A OpenAI prepara-se para levar os anúncios no ChatGPT a todos os utilizadores dos planos gratuito e Go nos Estados Unidos, numa expansão que sinaliza uma viragem decisiva no modelo de negócio de uma das empresas mais influentes da inteligência artificial generativa. A informação foi avançada pelo The Information e confirmada por fontes citadas pela Reuters.
Do teste controlado à escala total
O piloto publicitário arrancou a 9 de fevereiro de 2026, limitado a utilizadores adultos com sessão iniciada nos planos Free e Go, este último com um preço de 8 dólares mensais. Os planos Plus, Pro, Business, Enterprise e Education ficam expressamente fora do alcance da publicidade. A distinção é clara: quem paga mais, não vê anúncios.
As primeiras marcas a entrar no programa de anúncios no ChatGPT incluem Target, Ford, Adobe, Expedia e Best Buy. As agências Dentsu, Omnicom e WPP garantiram presença desde o início. A OpenAI exigiu compromissos mínimos de 200 mil dólares por marca, a um custo de 60 dólares por mil impressões, valores que posicionam o inventário do ChatGPT no segmento premium do mercado digital.
A 2 de março, a plataforma de tecnologia publicitária Criteo tornou-se a primeira ad-tech a integrar o inventário do ChatGPT, permitindo a anunciantes aceder à plataforma sem negociar diretamente com a OpenAI.

Os anúncios no ChatGPT chegam devagar, os orçamentos ficam por gastar
Os números contam uma história diferente da narrativa de expansão acelerada. Dados da Sensor Tower revelam que, a meio de março, os anúncios apenas chegaram a cerca de 5% dos utilizadores móveis do ChatGPT. A CNBC reportou, a 20 de março, que vários parceiros expressaram frustração com o ritmo de implementação.
Phillip Thune, CEO da Adthena, plataforma de search intelligence que representa mais de 50 clientes no programa, colocou a questão sem rodeios: “When is ChatGPT going to start spending my money?”. Segundo o Business Insider, a OpenAI gastou uma fração mínima dos orçamentos comprometidos pelas marcas para exibir anúncios no ChatGPT.
Há, contudo, sinais de aceleração. O volume de publicidade cresceu cerca de 600% desde o início de março até meados do mês. Mais de 100 marcas já publicitaram na plataforma, com 44% oriundas do setor retalhista.
A promessa da neutralidade editorial
A OpenAI afirma que os anúncios não influenciam as respostas geradas pelo ChatGPT e que as conversas dos utilizadores não são partilhadas com os anunciantes. A empresa descreve a abordagem como “ponderada e deliberada”, justificando o ritmo lento precisamente pela natureza do produto: “um ambiente de confiança e, muitas vezes, pessoal para os utilizadores”, nas palavras de um porta-voz.
A promessa é relevante. A sua verificação independente, porém, ainda não existe. Nenhum mecanismo de auditoria externo foi anunciado até à data, o que torna esta afirmação, por ora, inverificável.
Os anúncios no ChatGPT surgem no final das respostas, visualmente separados do conteúdo orgânico, e são sinalizados como patrocinados. A seleção baseia-se no tópico da conversa e no histórico de interações, num modelo semelhante ao da Google e da Meta.
O que está verdadeiramente em jogo
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Utilizadores ativos semanais | +800 milhões |
| Quota estimada no plano gratuito | ~90% |
| CPM cobrado aos anunciantes | 60 dólares |
| Compromisso mínimo por marca | 200 mil dólares |
| Crescimento de anúncios (início a meados de março) | ~600% |
| Receita publicitária projetada (2029) | Até 25 mil milhões de dólares |
Com 90% da base de utilizadores no plano gratuito, a OpenAI dispõe de uma audiência publicitária potencial que a Google e a Meta levaram anos a construir. Se o modelo se consolidar, a empresa passa de rival tecnológica a concorrente direta no mercado de publicidade digital, avaliado em mais de um bilião de dólares.
William Swayne, presidente global da Dentsu, disse estar “satisfeito com os primeiros sinais de desempenho”, mas admitiu querer mais ferramentas de personalização. O ceticismo do setor mantém-se, portanto, ativo.
Implicações para o setor
A expansão dos anúncios no ChatGPT não é apenas uma decisão comercial da OpenAI. Coloca uma questão mais ampla ao ecossistema da inteligência artificial: pode um assistente de IA financiado por publicidade preservar a neutralidade das suas respostas? A resposta a esta pergunta vai definir, em grande medida, o grau de confiança que utilizadores e reguladores depositarão nestes sistemas nos próximos anos.
A OpenAI está, neste momento, a fazer uma aposta de dupla natureza, financeira e reputacional. O resultado determinará se o ChatGPT se torna o próximo grande canal publicitário digital, ou se a pressão dos anunciantes e a desconfiança dos utilizadores forçam uma revisão do modelo.
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