pela Vodafone, com suporte técnico das equipas do IST e do PQI. A ThinkQuantum forneceu a versão comercial da plataforma QuKy, desenvolvida para se integrar com redes já existentes sem exigir substituição da infraestrutura instalada.
Aplicações práticas em setores críticos
A proteção de dados sensíveis em trânsito, as ligações seguras entre data centers e locais operacionais, e a construção de infraestruturas de rede mais resilientes são os casos de uso identificados para a tecnologia QKD. A saúde, a banca, a energia e as telecomunicações figuram como setores prioritários para a sua adoção, dado o caráter crítico e a longevidade dos dados que gerem.
Segundo a ThinkQuantum, o potencial de aplicação prática situa-se no curto e médio prazo, em particular para entidades públicas e privadas que operam redes óticas de transporte. A empresa não apresentou, contudo, um calendário concreto de expansão comercial.
Paulino Corrêa, Chief Network Officer da Vodafone Portugal, destacou o alcance técnico da iniciativa. “Realizada sobre a rede de fibra ótica de nova geração da Vodafone, esta demonstração inédita, tanto pela tecnologia quântica envolvida como pelo número de nós de comunicação, reforça a preparação da infraestrutura da Vodafone para responder aos desafios tecnológicos dos próximos anos, em particular no domínio da cibersegurança”, afirmou.
Simone Capeleto, CEO da ThinkQuantum, sublinhou a relevância da integração em ambiente real. “Esta demonstração mostra como as tecnologias seguras contra a computação quântica podem ser integradas de forma eficaz em ambientes de rede reais, reforçando o papel do QKD na evolução das infraestruturas de comunicações seguras”, referiu.
Yasser Omar, professor do Instituto Superior Técnico e presidente do PQI – Portuguese Quantum Institute, situou a demonstração no contexto mais amplo do desenvolvimento das comunicações quânticas em Portugal. “Trata-se de uma demonstração histórica em Portugal, que abre caminho à interligação de comunicações quânticas na rede de fibra ótica existente”, concluiu.
Implicações para o ecossistema tecnológico nacional
Esta demonstração coloca Portugal num grupo restrito de países onde operadoras de telecomunicações já validaram, em ambiente real, a integração de tecnologia QKD em redes comerciais. O envolvimento do IST e do PQI reforça a articulação entre o ecossistema académico e a indústria, um fator determinante para a maturação destas tecnologias a nível nacional. A Vodafone Portugal não anunciou condições para uma implementação comercial alargada, mas a prontidão técnica da sua rede ficou documentada num contexto operacional concreto.
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