A Dyson CameraJet marca a entrada da empresa britânica no mercado da higiene oral com uma escova elétrica que combina uma câmara intraoral, aprendizagem automática e um sistema de irrigação direcionada. Apresentado por James Dyson em Paris, a 1 de setembro, o novo dispositivo já está disponível em Portugal por 479 euros, segundo a página oficial da Dyson Portugal.

O sistema utiliza uma pequena câmara instalada junto à cabeça da escova para localizar os espaços interdentais em tempo real. Um algoritmo analisa as imagens e ativa um jato de elixir oral sempre que identifica uma área entre os dentes. A proposta procura reunir escovagem e limpeza interdental no mesmo dispositivo.
Câmara analisa 28 imagens por segundo
A tecnologia central da Dyson CameraJet recebe o nome Gap Optical Targeting. Uma câmara macro com resolução de 100 000 píxeis capta e analisa 28 imagens por segundo para identificar, acompanhar e antecipar os espaços entre os dentes.
De acordo com a apresentação oficial da Dyson CameraJet, o algoritmo de aprendizagem automática foi treinado com mais de 470 000 imagens dentárias, recolhidas ao longo do desenvolvimento do produto. Todo o sistema funciona com cerca de 16 milhões de linhas de código.
Depois de detetar um espaço interdental, o dispositivo pode ativar o jato em cerca de 100 milissegundos. O líquido sai através de um padrão cónico, em vez do fluxo estreito comum em muitos irrigadores orais.
A empresa afirma que esta configuração permite cobrir uma área superior com menor pressão sobre dentes e gengivas. O depósito integrado tem capacidade para 12,5 ml de elixir oral e recorre a uma bomba de diafragma para manter o fluxo mesmo com a escova inclinada ou na horizontal.
A tecnologia procura resolver um problema específico da higiene oral: os espaços entre os dentes são zonas onde as cerdas nem sempre conseguem chegar. A CameraJet tenta automatizar essa etapa ao detetar os espaços e aplicar o líquido sem obrigar o utilizador a interromper a escovagem.
Escova sónica adapta o movimento das cerdas
A Dyson desenvolveu também um sistema próprio para a cabeça da escova. A tecnologia Variable Sonic Oscillation modifica o ângulo de oscilação durante o contacto com os dentes para evitar que algumas cerdas deixem de se mover sob pressão.
A cabeça trabalha perto das 1000 oscilações por segundo e combina dois tipos de cerdas destinados à superfície dos dentes e à linha das gengivas. Cada cabeça possui ainda uma etiqueta RFID que permite ao equipamento contabilizar utilizações e avisar o utilizador quando chega o momento de a substituir.
A Dyson afirma que testes externos registaram uma remoção de placa até 69% superior à de escovas elétricas premium de referência em áreas de difícil acesso. Este resultado, porém, deve ser interpretado no contexto da metodologia utilizada.
Um artigo publicado pelo The Next Web assinala que os testes recorreram a placa artificial desenvolvida para investigação e não correspondem a um ensaio clínico que demonstre melhores resultados de saúde oral entre utilizadores da CameraJet.
A própria Dyson refere que trabalhou durante cinco anos com a Faculdade de Medicina Dentária da Universidade Nacional de Singapura no desenvolvimento deste material de teste, utilizado para avaliar e aperfeiçoar a geometria do jato.
Aplicação MyDyson mostra o interior da boca
A câmara não serve apenas para orientar o sistema de irrigação. A ligação Wi-Fi de 2,4 GHz e Bluetooth permite transmitir a imagem em direto para a aplicação MyDyson.
O utilizador pode observar os dentes através de uma perspetiva intraoral, consultar mapas de cobertura da escovagem e receber informação sobre a técnica utilizada. A aplicação permite também alterar a intensidade da escovagem e escolher entre o acionamento automático ou manual do jato.
A presença de uma câmara num dispositivo de higiene pessoal levanta questões sobre privacidade. Segundo a Dyson, a câmara apenas fica ativa durante a visualização em direto ou durante o funcionamento automático do jato. As imagens não são gravadas no dispositivo nem armazenadas na cloud.
A empresa desenvolveu ainda uma pasta dentífrica sem espuma e um elixir oral com pouca espuma. A razão é técnica: a espuma pode bloquear o campo de visão da câmara e prejudicar a identificação dos espaços interdentais.
O sistema não obriga, contudo, à utilização dos consumíveis Dyson. Outros produtos podem ser usados, embora a marca recomende pastas sem SLS e elixires transparentes ou com pouca espuma.
A Dyson CameraJet entra numa nova categoria de produto
A Dyson CameraJet resulta de seis anos de desenvolvimento, envolveu 661 engenheiros e deu origem a 38 pedidos de patente, segundo os dados divulgados pela empresa.
A entrada na higiene oral segue uma estratégia já aplicada pela Dyson noutras categorias, a de integrar sensores, software e engenharia mecânica em produtos de utilização quotidiana. Neste caso, a aposta desloca-se para um segmento onde já existem escovas elétricas ligadas a aplicações e sistemas independentes de irrigação oral.
O preço coloca a Dyson CameraJet no segmento superior do mercado. Em Portugal, a Dyson disponibiliza as versões Ceramic Ultra Blue e Ceramic Pink por 479 euros.
O valor torna relevante distinguir inovação tecnológica de benefício clínico comprovado. A British Dental Association, citada pelo The Guardian, recorda que equipamentos mais sofisticados não substituem os princípios básicos da higiene oral nem as recomendações dos profissionais de saúde dentária.
A Dyson CameraJet apresenta, ainda assim, uma abordagem pouco comum: em vez de acrescentar apenas conectividade a uma escova elétrica, utiliza visão computacional para controlar fisicamente outra função do dispositivo. A utilização real, os testes independentes e a comparação com soluções de irrigação já existentes deverão ajudar a determinar até que ponto essa complexidade representa uma vantagem prática.
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