A abertura do Android a assistentes de IA rivais está no centro de uma das ofensivas regulatórias mais ambiciosas da Comissão Europeia. Ao abrigo do Digital Markets Act, Bruxelas prepara-se para impor ao Google obrigações vinculativas que poderão transformar a forma como dois mil milhões de dispositivos interagem com a inteligência artificial.

Dois processos, uma só pressão
A Comissão Europeia abriu dois processos de especificação a 27 de janeiro de 2026, cada um a incidir sobre uma obrigação distinta do Digital Markets Act. O primeiro, ao abrigo do Artigo 6(7), exige que o Google garanta a terceiros “interoperabilidade livre e efetiva” com as funcionalidades de hardware e software do Android que o Gemini usa em exclusivo. O segundo, ao abrigo do Artigo 6(11), obriga a empresa a partilhar dados anonimizados de pesquisa com motores de busca e fornecedores de inteligência artificial concorrentes, em condições justas, razoáveis e não discriminatórias.
A 16 de abril, a Comissão publicou conclusões preliminares sobre a partilha de dados, num documento de 29 páginas que detalha quais os dados a transmitir, como devem ser anonimizados e que regime de auditoria os governa. A consulta pública decorreu até 1 de maio. O processo relativo à interoperabilidade do Android segue uma linha temporal paralela, com conclusões iminentes, segundo a Bloomberg.
O que muda para quem usa um Android
Na prática, a abertura do Android a assistentes de IA concorrentes pode significar que qualquer utilizador passe a poder definir o ChatGPT ou o Claude como assistente predefinido do sistema, com os mesmos privilégios que o Gemini detém. Isso inclui ativação por voz, acesso a funcionalidades sempre ativas e integração com aplicações como o Gmail ou o Google Calendar, algo que os rivais não conseguem fazer com a mesma profundidade.
A posição de Bruxelas é clara. Uma empresa que controla cerca de 65 por cento do mercado de sistemas operativos móveis na Europa não pode ser o único árbitro de qual a IA que fala com o telemóvel.
A corrida entre Bruxelas e o Gemini
O calendário desta disputa não é acidental. O Google concluiu a transição do Google Assistant para o Gemini em dispositivos Android em março de 2026, precisamente quando os processos de especificação estavam a ganhar velocidade. Cada atualização de software aprofunda a integração do Gemini no ecossistema, o que torna a tarefa regulatória mais complexa à medida que a decisão vinculativa se aproxima.
Essa decisão tem de ser adotada até 27 de julho de 2026. Se o Google não cumprir, a Comissão pode abrir uma investigação formal que pode resultar em coimas até 10 por cento do volume de negócios anual a nível global.
O argumento do Google e os riscos reais
O Google não aceita passivamente as exigências. A empresa afirma que as medidas podem “comprometer a privacidade, a segurança e a inovação” dos utilizadores, argumentando ainda que as propostas de partilha de dados “impõem uma anonimização ineficaz para aumentar o volume de dados”, colocando a privacidade em risco para satisfazer o que descreve como “exigências sem limites por parte dos concorrentes”.
O ceticismo tem fundamento parcial. Abrir o acesso a funcionalidades como a deteção de palavras de ativação por voz e a leitura de conteúdo em ecrã a qualquer fornecedor de inteligência artificial cria uma superfície de ataque mais ampla. A questão de como se audita, na prática, o cumprimento das obrigações de anonimização permanece, para já, sem resposta clara por parte de Bruxelas.
Há também uma tensão legítima de mercado. A OpenAI e a Anthropic, as principais beneficiárias destas medidas, são empresas com fins lucrativos e interesses comerciais tão pronunciados quanto os do próprio Google.
Um precedente com alcance global
A decisão de julho não fica confinada às fronteiras da União Europeia. A Autoridade de Concorrência e Mercados do Reino Unido acompanha de perto os desenvolvimentos, e a pressão regulatória sobre os mercados digitais nos Estados Unidos, ainda que menos estruturada, está a crescer no Congresso.
Se Bruxelas confirmar que o Digital Markets Act pode impor a abertura do Android a assistentes de IA de forma efetiva, e não apenas formal, cria um modelo que outros reguladores poderão adaptar. O verdadeiro teste não é a decisão em si. É a implementação.
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