Clássicos ao domingo: Os Homens Preferem as Loiras

Clássicos ao domingo: Os Homens Preferem as Loiras
Clássicos ao domingo: Os Homens Preferem as Loiras
Os Homens Preferem as Loiras

 

O que terá levado Rainer Werner Fassbinder, o grande, absurdamente prolífico cineasta alemão dos anos 70 e 80, a incluir Os Homens Preferem as Loiras, musical de 1953 de Howard Hawks, com Marilyn Monroe e Jane Russel, no seu top 10 de filmes favoritos?

Howard Hawks, é ponto assente, foi um dos maiores realizadores da chamada “época dourada” do cinema americano, homem forte à semelhança de vários dos seus pares, uma daquelas figuras no-nonsense que trabalhou em quase todos os géneros e nos deixou coisas tão díspares e memoráveis como Scarface (o original, refeito de forma icónica por Brian de Palma com Al Pacino e a sua little friend), His Girl Friday ou The Big Sleep. Um daqueles cineastas de cuja obra podemos fazer um top diferente todos os dias, sempre amargurados pelas omissões mas nunca insatisfeitos com a seleção.

Hawks era também um artesão, um trabalhador, numa época em que os realizadores – como outros elementos das equipas de produção dos filmes – eram mantidos pelos grandes estúdios a contrato e faziam cinema como quem trabalha numa linha de produção, longe dos devaneios que habitualmente associamos à criação artística (o que não significa que não haja arte naqueles filmes, antes pelo contrário). Não custa ver Fassbinder a identificar-se com esta filosofia de trabalho, ele que fazia filmes, e não só, a um ritmo alucinante e sem aparente descanso até à morte precoce aos 37 anos.

Mas por quê Os Homens Preferem as Loiras, filme que está muito poucas vezes entre as primeiras escolhas para o cânone de Hawks, regra geral esquecido quando alguém se lembra de fazer uma compilação com os seus melhores filmes?

Talvez a resposta sejam duas: Marilyn Monroe, o protótipo da loira desmiolada (aparentemente desmiolada, diga-se: para o final do filme, ela confessa que “consegue ser esperta, mas a maioria dos homens não o quer”, em mais uma daquelas farpas bem direcionadas aos usos e costumes da América de então) a quem apenas o dinheiro importa e Jane Russel, a morena que lhe serve de perfeito contraponto, toda ela desenvoltura e ironia, língua aguçada sempre pronta a cortar a direito com algumas das melhores falas do filme.

Podemos procurar a explicação, por outro lado, no argumento de Charles Lederer, usado como fundo para um musical quase relutante, muitas vezes mais interessado em ser screwball comedy, uma frase perfeitamente cinzelada após a outra. História aparente sobre duas amigas dançarinas a bordo de um navio que se dirige a Paris, onde uma delas planeia casar com um milionário pateta a quem sabemos desde o início faltar estofo para a personagem de Marilyn (num maravilhoso enviesamento da ideia do “sonho americano”, a mais ambiciosa das “meninas de Little Rock” sonha subir na vida não à custa do seu trabalho mas simplesmente usando-se da sua beleza para encontrar um marido rico), parece ter sido pensada matematicamente para fazer brilhar o equilíbrio de poderes nucleares que é a parceria Monroe/Russel.

Ou talvez tenha fascinado Fassbinder a política de género que o filme parece pôr em evidência, trazendo ao seu centro duas das maiores sex symbols da época e rodeando-as frequentemente de grupos de homens (a equipa olímpica de atletismo americana, os bailarinos nas cenas de dança, os polícias no tribunal…) embasbacados. São personagens genéricas à superfície, a loira burra e a morena realista – e, querendo, não faltarão razões no filme aos paladinos da “justiça social” de hoje para se fazerem ofendidos -, que na verdade são tudo menos isso. São elas, na verdade, as únicas criaturas pensantes do filme, enquanto os homens, quase todos os homens, são reduzidos a acessórios ou pouco mais, figuras manobráveis e corruptíveis sem pensamento próprio.

E quem sabe se o que interessava mesmo ao alemão era aquela célebre coreografia de Diamonds are a Girl’s Best Friend, cena quase alienígena de tanto que se destaca do que lhe precede e do que vem depois, Marilyn Monroe sobre um fundo vermelho (imaginamos um jovem David Lynch a ver o filme pela primeira vez e a tirar notas), num jogo irresistível de música, imagem e movimento? Talvez…

Os Homens Preferem as Loiras passou recentemente nos canais TV Cine, integrando um especial sobre Marilyn Monroe.

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Fábio Jesus
Fábio Jesus vê filmes como quem respira, lê em qualquer lado sem pedir desculpa e ouve música para não perder o tino. Como muitos dos filhos dos anos oitenta, tem também um lado gamer desde que se recorda. Discorre sobre tudo e coisa nenhuma no blogue Hai, Dozo.

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