A destilação de modelos de IA voltou a intensificar a tensão entre Washington e Pequim, num novo capítulo de uma disputa tecnológica que se arrasta há vários anos, depois de o Departamento de Estado dos EUA ter enviado, a 25 de abril de 2026, um telegrama diplomático a postos consulares e diplomáticos em todo o mundo, de acordo com um exclusivo da Reuters. O documento instrui as missões a alertar os governos aliados para o que Washington descreve como esforços sistemáticos de empresas chinesas para extrair tecnologia de inteligência artificial americana. Entre as empresas nomeadas figuram o DeepSeek, a Moonshot AI e a MiniMax, e um pedido separado foi enviado diretamente a Pequim.

O momento do alerta e o DeepSeek V4
O telegrama diplomático foi enviado um dia após o DeepSeek ter lançado o modelo V4, a 24 de abril. A startup de Hangzhou apresentou duas variantes: o V4-Pro, com 1,6 biliões de parâmetros totais e 49 mil milhões de parâmetros ativos por token, e o V4-Flash, uma versão mais leve com 284 mil milhões de parâmetros totais e 13 mil milhões ativos. Ambos os modelos suportam uma janela de contexto de um milhão de tokens e foram publicados sob licença MIT de código aberto, de acordo com a documentação técnica disponível na plataforma Hugging Face.
A empresa afirma que o V4-Pro rivaliza com os melhores sistemas fechados da OpenAI e da Anthropic, nomeadamente o GPT-5.4 e o Claude Opus 4.6. Segundo a análise independente da Artificial Analysis, o V4-Pro lidera os modelos de código aberto em programação (LiveCodeBench: 93,5%), matemática (IMOAnswerBench: 89,8%) e tarefas de agente autónomo (SWE-bench Verified: 80,6%). O lançamento sob licença livre cria uma contradição que Washington não abordou diretamente: qualquer entidade pode estudar e adaptar o V4 de forma legal, o que levanta dúvidas sobre a eficácia de uma resposta exclusivamente diplomática.
O memorando da Casa Branca e a resposta legislativa
A 23 de abril, um dia antes do telegrama diplomático, o diretor do Gabinete de Política Científica e Tecnológica da Casa Branca (OSTP), Michael Kratsios, emitiu um memorando acusando entidades “principalmente baseadas na China” de conduzir “campanhas deliberadas, à escala industrial” de destilação de modelos americanos de fronteira, segundo o Financial Times e confirmado pela Reuters. O documento compromete a administração Trump a partilhar informações sobre táticas de extração com empresas americanas de IA e a explorar medidas de responsabilização.
No Congresso, o projeto de lei Deterring American AI Model Theft Act, apresentado a 15 de abril pelo deputado Bill Huizenga e registado no portal oficial GovInfo sob a referência H.R. 8283, propõe a criação de uma lista pública de entidades que realizem ataques de extração de modelos, tornando-as elegíveis para sanções e inclusão em listas de entidades restringidas. O projeto cria ainda um mecanismo para o Departamento de Estado colaborar com a indústria privada na partilha de boas práticas e na análise de ataques. A 16 de abril, o presidente da Comissão Especial da Câmara sobre a China, John Moolenaar, acusou os laboratórios chineses de recorrer a “ataques de destilação não autorizados” por não disporem de chips suficientes para desenvolver os modelos de forma independente [dado não verificado, requer confirmação editorial].
As provas apresentadas e os seus limites
A OpenAI alertou o Congresso, em fevereiro de 2026, para a utilização de contas proxy ofuscadas criadas para extrair respostas do ChatGPT. A Anthropic publicou um relatório, noticiado pelo VentureBeat, que identificou cerca de 24.000 contas fraudulentas associadas a três empresas chinesas, mas com volumes muito distintos: a MiniMax gerou mais de 13 milhões de interações com o chatbot Claude, a Moonshot AI 3,4 milhões, e o DeepSeek cerca de 150.000. Esta assimetria, que o relatório não explica, enfraquece a narrativa de uma operação coordenada entre as três entidades.
Ambas as empresas têm um interesse comercial e reputacional direto em desacreditar os concorrentes chineses, o que não invalida as provas mas exige escrutínio independente. Esse escrutínio, até à data, não foi realizado por nenhum organismo externo verificável.
A posição de Pequim
O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, Guo Jiakun, classificou as acusações de “totalmente infundadas” e de “campanha de difamação caluniosa contra os êxitos da indústria chinesa de inteligência artificial”, em declarações citadas pelas Notícias ao Minuto. A embaixada chinesa em Washington instou Washington a “respeitar os factos, abandonar os seus preconceitos e cessar a sua política de contenção tecnológica”. Nenhum organismo judicial ou regulador internacional analisou ou confirmou as alegações formuladas pelas empresas americanas.
O que está em jogo antes da cimeira Trump-Xi
A disputa surge a menos de três semanas da cimeira entre Donald Trump e Xi Jinping, marcada para 14 e 15 de maio, em Pequim, de acordo com a BBC e o South China Morning Post. A destilação de modelos de IA entra assim para a agenda de uma relação bilateral já marcada por restrições à exportação de chips, tarifas e disputas sobre propriedade intelectual. A questão que o setor tecnológico coloca é objetiva: a administração vai avançar com sanções, ou vai usar este dossiê como ficha de negociação em Pequim?
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Fontes:
- Reuters: Exclusive: US State Dept orders global warning about alleged AI thefts by DeepSeek, other Chinese firms
- Reuters: White House accuses China of industrial-scale theft of AI technology
- VentureBeat: Anthropic says DeepSeek, Moonshot, and MiniMax used 24,000 fake accounts
- GovInfo: H.R. 8283 – Deterring American AI Model Theft Act of 2026
- Hugging Face: DeepSeek-V4-Pro – Documentação técnica
- Artificial Analysis: DeepSeek is back among the leading open weights models with V4-Pro and V4-Flash
- BBC: Donald Trump to visit Xi Jinping in May
- South China Morning Post: Xi-Trump summit: White House locks in new dates in May









