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IA, blockchain e fraudes NFC marcam o cibercrime financeiro em 2025

Alfredo Beleza por Alfredo Beleza
17/11/2025
Em Segurança

O cibercrime financeiro em 2025 atingiu níveis inéditos de complexidade, marcado pela crescente utilização de inteligência artificial, blockchain e fraudes NFC que desafiaram bancos e fintechs globalmente.​
De acordo com o Kaspersky Security Bulletin 2025, dedicado à cibersegurança financeira, o ano foi dominado por ataques mais coordenados e tecnicamente sofisticados, em que crime organizado e cibercrime se aproximaram de forma inédita.

Ia, blockchain e fraudes nfc marcam o cibercrime financeiro em 2025
Imagem gerada po IA (Gemini)

​Segundo a Kaspersky, o malware espalhou‑se com maior frequência através de aplicações de mensagens, os ataques assistidos por IA tornaram‑se mais rápidos e difíceis de detetar, e as fraudes em pagamentos sem contacto passaram de fenómeno emergente a tendência consolidada.​
O resultado é um risco sistémico: instituições, infraestruturas críticas e utilizadores finais passaram a partilhar o mesmo campo de batalha digital.

Cibercrime financeiro em 2025: os números

O relatório sintetiza a exposição do setor financeiro a ataques com um conjunto de indicadores que traçam um quadro preocupante.​

  • 8,15% dos utilizadores enfrentaram ameaças online relacionadas com o setor financeiro.​
  • 15,81% dos utilizadores do setor foram alvo de ameaças locais (malware já presente nos dispositivos).​
  • 12,8% das empresas B2B do setor financeiro sofreram ataques de ransomware no período analisado.​
  • O número de utilizadores únicos do setor financeiro que detetaram ransomware aumentou 35,7% em 2025 face a 2023.​
  • Foram identificados 1 338 357 ataques de trojans bancários ao longo do ano.​

Estes números confirmam que o cibercrime financeiro não se limita a incidentes isolados, mas funciona como ecossistema global com capacidade para adaptar técnicas e explorar novas superfícies de ataque à escala.​

Táticas em evolução: cadeia de fornecimento, crime organizado e IA

Uma das tendências mais marcantes do ano foi a intensificação de ataques à cadeia de fornecimento de serviços financeiros.​
Segundo a Kaspersky, vários incidentes exploraram vulnerabilidades em fornecedores externos para atingir redes de pagamentos nacionais e sistemas centrais, demonstrando o efeito dominó que um único elo frágil pode desencadear.​

A convergência entre crime organizado e cibercrime também se tornou mais evidente.​
Grupos tradicionalmente associados a atividades físicas, como tráfico ou extorsão, passaram a integrar capacidades digitais, combinando engenharia social, contactos internos e exploração técnica para aumentar o impacto e a rentabilidade dos ataques.​

A inteligência artificial acrescentou uma camada de automação e velocidade.​
Segundo a Kaspersky, o malware com componentes de IA incorporou mecanismos de propagação e evasão automatizados, reduzindo o intervalo entre o desenvolvimento e a execução de ataques, o que dificulta a resposta das equipas de segurança.​

Do e‑mail às apps de mensagens: o “velho” malware em canais novos

Os atacantes não abandonaram o malware clássico, mas alteraram os seus canais de distribuição.​
Em vez de depender sobretudo de campanhas de phishing por e‑mail, os trojans bancários passaram a utilizar aplicações de mensagens populares como principal vetor, tirando partido da confiança que os utilizadores depositam nestas plataformas.​

A Kaspersky indica que trojans bancários foram reescritos para operar em cima de serviços de mensagens, o que permite campanhas de infeção em grande escala sem necessidade de infraestruturas de spam tradicionais.​
Este movimento desloca o risco para ambientes onde a deteção é menos madura e onde as fronteiras entre conversação pessoal e comunicação profissional são mais difusas.​

Apps bancárias móveis e fraudes NFC como alvo preferencial

No plano móvel, o relatório sublinha o papel do malware Android com capacidades ATS (Automated Transfer System), que automatiza transações fraudulentas e altera valores e destinatários em tempo real sem conhecimento do utilizador.​
Segundo a Kaspersky, este tipo de malware atua em cima de apps bancárias legítimas, contornando verificações visuais e confundindo utilizadores que acreditam estar a operar em contexto seguro.​

As fraudes baseadas em NFC evoluíram em duas direções.​
Por um lado, esquemas presenciais em locais movimentados exploram pagamentos sem contacto através de dispositivos ou cartões aproximados ilicitamente.​
Por outro, ataques remotos recorrem a engenharia social e aplicações falsas que imitam bancos genuínos, direcionando o utilizador para autorizações de pagamento sem perceber o desvio.​

Blockchain como infraestrutura de comando e controlo (C2)

Uma das tendências mais inquietantes é o uso de blockchain como infraestrutura de comando e controlo para malware financeiro.​
Segundo a Kaspersky, alguns grupos passaram a inscrever comandos de malware em contratos inteligentes, aproveitando o ecossistema Web3 para orquestrar ataques.​

Esta abordagem aumenta a resiliência das campanhas maliciosas.​
Mesmo que servidores tradicionais sejam desativados, a lógica de controlo persiste na cadeia de blocos, o que torna a erradicação significativamente mais difícil e levanta dilemas sobre a governação e a supervisão de redes descentralizadas.​

Ransomware permanece, algumas famílias desaparecem

O ransomware manteve‑se como ameaça estrutural no setor financeiro.​
Globalmente, 12,8% das organizações B2B financeiras foram afetadas no período analisado, com incidências regionais de 12,9% em África, 12,6% na América Latina e 9,4% na Rússia e países da CEI.​

A Kaspersky indica também que certas famílias de malware começaram a desaparecer, à medida que grupos específicos cessam operações ou migram para ferramentas mais modernas.​
Isto não significa menor risco, mas uma reorganização do ecossistema criminal, que substitui linhagens antigas por novas plataformas de malware, muitas vezes em regime MaaS (Malware as a Service).​

O que esperar de 2026: WhatsApp, deepfakes e “agentic AI malware”

No capítulo de previsões, a Kaspersky apresenta uma visão que projeta a intensificação de tendências já em curso, bem como a emergência de novas categorias de ameaça.​

Entre os pontos destacados pela empresa para 2026 estão:​

  • Trojans bancários reescritos para distribuição via WhatsApp e outras apps de mensagens, visando ambientes corporativos e governamentais que ainda dependem de sistemas bancários de desktop.​
  • Expansão de serviços de deepfakes e ferramentas de IA ao serviço da engenharia social, com impacto em entrevistas de emprego, processos KYC e fraudes de identidade.​
  • Surgimento de infostealers regionais, inspirados em famílias como Lumma e Redline, focados em países ou blocos específicos, no modelo MaaS.​
  • Mais ataques a pagamentos NFC, com novas ferramentas e malware voltados para transações sem contacto em diferentes contextos.​
  • Chegada de malware com IA “agentic”, capaz de alterar o comportamento durante a execução, analisar o ambiente e adaptar‑se em função das defesas e vulnerabilidades que encontra.​
  • Persistência de fraudes clássicas, mas com novos métodos de distribuição em plataformas emergentes.​
  • Continuação da venda de dispositivos inteligentes falsificados “pré‑infetados”, com trojans como Triada em smartphones, televisores e outros equipamentos conectados.​

Estas previsões descrevem um cenário em que a sofisticação técnica se combina com a industrialização do cibercrime, diminuindo barreiras de entrada e ampliando o impacto potencial de atores menos experientes.​

Recomendações: entre boas práticas e interesse comercial

A Kaspersky apresenta um conjunto de recomendações para utilizadores e organizações, que conjuga boas práticas reconhecidas com a promoção explícita dos seus produtos e serviços.​

Para utilizadores individuais, a empresa sugere:​

  • Fazer download de aplicações apenas de lojas oficiais, verificando a autenticidade do programador.​
  • Desativar o NFC sempre que não existe necessidade de uso e optar por carteiras digitais com mecanismos de bloqueio de comunicações não autorizadas.​
  • Monitorizar contas e transações com regularidade, de forma a detetar rapidamente atividades suspeitas.​
  • Proteger transações financeiras com a solução Kaspersky Premium e a funcionalidade Safe Money, que, segundo a empresa, valida a autenticidade de websites bancários e de pagamento.​

Para organizações financeiras, a Kaspersky recomenda uma abordagem de “ecossistema de cibersegurança” que una pessoas, processos e tecnologia.​

Entre as medidas propostas pela empresa constam:​

  • Avaliar toda a infraestrutura, corrigir vulnerabilidades e recorrer a especialistas externos para identificar riscos ocultos.​
  • Implementar plataformas integradas de monitorização e controlo de todos os vetores de ataque, com deteção rápida e resposta imediata; a gama Kaspersky Next é apresentada como exemplo de solução com proteção em tempo real e capacidades EDR/XDR.​
  • Monitorizar o panorama de ameaças com serviços de threat intelligence da Kaspersky e promover formações regulares de sensibilização para criar uma “firewall humana”.​

Embora as orientações técnicas alinhem com boas práticas amplamente aceites na indústria, importa notar que o relatório funciona também como peça de posicionamento comercial para o portefólio da Kaspersky, o que exige uma leitura crítica por parte de decisores e equipas de segurança.​

Conclusão

O Kaspersky Security Bulletin 2025 apresenta um setor financeiro pressionado por um cibercrime mais rápido, mais automatizado e mais integrado com estruturas de crime organizado.​
A combinação de IA, blockchain, NFC e malware móvel confirma que o espaço financeiro se tornou terreno preferencial para experimentar novas técnicas e modelos de ataque, enquanto utilizadores e instituições tentam reduzir a distância entre ameaça e capacidade de resposta.​

Em 2026, a questão central deixa de ser se o setor financeiro será alvo de ataques avançados, para se centrar na forma como bancos, fintechs e reguladores vão articular inteligência de ameaças, automação defensiva e literacia digital para conter a próxima geração de trojans bancários, deepfakes e malware com IA adaptativa.​

Perguntas frequentes (FAQ)

Porque é que o setor financeiro continua a ser um alvo prioritário do cibercrime?

O setor financeiro concentra ativos de elevado valor, dados sensíveis de clientes e dependência de infraestruturas digitais complexas, o que torna bancos, fintechs e prestadores de serviços de pagamento alvos extremamente atrativos para grupos criminosos motivados por lucro direto.

O que torna os ataques baseados em NFC particularmente perigosos?

Os pagamentos sem contacto permitem transações rápidas e discretas, e a combinação de engenharia social, apps falsas e exploração de dispositivos compromete tanto utilizadores distraídos como ambientes onde o controlo físico é difícil, como transportes públicos ou eventos de grande dimensão.

O que significa malware com IA “agentic” na prática?

Segundo a Kaspersky, malware com IA “agentic” consegue avaliar o ambiente em que se encontra, detectar defesas, escolher rotas de ataque alternativas e alterar a própria estratégia em tempo real, o que reduz a eficácia de mecanismos defensivos baseados em assinaturas estáticas ou padrões previsíveis.

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Alfredo Beleza

Alfredo Beleza

É o fundador e director editorial do TecheNet. Com carreira internacional como CEO e director comercial e de marketing em empresas em Portugal, na Suíça e no Brasil, desenvolveu uma perspectiva aprofundada sobre a intersecção entre tecnologia, negócios e mercados globais. Com formação em Gestão, Administração e Marketing pela Webster University, na Suíça, criou o TecheNet como um projecto editorial comprometido com o rigor e a imparcialidade da informação tecnológica em língua portuguesa.

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