O debate sobre a inteligência artificial no ensino superior divide Portugal. Em janeiro de 2026, dezenas de docentes de universidades e politécnicos de todo o país subscreveram um manifesto a exigir a proibição do uso de IA generativa nos processos de ensino e aprendizagem, alertando para o risco de transformar os estudantes em “cretinos digitais”. Do outro lado, o dean da Nova School of Business and Economics, Pedro Oliveira, classificou essa proibição como “completamente irrealista“. É neste contexto que o Piaget entra no debate com uma proposta concreta: formar em vez de proibir.

O manifesto e as suas críticas
O documento, intitulado Manifesto contra o uso da “inteligência” artificial generativa, foi subscrito inicialmente por 28 docentes de instituições como a Universidade do Porto, a Universidade de Coimbra e a Universidade Nova de Lisboa. Os signatários defendem que o “dilúvio digital” constitui um dos maiores problemas enfrentados pelas instituições de ensino superior, pelos professores e pelos estudantes, e que a proibição deve ser o ponto de partida urgente.
A posição não é consensual. A tendência internacional aponta em direção oposta: um estudo da Universidade da Califórnia, Berkeley, baseado na análise de mais de 30.000 programas de unidades curriculares, revela que as políticas altamente restritivas introduzidas após o lançamento do ChatGPT em 2022 têm vindo a ser progressivamente abandonadas. As preocupações com integridade académica dominavam 63% dos materiais de curso na primavera de 2023; no outono de 2025, esse valor desceu para 49%. Em Portugal, um dado adicional agrava o problema: apenas 17% das instituições com IA no ensino têm regras claras de utilização.
A resposta do Piaget
Perante este cenário, o Piaget assume uma posição inequívoca. A instituição parte de um pressuposto que considera incontornável: a IA já está presente no ensino superior, independentemente das tentativas de controlo. Ignorar essa realidade não elimina os riscos, apenas os desloca para zonas menos transparentes e mais difíceis de regular.
O curso lançado pela Escola Superior de Desporto e Educação Jean Piaget, em Vila Nova de Gaia, dirige-se a docentes e profissionais do ensino superior e tem início a 16 de abril de 2026. O objetivo declarado é capacitar estes profissionais para utilizar a IA de forma crítica, ética e pedagogicamente alinhada, transformando uma fonte de incerteza num instrumento de inovação responsável.
O que aborda a formação em IA
O curso cobre as principais dimensões do debate atual, reconhecendo tanto o potencial como os riscos da tecnologia. Entre as áreas de aplicação abordadas contam-se o planeamento pedagógico, a criação de conteúdos, o feedback aos estudantes e os processos de investigação. No plano dos desafios, a formação trata de forma direta os vieses algorítmicos, a privacidade e o cumprimento do RGPD, os direitos de autor e a integridade académica.
Mais do que uma formação técnica, o Piaget propõe uma mudança de paradigma: substituir a reação defensiva por uma abordagem informada, crítica e operacional. O resultado esperado não é apenas maior literacia tecnológica, mas uma capacidade efetiva de implementação imediata em contexto de sala de aula.
A voz do responsável
“Estamos perante um momento de viragem no ensino superior. A Inteligência Artificial já está presente nas universidades e não pode ser ignorada. O verdadeiro desafio é perceber se as instituições vão liderar a sua integração ou limitar-se a proibições que atrasam o progresso“, afirma Celestino Magalhães, responsável pela formação.
A declaração sintetiza a filosofia do curso: a tecnologia não espera pelas instituições. A questão já não é se a IA vai transformar o ensino superior, mas quem vai liderar essa transformação e em que condições.
Sobre o Piaget
O Piaget, que em janeiro de 2025 renovou a sua identidade e passou a designar-se apenas como “Piaget”, celebra 45 anos de atividade com presença em cinco campi em Portugal – Almada, Algarve, Gaia, Viseu e Macedo de Cavaleiros – e em cinco países lusófonos: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau e Moçambique. A instituição integra nove escolas superiores e institutos universitários, complementados por entidades como a ONGD Agência Piaget para o Desenvolvimento e o Centro de Investigação Insight.
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