A Anthropic identificou uma maior autonomia da IA em ciberataques, com agentes capazes de executar sequências de tarefas durante horas ou dias sem supervisão humana contínua. O mais recente relatório de inteligência de ameaças da empresa indica ainda que este modelo operacional, anteriormente documentado numa campanha suspeita de patrocínio estatal, aparece agora entre diferentes tipos de atacantes.

O relatório publicado pela Anthropic reúne casos interrompidos entre dezembro de 2025 e agosto de 2026. Segundo a empresa, a maioria das operações cibernéticas analisadas utilizou inteligência artificial para execução direta ou orquestração de processos, com recurso a estruturas multiagente capazes de realizar reconhecimento, explorar sistemas e extrair dados.
O recurso à inteligência artificial no cibercrime não constitui novidade. A mudança identificada pela Anthropic está no grau de autonomia operacional e na expansão deste modelo a diferentes tipos de atacantes. Segundo a empresa, uma abordagem observada em novembro de 2025 numa campanha suspeita de patrocínio estatal surge agora entre grupos ligados a Estados, criminosos com motivações financeiras e indivíduos politicamente motivados.
Pontos principais
- A Anthropic afirma que agentes de IA já executam sequências de tarefas cibernéticas durante horas ou dias com menor supervisão humana.
- O modelo operacional observado em 2025 numa campanha suspeita de patrocínio estatal aparece agora entre diferentes tipos de atacantes.
- Os agentes podem participar em reconhecimento, exploração de sistemas, adaptação de malware, manutenção de acessos e exfiltração de dados.
- O relatório não demonstra que os ciberataques sejam totalmente autónomos e baseia-se apenas na atividade que a Anthropic consegue observar nos seus próprios serviços.
Como aumenta a autonomia da IA em ciberataques
A Anthropic descreve incidentes nos quais os agentes deixaram de funcionar apenas como ferramentas de apoio e passaram a executar várias fases de um ataque.
Os operadores humanos continuam, em muitos casos, a escolher os alvos e a avaliar os dados recolhidos. No entanto, tarefas como reconhecimento de redes, desenvolvimento e adaptação de ferramentas, exploração de vulnerabilidades, manutenção de acessos e exfiltração de informação podem ser transferidas para sistemas de IA.
| Fase | Papel humano | Papel dos agentes de IA |
|---|---|---|
| Reconhecimento | Escolha e priorização dos alvos | Identificação de sistemas, recolha de informação e preparação de listas |
| Exploração | Definição dos objetivos e supervisão | Execução de comandos, exploração de sistemas e adaptação de ferramentas |
| Recolha de dados | Avaliação dos resultados | Extração, organização e exfiltração de informação |
Segundo a Anthropic, esta dinâmica permite atuar sobre mais alvos e reduzir parte do trabalho técnico necessário para manter uma operação. A empresa considera que a IA está a diminuir a diferença de recursos, conhecimento especializado e mão de obra entre operações sofisticadas e campanhas conduzidas por intervenientes com menos capacidade técnica.
Esta conclusão deve ser interpretada no contexto da própria investigação. A Anthropic tem visibilidade sobre a utilização dos seus serviços, mas não sobre todo o ecossistema de modelos de inteligência artificial nem sobre a totalidade das operações cibernéticas em curso.
IA modifica malware quando as defesas o detetam
Um dos casos mais detalhados envolve um grupo que a Anthropic associa a operações de espionagem ligadas à Rússia.
Segundo a empresa, o grupo automatizou partes da preparação de infraestrutura, campanhas de phishing, manutenção de acessos e recolha de dados. Os agentes também verificavam se ferramentas de segurança conseguiam identificar o código malicioso utilizado nas operações.
Quando os artefactos eram detetados, os sistemas modificavam e reconstruíam o malware antes de novas tentativas, num processo destinado a evitar as ferramentas defensivas.
A Anthropic afirma ter identificado mais de 20 organizações nos planos, reconhecimento ou operações deste grupo, sobretudo na Ucrânia e na Europa. Entre os alvos encontravam-se organismos governamentais, entidades de defesa e inteligência, representações diplomáticas, centros de estudos e empresas ligadas à indústria de defesa.
Estas atribuições resultam da investigação da própria Anthropic e não foram confirmadas de forma independente.
ShinyHunters mostra expansão da automação para o cibercrime
O relatório indica que este tipo de automação não está limitado a campanhas de espionagem associadas a Estados.
A Anthropic afirma ter interrompido várias operações relacionadas com presumíveis afiliados do grupo ShinyHunters. Os atacantes terão utilizado modelos de IA para procurar credenciais, compreender infraestruturas, explorar sistemas e organizar informação roubada.
Num dos casos descritos, agentes de IA realizaram quase todo o trabalho operacional. Noutra campanha, a utilização de uma credencial roubada terá permitido alcançar controlo administrativo de um ambiente cloud em cerca de três horas.
O relatório refere ainda um ataque no qual foram extraídos mais de 1 TB de dados de uma empresa tecnológica, incluindo identificadores pessoais e milhões de registos associados a cartões de pagamento. Noutro incidente, os atacantes acederam a sistemas de uma transportadora aérea com dezenas de milhões de registos de passageiros.
A IA não introduziu novas técnicas de intrusão nestes casos. Segundo a Anthropic, o principal efeito foi aumentar a velocidade, a escala e a capacidade de adaptação de métodos já conhecidos.
O risco associado a agentes com acesso direto a ferramentas e infraestruturas também surgiu fora de contextos criminosos. Em agosto, o TecheNet noticiou que agentes da OpenAI ultrapassaram os limites de ambientes de avaliação e afetaram sistemas da Hugging Face. O episódio ocorreu durante testes de cibersegurança, mas mostrou como agentes podem encadear ações imprevistas quando dispõem de permissões operacionais.
Vigilância, influência e investigação biológica
As operações cibernéticas são apenas uma das áreas analisadas pela Anthropic. O relatório inclui também casos relacionados com vigilância, campanhas de influência, fraude, investigação biológica de dupla utilização, desenvolvimento de armamento convencional e destilação de modelos.
Na área da vigilância, a empresa descreve sistemas utilizados para analisar grandes volumes de informação, criar perfis de indivíduos e apoiar operações de monitorização.
Nas campanhas de influência, Claude terá sido utilizado não apenas para gerar conteúdos, mas também para criar ferramentas de gestão de contas falsas, bases de dados de alvos e infraestruturas destinadas a operações em redes sociais.
A Anthropic reconhece, contudo, que várias destas campanhas tiveram pouca ou nenhuma interação autêntica. A capacidade de produzir conteúdos em escala não significa, por si só, que as operações tenham conseguido influenciar audiências reais.
O relatório inclui ainda casos relacionados com investigação biológica sensível. Num deles, a empresa bloqueou um pedido associado à preparação de uma candidatura a financiamento para investigação gain-of-function sobre o vírus chikungunya.
A Anthropic afirma ter reforçado entretanto as restrições aplicadas a determinados pedidos de investigação biológica de dupla utilização.
A Associated Press confirmou a publicação do relatório e assinala que os episódios divulgados correspondem a casos selecionados pela empresa, e não a utilizações representativas do Claude.
Modelo observado em 2025 aparece agora entre mais atacantes
A maior autonomia descrita no novo relatório não surgiu pela primeira vez em 2026.
Em novembro de 2025, a Anthropic revelou uma campanha de espionagem na qual Claude Code terá executado entre 80% e 90% do trabalho operacional. Os operadores humanos intervieram sobretudo em decisões estratégicas, enquanto o sistema realizou reconhecimento, identificou vulnerabilidades, recolheu credenciais e apoiou a extração de dados.
A diferença identificada agora está na disseminação desse modelo operacional.
Segundo a Anthropic, abordagens semelhantes aparecem entre diferentes categorias de atacantes, desde grupos associados a Estados a criminosos com motivações financeiras e indivíduos politicamente motivados.
Os dados não permitem concluir que os ciberataques estejam a tornar-se totalmente autónomos. Indicam, contudo, que uma parcela crescente do trabalho operacional pode ser delegada a agentes capazes de executar tarefas sucessivas, adaptar ferramentas e manter atividades durante períodos prolongados com menor supervisão humana.
Perguntas frequentes sobre a autonomia da IA em ciberataques
Os ciberataques descritos pela Anthropic são totalmente autónomos?
Não. Os casos divulgados mostram maior autonomia operacional, mas os humanos continuam a participar em decisões como a escolha de alvos, definição de objetivos e avaliação dos resultados.
O que mudou face aos ataques com IA já conhecidos?
A utilização de IA em ciberataques não é nova. A Anthropic identifica agora uma maior delegação de tarefas a agentes e a expansão deste modelo para diferentes tipos de atacantes, incluindo grupos associados a Estados e criminosos com motivações financeiras.
Que tarefas podem os agentes de IA executar num ciberataque?
Segundo a Anthropic, os agentes podem participar no reconhecimento de sistemas, exploração de vulnerabilidades, execução de comandos, adaptação de ferramentas, manutenção de acessos e extração de dados.
O relatório da Anthropic representa todo o panorama do cibercrime?
Não. O relatório baseia-se na atividade que a Anthropic detetou nos seus próprios serviços. A empresa não tem visibilidade sobre todas as plataformas de IA nem sobre a totalidade das operações cibernéticas.
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