A crise energética na Europa voltou ao centro das atenções depois de a ONU alertar para o risco de uma nova escalada dos custos durante o próximo inverno, num momento em que os preços do gás permanecem elevados e as reservas europeias estão abaixo dos níveis dos últimos anos.

Simon Stiell, secretário-executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, afirmou perante o Parlamento Europeu que uma nova crise energética de inverno ameaça a região devido à dependência dos combustíveis fósseis. No discurso publicado pela UNFCCC, o responsável classificou as importações voláteis de petróleo e gás como uma vulnerabilidade económica da Europa.
O alerta não significa, porém, que a União Europeia esteja perante uma escassez iminente de gás. A Comissão Europeia considera que o sistema energético está mais preparado do que em 2021 e 2022, devido à diversificação dos fornecedores, ao aumento da capacidade de importação de gás natural liquefeito (GNL) e à redução do consumo.
Pontos principais
- O preço de referência do gás europeu atingiu 75 euros/MWh no início de setembro.
- As reservas europeias rondavam 66% da capacidade, o nível mais baixo para esta altura do ano em 15 anos.
- A Comissão Europeia não identifica, para já, risco imediato de falta de gás.
- O principal perigo poderá estar nos preços pagos pela Europa para garantir o abastecimento durante o inverno.
- O conflito no Médio Oriente continua a afetar os fluxos internacionais de energia.
Crise energética na Europa regressa com gás mais caro
Os preços de referência do gás natural na Europa atingiram 75 euros/MWh na primeira semana de setembro, mais do dobro do valor registado um ano antes e o nível mais elevado desde o final de 2022.
Segundo uma análise da Reuters sobre o mercado europeu de gás, as instalações de armazenamento europeias encontravam-se perto de 66% da capacidade, cerca de 12 pontos percentuais abaixo do nível do ano anterior e no valor mais baixo para esta altura do ano em 15 anos.
A mesma análise indica que as reservas poderão atingir apenas entre 70% e 75% antes do inverno, depois de terem alcançado 83% em 2025. A Alemanha, que possui a maior capacidade de armazenamento da Europa, apresentava níveis próximos de 54%, enquanto nos Países Baixos as reservas rondavam 48%.
Reservas mais reduzidas obrigam os países europeus a depender mais das importações durante os meses frios. Essa necessidade não implica necessariamente falta de gás, mas aumenta a exposição às oscilações dos mercados internacionais.
Médio Oriente alterou novamente o mercado energético
A pressão atual tem uma origem diferente da crise energética de 2022, quando a invasão russa da Ucrânia e a redução das entregas de gás russo provocaram uma subida histórica dos preços europeus.
Em 2026, o principal fator de perturbação está no Médio Oriente. As restrições aos fluxos energéticos na região afetaram as exportações de petróleo e GNL e voltaram a expor a dependência europeia dos mercados internacionais.
A Agência Internacional de Energia acompanha a atual crise através de um mecanismo dedicado às respostas dos governos, que reúne medidas de conservação, substituição de combustíveis e reforço da oferta adotadas para responder às perturbações do mercado. A agência coordenou também a libertação de reservas petrolíferas de emergência pelos países membros.
No mercado do GNL, a interrupção é particularmente relevante para a Europa. A quebra das exportações do Golfo foi parcialmente compensada pelo aumento da produção noutros mercados, incluindo os Estados Unidos e o Canadá.
Esta oferta adicional ajuda a explicar por que razão os preços permanecem muito abaixo dos máximos da crise de 2022, quando o gás europeu chegou temporariamente a ultrapassar 300 euros/MWh.
Bruxelas não vê risco imediato de falta de gás
Apesar das reservas mais baixas e da volatilidade dos preços, a avaliação da Comissão Europeia é menos alarmista em relação à segurança física do abastecimento.
O Grupo de Coordenação do Gás da União Europeia concluiu a 3 de setembro que não existe um risco imediato para a segurança do abastecimento de gás.
Bruxelas considera que a situação atual difere substancialmente da vivida em 2021 e 2022. A UE aumentou a capacidade de importar GNL, diversificou fornecedores e reduziu a procura de gás, o que permite ao sistema funcionar com níveis de armazenamento inferiores.
A Comissão reconhece, contudo, que a instabilidade internacional continua a provocar volatilidade nos mercados energéticos.
Esta distinção é importante. O risco mais imediato não parece ser a impossibilidade de obter gás, mas o custo necessário para garantir esse abastecimento.
Caso os preços permaneçam elevados durante o inverno, famílias e empresas poderão enfrentar novas pressões nas faturas de energia. A indústria europeia, sobretudo os setores com elevado consumo energético, fica também mais exposta a custos superiores aos dos concorrentes de outras regiões.
Energia cara aumenta pressão sobre a economia europeia
Os preços da energia constituem também um risco para a inflação e para a política monetária. Responsáveis do Banco Central Europeu admitiram que novas subidas das taxas de juro poderão tornar-se necessárias caso as pressões inflacionistas associadas, entre outros fatores, à energia se mantenham.
Uma fase prolongada de gás e eletricidade caros poderia ainda agravar um problema de competitividade que a União Europeia tenta resolver através de investimentos em indústria, inteligência artificial, defesa e infraestruturas energéticas.
Simon Stiell enquadrou precisamente a dependência dos combustíveis fósseis como um problema económico e de segurança. Segundo o responsável da ONU, as energias renováveis já representam cerca de metade da produção elétrica europeia e a energia solar terá permitido evitar mais de 30 mil milhões de euros em importações de gás durante os primeiros seis meses do atual conflito no Médio Oriente.
O valor foi apresentado por Stiell durante a intervenção no Parlamento Europeu, pelo que deve ser entendido como uma estimativa citada pelo responsável da ONU.
Calor extremo acrescenta custos à Europa
O alerta das Nações Unidas vai além do mercado dos combustíveis.
Stiell referiu também uma estimativa segundo a qual os episódios de calor extremo deste verão poderão provocar perdas económicas próximas de 180 mil milhões de euros na União Europeia em 2026, o equivalente a cerca de 1% do PIB europeu.
O número tem origem numa análise publicada pelo Triodos Bank, que aponta a menor produtividade laboral, as perdas agrícolas e as perturbações nos setores da energia e dos transportes como principais canais de impacto económico.
Trata-se de uma estimativa económica, e não de uma medição definitiva dos prejuízos. O impacto completo depende da duração e intensidade dos fenómenos meteorológicos, além dos efeitos indiretos sobre diferentes setores da economia.
A Europa entra assim no período que antecede o inverno numa situação diferente da crise de 2022: possui mais capacidade de importação e maior diversidade de fornecedores, mas enfrenta gás mais caro, reservas inferiores e um mercado internacional sujeito a perturbações geopolíticas.
O abastecimento poderá estar assegurado. A questão central será quanto custará garantir esse abastecimento durante os meses mais frios.
Perguntas frequentes
Existe uma nova crise energética na Europa?
Ainda não existe uma crise de abastecimento comparável à de 2022. A ONU alertou para o risco de uma nova crise de inverno associada aos preços dos combustíveis fósseis, enquanto a Comissão Europeia considera que não existe risco imediato de falta de gás.
Porque aumentou o preço do gás na Europa?
A principal pressão resulta das perturbações nas exportações de GNL do Médio Oriente através do Estreito de Ormuz, combinadas com maior procura internacional e níveis de armazenamento europeus inferiores aos dos últimos anos.
As reservas de gás da Europa são suficientes para o inverno?
A Comissão Europeia considera que sim nas condições atuais. As reservas rondavam 66% no início de setembro, mas a UE dispõe hoje de maior capacidade de importação de GNL, fornecedores mais diversificados e menor procura de gás do que antes da crise de 2022.
A Europa pode voltar aos preços de 2022?
Não é possível antecipar a evolução dos preços. O gás europeu atingiu cerca de 75 euros/MWh no início de setembro, muito abaixo dos mais de 300 euros/MWh registados temporariamente em 2022. Uma deterioração do abastecimento internacional poderia, contudo, aumentar novamente a pressão sobre os preços.
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