Se os preços dos novos gadgets estão a dar-te dores de cabeça, parece que já temos um culpado a quem apontar o dedo. A gigante dos semicondutores Micron veio agora a público sugerir que as táticas agressivas de negociação da Apple ajudaram a criar a monumental crise de memória que o mercado atravessa.
Depois de a Apple ter surpreendido tudo e todos com aumentos drásticos nos preços dos seus equipamentos, os bastidores da indústria começaram a fervilhar. A justificação oficial de Tim Cook centrava-se na explosão da inteligência artificial, mas os fornecedores contam uma história ligeiramente diferente e bem mais controversa.
A realidade nua e crua é que a obsessão por fechar contratos a preços irrisórios no passado está agora a cobrar fatura com juros altíssimos. As fábricas de componentes pararam de investir na expansão de linhas de produção em 2023, e agora que o mercado exige mais capacidade, simplesmente não há hardware que chegue para todos.

Como a sede de descontos paralisou a produção
Sumit Sadana, alto executivo da Micron, explicou que durante a quebra de mercado de 2023, as margens de lucro dos fabricantes de memória tornaram-se negativas. Isto aconteceu, em grande parte, porque clientes de peso como a Apple pressionaram as negociações até ao tutano, exigindo valores insustentáveis para o fornecimento de chips DRAM e NAND.
Esta postura, descrita pela Micron como “não construtiva”, obrigou gigantes do setor a travarem a fundo nos investimentos em novas infraestruturas. Basicamente, sem margens de lucro decentes na altura, tornou-se economicamente inviável construir novas fábricas de semicondutores para garantir o escoamento futuro.
É no mínimo irónico ver que a empresa que mais espremeu os fornecedores seja agora forçada a subir o preço dos seus próprios computadores e tablets. A Apple tentou maximizar lucros com preços de saldo nos bastidores, mas o feitiço virou-se contra o feiticeiro, deixando toda a indústria sem capacidade de resposta face à procura atual.
O impacto da inteligência artificial e a falta de memória
Como se o subinvestimento na produção não fosse já o suficiente para criar o pânico, a explosão meteórica da inteligência artificial veio deitar gasolina nesta fogueira. As empresas que constroem servidores e centros de dados estão a absorver quase toda a capacidade de fabrico disponível para suportar o processamento intensivo dos novos modelos de linguagem.
Para entenderes o estado crítico da situação atual e os motivos pelos quais os preços estão a disparar, basta olhar para as prioridades de fabrico na indústria:
- A produção global redirecionou-se fortemente para a lucrativa High-Bandwidth Memory (HBM), exigida pelas potentes placas gráficas de IA.
- Resta uma ínfima percentagem das linhas de fabrico para produzir a memória RAM e o armazenamento tradicional dos teus smartphones e PCs.
- Os preços dos componentes dispararam quase 100% apenas no primeiro trimestre de 2026.
- A Micron já garantiu contratos de longo prazo com valores milionários até 2030, não prevendo grandes melhorias na oferta para o consumidor final antes de 2028.
Tudo isto significa que o teu próximo smartphone ou portátil vai inevitavelmente pesar muito mais na tua carteira. Enquanto a Apple tenta desesperadamente fazer um forte lobby no governo norte-americano para poder comprar componentes a fornecedores chineses bloqueados por sanções, a fatura final sobra sempre para o do costume: tu, o consumidor.
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