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Solucionado o mistério das pedras deslizantes do Vale da Morte

Luiz Guilherme Trevisan Gomes por Luiz Guilherme Trevisan Gomes
28/08/2014 - Atualizado a 03/09/2014
Em Ciência
Gps: pedra equipada com um aparelho de localização se move na superfície árida do lago racetrack playa, no vale da morte (estados unidos). Foto: mike hartmann
gps: pedra equipada com um aparelho de localização se move na superfície árida do lago racetrack playa, no vale da morte (estados unidos). Foto: mike hartmann




As misteriosas pedras deslizantes (fotografia acima) maravilham — e assombram — os visitantes do lago seco Racetrack Playa, localizado no Vale da Morte, na Califórnia, há décadas. Os longos rastros deixados pelas pedras intrigam também os cientistas, e diversas hipóteses já tentaram explicar a(s) razão(ões) do seu movimento sobre a superfície plana do leito do lago, porém, sem amparo em evidências diretas.

Agora, um grupo de pesquisadores afirma ter desvendado o fenômeno por trás do movimento das rochas: nada de vendavais ou campo magnético — o segredo está no gelo.

Velejando

De acordo com dissertação publicada no periódico PLOS ONE, cacos de gelo parecidos com os estilhaços de uma vidraça carregam as pedras (do mineral dolomita) pelo terreno conforme sopra um vento leve, fazendo com que elas “velejem” na lama. Normalmente seco, o fundo do lago pode acumular água proveniente de ocasionais chuvas e nevascas, explica o autor líder do estudo Richard Norris, paleobiólogo do Instituto Scripps de Oceanografia em San Diego (Califórnia), formando “uma poça considerável”.

Situado em uma região montanhosa a cerca de 1.100 m acima do nível do mar, a região de Racetrack Playa é caracterizada por temperaturas noturnas abaixo da temperatura de congelamento da água, levando à solidificação de uma camada de gelo.

Descrições: (a) cacos de gelo ao redor de uma pedra recentemente movida; (b) vista da poça d'água formada no lago; (c) gelo acumulado na margem leste do lago; (d) pedra se move da esquerda para a direita, deixando um rastro cavado na lama. Crédito: richard d. Norris; james m. Norris; ralph d. Lorenz; jib ray; brian jackson; plos one
descrições: (a) cacos de gelo ao redor de uma pedra recentemente movida; (b) vista da poça d’água formada no lago; (c) gelo acumulado na margem leste do lago; (d) pedra se move da esquerda para a direita, deixando um rastro cavado na lama. Crédito: richard d. Norris; james m. Norris; ralph d. Lorenz; jib ray; brian jackson; plos one

Hipóteses anteriores se valiam da água, do vento e do próprio gelo para explicar o mecanismo de movimentação, apesar de algumas delas ressaltarem a necessidade de uma espessa camada de gelo sobre a qual as pedras deslizariam, o que não foi confirmado pelas observações da camada que se forma no lago — fina demais para transportar material mais pesado do que simples pedregulhos.

As pedras do lago possuem peso variado, que pode ir de menos de 1 kg a mais de 300 kg, e mesmo as mais maciças deixam os rastros de seu movimento pela planície seca (cuja extensão é de 4,5 km). Os traçados também são diversos, caracterizados por longas retas e curtos trechos em zigue-zague, por exemplo.

Para que as pedras se movam, segundo os pesquisadores, é necessária uma combinação rara de fatores: a poça precisa ser profunda o bastante para o surgimento de uma camada de gelo superficial que flutue sobre a água, mas suficientemente rasa para que as pedras permaneçam expostas; já o gelo deve fino, porém, resistente, para se quebrar em grandes placas. Os últimos elementos incorporados ao ambiente descrito logo acima são a luz solar e os ventos leves, que racham e guiam os painéis de gelo sobre o plano nos dias seguintes, respectivamente.

Vista dos rastros deixados no solo do lago pelas pedras em dezembro de 2013. Crédito: richard d. Norris; james m. Norris; ralph d. Lorenz; jib ray; brian jackson; plos one
vista dos rastros deixados no solo do lago pelas pedras em dezembro de 2013. Crédito: richard d. Norris; james m. Norris; ralph d. Lorenz; jib ray; brian jackson; plos one

Entre dezembro de 2013 e fevereiro de 2014, as condições foram perfeitas para a visualização do movimento. Os cientistas contaram com aparelhos de localização por GPS, instalados em rochas importadas postas no lago anos antes (o serviço de conservação do Parque Nacional do Vale da Morte não permitiu que o procedimento fosse realizado com as pedras naturais), e com câmeras de vídeo.

O cientista planetário Ralph Lorenz, coautor do trabalho, diz que “as pedras se movem por cerca de um minuto a cada um milhão de minutos”; ao todo, centenas de objetos foram flagrados navegando pelo gelo a velocidades de 2-6 metros por minuto.

Norris admite que a elucidação pode desapontar as pessoas que gostam de mistério, no entanto, ele reconhece que nem todo o enigma foi solucionado. Não se observou, por exemplo, o movimento das maiores e mais pesadas rochas, sugerindo que deve haver outro processo que explique os rastros deixados pelas mesmas. “É um processo fascinante, e (…) espero que haja mais para ser descoberto”, conclui.

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Tags: águagelomineralrocha
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Luiz Guilherme Trevisan Gomes

Luiz Guilherme Trevisan Gomes

é graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e trabalha como consultor financeiro na Valore Brasil - Controladoria de Resultados. Atualmente, cursa o MBA em Controladoria e Finanças na Universidade de São Paulo (USP). Entusiasta da razão e da ciência, fundou o espaço de divulgação científica Make It Clear Brasil, em 2013.

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