A corrida pela inteligência artificial está a cobrar uma fatura pesada ao nosso planeta, e as gigantes tecnológicas estão a começar a recuar nas suas antigas promessas ecológicas. A Meta, dona do Facebook e do Instagram, confirmou agora oficialmente que abandonou o seu compromisso de utilizar exclusivamente eletricidade gerada por fontes renováveis.
Esta decisão marca um desvio considerável na estratégia de sustentabilidade da empresa liderada por Mark Zuckerberg, que até há bem pouco tempo hasteava a bandeira da energia verde. É no mínimo preocupante ver uma das maiores empresas do mundo a dar um passo atrás desta dimensão num cenário de urgência climática.
O motivo principal por trás desta autêntica reviravolta prende-se com a rápida expansão dos centros de dados necessários para alimentar a infraestrutura tecnológica atual. Com a necessidade de mais e mais poder computacional, a urgência empresarial acabou claramente por falar mais alto do que a consciência ambiental.

O fim do compromisso verde com a RE100
Com esta mudança abrupta de planos, a Meta deixou de fazer parte da RE100, uma reconhecida iniciativa da Climate Group sediada no Reino Unido. Esta organização não-governamental tem como objetivo principal incentivar a ação climática do mundo corporativo e continua a contar com o apoio de outras titãs, como a Apple, Google e Microsoft.
Segundo os registos das plataformas web, a gigante das redes sociais tinha aderido a este grupo em 2016 e, desde 2020, afirmava cobrir todas as suas necessidades com recurso a energias limpas. No entanto, a recente decisão de investir na construção de novas centrais a gás natural para alimentar o centro de dados Hyperion, no estado norte-americano do Louisiana, fê-la chumbar de imediato nos rigorosos critérios técnicos da organização.
A sede insaciável dos novos data centers
Não nos podemos iludir quanto à realidade da tecnologia de ponta, pois treinar e manter grandes modelos de inteligência artificial a funcionar exige um consumo energético colossal. A pressão atual para construir novos data centers e equipá-los com chips avançados obriga o setor a procurar garantias de fornecimento elétrico por qualquer via disponível.
Curiosamente, a empresa de Zuckerberg não está sozinha na opção de recorrer aos velhos combustíveis fósseis para segurar a enorme exigência do mercado. Há pouquíssimo tempo, a Microsoft e a Alphabet, empresa-mãe da Google, também assinaram acordos de peso para alimentar algumas das suas infraestruturas através de gás natural, revelando que a falha nas promessas verdes é transversal ao tecido tecnológico.
O lado oculto do avanço da inteligência artificial
Além do consumo astronómico de eletricidade, há um outro recurso vital que está a ser sugado a um ritmo simplesmente assustador pelas empresas de tecnologia: a água potável. O processo de arrefecimento dos milhares de servidores a trabalhar no limite exige quantidades absurdas de recursos hídricos para evitar o sobreaquecimento do hardware.
Para teres uma noção concreta da escala deste gigantesco impacto ambiental silencioso, basta olharmos para as mais recentes previsões partilhadas por entidades internacionais. Os dados da Agência Internacional de Energia e das Nações Unidas traçam um cenário que deve deixar-nos em alerta constante:
- A procura global de eletricidade deve crescer cerca de 3,6% em 2026 e 3,8% no ano seguinte, motivada pela expansão dos data centers.
- As energias renováveis deverão ser a principal fonte mundial em 2026, mas o gás natural continua a ser uma âncora para sustentar picos tecnológicos.
- Uma simples operação de conversão de inteligência artificial de média dimensão chega a consumir o equivalente a meia garrafa de água.
- Estima-se que o consumo de água do setor da inteligência artificial possa equiparar-se às necessidades básicas de 1,3 mil milhões de pessoas já em 2030.
Resta agora sabermos se os governos e os reguladores vão intervir a tempo ou se vamos continuar a fechar os olhos em prol da corrida pela supremacia digital. Se as entidades que lideram a transição digital vacilam na sua palavra, o futuro sustentável que nos prometeram fica cada vez mais refém da fatura energética.
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