Os Estados Unidos acusaram seis empresas chinesas de inteligência artificial de recorrerem à destilação de modelos de IA em larga escala para extrair capacidades de sistemas desenvolvidos por empresas norte-americanas. A acusação consta de um aviso conjunto publicado pela National Security Agency (NSA), pelo FBI e pela Cybersecurity and Infrastructure Security Agency (CISA).

As agências identificam DeepSeek, Moonshot AI, Alibaba, MiniMax, StepFun e Z.AI e afirmam que estas empresas recorreram a modelos norte-americanos para acelerar o desenvolvimento dos seus próprios sistemas. Segundo as autoridades dos EUA, as operações decorreram pelo menos desde finais de 2024 e envolveram grandes volumes de pedidos enviados a modelos de fronteira.
A acusação representa um novo passo numa disputa que já tinha chegado ao plano diplomático. Em abril, o Departamento de Estado dos EUA alertou governos aliados para alegadas campanhas de destilação conduzidas por empresas chinesas. O novo documento acrescenta agora uma avaliação conjunta de três agências federais ligadas à inteligência, segurança interna e aplicação da lei.
EUA falam em campanhas de destilação à escala industrial
Segundo o aviso divulgado pela NSA, as empresas chinesas terão distribuído a atividade por diferentes contas, fornecedores e infraestruturas, numa tentativa de contornar limites de utilização e mecanismos destinados a identificar padrões de acesso anómalos.
As autoridades descrevem o recurso a APIs, serviços intermediários e outros mecanismos destinados a ocultar a origem dos pedidos. Esta abordagem permitiria distribuir grandes volumes de consultas por várias contas e serviços, o que dificultaria a deteção das operações pelos fornecedores dos modelos.
A NSA, o FBI e a CISA classificam estas práticas como “destilação adversarial” e afirmam que permitem às empresas chinesas obter capacidades de modelos de fronteira norte-americanos sem suportar todos os custos associados ao treino original.
As agências acrescentam que estas operações ocorreram «provavelmente com conhecimento do Governo chinês». Esta formulação corresponde a uma avaliação das autoridades norte-americanas, não a um facto demonstrado de forma independente.
Pequim rejeitou as acusações. Segundo a Reuters, a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Mao Ning, afirmou que os progressos do país em inteligência artificial resultam da sua própria capacidade científica e tecnológica e acusou Washington de apresentar alegações sem fundamento.
Destilação de modelos é uma técnica legítima de IA
A destilação de modelos de IA não é, por si só, uma prática ilícita. Trata-se de uma técnica de aprendizagem automática que permite transferir conhecimento de um modelo mais capaz para outro sistema, geralmente mais pequeno ou eficiente.
O modelo aluno aprende a partir das respostas ou distribuições produzidas pelo modelo professor, o que pode reduzir os recursos necessários para alcançar determinadas capacidades. O TecheNet explicou anteriormente como funciona a destilação de modelos de IA e quais são as suas principais aplicações.
A própria NSA distingue a utilização legítima da técnica das operações que classifica como destilação adversarial. A acusação incide, portanto, não sobre a existência da destilação, mas sobre a forma como os modelos norte-americanos terão sido consultados em grande escala e através de métodos destinados a contornar restrições de acesso e mecanismos de proteção.
A OpenAI apresentou uma distinção semelhante num documento enviado ao Congresso norte-americano. A empresa afirmou ter identificado contas associadas à DeepSeek que procuravam contornar restrições de acesso, utilizar intermediários para ocultar a origem dos pedidos e recolher programaticamente respostas dos seus modelos.
Anthropic já tinha acusado DeepSeek, Moonshot e MiniMax
Parte das alegações reunidas agora pelas autoridades norte-americanas já tinha sido tornada pública por empresas do setor.
Em fevereiro, a Anthropic acusou DeepSeek, Moonshot AI e MiniMax de conduzirem campanhas de destilação contra o Claude. Segundo a empresa, os três laboratórios produziram mais de 16 milhões de interações através de cerca de 24.000 contas fraudulentas.
O TecheNet analisou na altura as acusações da Anthropic contra DeepSeek, Moonshot e MiniMax, num dos primeiros casos em que um grande laboratório norte-americano apresentou números sobre a dimensão das alegadas operações.
De acordo com os dados publicados pela Anthropic, a MiniMax teria sido responsável por mais de 13 milhões de interações, a Moonshot por cerca de 3,4 milhões e a DeepSeek por mais de 150.000.
A Anthropic afirmou ter associado as campanhas aos respetivos laboratórios através de endereços IP, metadados dos pedidos, indicadores de infraestrutura e informação obtida junto de outros intervenientes do setor. Estas conclusões pertencem, contudo, à própria empresa, que é simultaneamente uma das entidades alegadamente visadas e uma concorrente dos laboratórios chineses.
OpenAI também apontou atividade da DeepSeek
A OpenAI já tinha apresentado alegações semelhantes. No relatório submetido a uma comissão da Câmara dos Representantes dos EUA, a empresa afirmou ter observado atividade associada à DeepSeek compatível com aquilo que classificou como destilação adversarial.
Segundo a OpenAI, foram detetadas contas relacionadas com funcionários da empresa chinesa, acesso através de intermediários que ocultavam a origem dos pedidos e ferramentas destinadas a recolher respostas de modelos norte-americanos de forma automatizada.
Estas alegações anteriores são relevantes porque mostram que o novo aviso federal não revela pela primeira vez a existência das suspeitas. A novidade está sobretudo na formalização conjunta das acusações pela NSA, FBI e CISA, na identificação de seis empresas e no enquadramento da atividade como uma campanha de maior dimensão.
Da disputa comercial à segurança nacional
O aviso conjunto das três agências coloca a destilação de modelos num quadro mais amplo de segurança nacional. As autoridades norte-americanas argumentam que o acesso às capacidades dos modelos de fronteira pode reduzir parte dos custos computacionais, financeiros e energéticos necessários para desenvolver sistemas concorrentes.
Washington associa ainda o desenvolvimento de modelos avançados na China a potenciais aplicações militares e de cibersegurança. Esta relação faz parte da avaliação estratégica dos EUA e não demonstra, por si só, que as operações de destilação descritas tenham resultado diretamente nessas capacidades.
A publicação surge também num momento de diálogo entre Washington e Pequim sobre inteligência artificial. Segundo a Reuters, Estados Unidos e China preparavam conversações bilaterais sobre segurança da IA para meados de setembro.
A diferença face às acusações anteriores está, portanto, menos na existência da destilação e mais no estatuto institucional e na amplitude da acusação. O que começou com denúncias de empresas como Anthropic e OpenAI e passou, em abril, para um alerta diplomático norte-americano surge agora num aviso conjunto da NSA, do FBI e da CISA que identifica seis empresas chinesas e descreve a atividade como uma campanha sistemática à escala industrial.
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