Uma comissão científica internacional convocada pela revista The Lancet identificou o risco de extinção associado à IA, quando utilizada de forma maliciosa, como uma das principais ameaças à sobrevivência humana até 2100. O conflito nuclear é o outro cenário classificado como tendo potencial para provocar a extinção da humanidade.

A avaliação integra um conjunto de 17 ameaças interligadas à saúde global, que abrangem doenças, alterações climáticas, desigualdades económicas, conflitos e tecnologias emergentes. Os investigadores sublinham que a probabilidade dos dois cenários extremos é baixa, mas consideram que as suas consequências justificam medidas de prevenção.
O relatório da Comissão Lancet sobre Ameaças Globais à Saúde no Século XXI, publicado a 10 de outubro de 2026, baseia-se em dados históricos e análises de risco que abrangem 204 países e territórios. A comissão reuniu contributos de 35 especialistas nas áreas da saúde, economia, segurança, governação e tecnologia.
Utilização maliciosa da IA pode ter consequências globais
A preocupação dos investigadores não se limita à possibilidade de os sistemas de inteligência artificial cometerem erros. O relatório considera também cenários nos quais a tecnologia pode ser utilizada deliberadamente para causar danos em grande escala.
Entre os riscos analisados encontra-se a utilização de IA para facilitar o desenvolvimento de armas biológicas. A comissão considera ainda os potenciais efeitos de falhas em sistemas autónomos e a possibilidade de perda de controlo humano sobre tecnologias avançadas.
A análise estima que medidas destinadas a reduzir os riscos associados à utilização maliciosa da IA poderiam evitar a perda de aproximadamente 10,4 mil milhões de anos de vida saudável até 2100.
Esta estimativa não corresponde a uma previsão de mortes nem significa que o cenário de extinção seja provável. Representa uma avaliação dos potenciais benefícios de medidas preventivas, que considera a gravidade dos acontecimentos e a probabilidade da sua ocorrência.
Os resultados associados a ameaças sem precedentes históricos apresentam, contudo, um grau de incerteza superior ao das projeções baseadas em dados epidemiológicos consolidados.
Conflito nuclear apresenta risco semelhante
O conflito nuclear surge como a segunda ameaça com potencial de extinção humana. Além das mortes provocadas diretamente por explosões, os investigadores consideram as consequências de uma eventual perturbação climática global, que poderia comprometer a produção agrícola e provocar crises alimentares.
Segundo a informação divulgada pela The Lancet, medidas eficazes para prevenir conflitos nucleares poderiam evitar aproximadamente 133 milhões de mortes e a perda de 9,35 mil milhões de anos de vida saudável até ao final do século.
A comissão distingue estes riscos extremos de ameaças que já provocam danos substanciais nas populações, como a poluição atmosférica, a resistência aos antimicrobianos, a obesidade, a desnutrição infantil e as alterações climáticas.
Risco de extinção: uma avaliação de 17 ameaças até 2100
Para comparar riscos de natureza diferente, os investigadores recorreram aos anos de vida ajustados por incapacidade, conhecidos pela sigla DALY. Esta métrica combina os anos perdidos devido à morte prematura com os anos vividos com problemas de saúde ou incapacidade.
A metodologia compara cenários plausíveis de maior e menor impacto para cada ameaça, de modo a avaliar quantos anos de vida saudável poderiam ser preservados através de medidas de prevenção e intervenção.
Uma ameaça foi classificada como catastrófica quando cumpria critérios que incluíam um impacto potencial de pelo menos mil milhões de anos de vida saudável perdidos até 2100, disponibilidade de informação suficiente para a análise e possibilidade de intervenção através de políticas públicas.
A comissão alerta também para as relações entre os diferentes riscos. As alterações climáticas, por exemplo, podem agravar a insegurança alimentar e aumentar a pressão sobre sistemas de saúde já fragilizados por conflitos ou desigualdades económicas.
Investigadores defendem prevenção e vigilância contínua
Perante os resultados, a comissão recomenda três linhas de ação. A primeira consiste em reforçar a preparação dos sistemas de saúde para enfrentar crises de grande dimensão. A segunda passa por aumentar o investimento em investigação e tecnologias capazes de reduzir riscos. A terceira propõe mecanismos permanentes de acompanhamento das ameaças emergentes.
No domínio da inteligência artificial, a avaliação reforça a necessidade de considerar os riscos de utilização maliciosa no desenvolvimento e na governação dos sistemas mais avançados.
A comissão defende ainda a criação de um mecanismo de acompanhamento, denominado Lancet Monitor of 21st Century Global Threats to Health, destinado a atualizar regularmente a avaliação das ameaças e apoiar decisões públicas.
O relatório não apresenta o futuro como inevitável. As projeções procuram identificar consequências possíveis e quantificar os benefícios potenciais das medidas de prevenção tomadas nas próximas décadas.
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