Num momento em que a inteligência artificial está a redefinir a forma como as pessoas pesquisam e interagem com informação de saúde, a plataforma Kidney.com surge com uma proposta distinta: combinar IA generativa com supervisão clínica especializada em doença renal. Desenvolvida pela Diaverum em parceria com a M42, a plataforma aposta numa abordagem mais contextualizada, educativa e baseada em evidência científica, diferenciando-se dos tradicionais chatbots de saúde e verificadores de sintomas.
Em entrevista à TecheNet, o Dr. Carlos Lucas, Vice-Presidente Médico da Diaverum, explica como o kidney.com pretende evoluir de assistente educativo para um verdadeiro “companheiro digital de saúde”, capaz de apoiar prevenção, literacia e gestão contínua da doença renal.

1. O kidney.com posiciona-se na interseção entre saúde e inteligência artificial generativa. Do ponto de vista tecnológico, o que diferencia a vossa infraestrutura de IA de um chatbot de saúde ou verificador de sintomas já disponível online?
A maioria dos chatbots de saúde ou verificadores de sintomas baseia-se em modelos de informação generalistas. O kidney.com foi desenvolvido de forma diferente. Trata-se de uma plataforma especializada e clinicamente supervisionada, construída especificamente para a saúde renal, que combina as avançadas capacidades de IA da M42 com os 35 anos de experiência da Diaverum em cuidados renais.
As ferramentas de IA generalistas podem, por vezes, gerar respostas demasiado amplas quando aplicadas a temas médicos complexos. O kidney.com é diferente: é uma plataforma especializada exclusivamente focada na saúde renal e baseada em conteúdos clínicos curados e baseados em evidência científica, alinhados com diretrizes internacionais e validados por mais de 30 nefrologistas, médicos e enfermeiros em 13 países. Em vez de apenas responder a sintomas, o kidney.com centra-se na educação, consciencialização e compreensão da doença a longo prazo, ajudando as pessoas a compreender melhor os riscos, a prevenção e a autogestão.
2. A IA na saúde levanta frequentemente preocupações relacionadas com precisão e desinformação. Como garantem a fiabilidade e credibilidade médica da informação gerada pelo kidney.com, especialmente quando os utilizadores podem agir com base nesses conselhos?
Precisão e confiança são elementos fundamentais na IA aplicada à saúde. O kidney.com não é um dispositivo médico e não realiza diagnósticos, tratamentos nem toma decisões clínicas. É uma plataforma educativa concebida para complementar a orientação médica profissional.
Toda a informação gerada pela plataforma baseia-se na literatura do modelo de cuidados proprietário da Diaverum, alinhada com diretrizes clínicas internacionais e suportada por fontes científicas revistas por pares. A base de conhecimento foi igualmente validada por clínicos da rede Diaverum e do ecossistema M42, existindo processos contínuos de revisão para garantir a precisão médica e a conformidade regulatória.
Estamos também plenamente conscientes dos riscos associados às alucinações da IA e à desinformação. É por isso que a plataforma opera dentro de limites rigorosos e sob monitorização contínua, para garantir que as respostas se mantêm clinicamente adequadas, baseadas em evidências e seguras.
3. Qual é atualmente o papel dos large language models na plataforma? Estão sobretudo focados em descoberta de conteúdos e educação, ou imaginam capacidades mais avançadas, como orientação preditiva ou jornadas de saúde personalizadas?
Atualmente, os grandes modelos de linguagem do kidney.com servem principalmente para apoiar a educação e o envolvimento personalizados. Permitem que os utilizadores interajam de forma eficaz com o kidney.com através de conversas, façam perguntas em linguagem natural e recebam explicações personalizadas e fáceis de compreender, baseadas em informação médica validada.
Mas isto é apenas o início. A longo prazo, vemos plataformas como o kidney.com a evoluir para companheiros de saúde digitais mais avançados, capazes de apoiar um acompanhamento contínuo e jornadas de saúde mais personalizadas.
Isto poderá incluir integração com registos eletrónicos de saúde, dispositivos wearables e ecossistemas de saúde digital mais amplos, permitindo uma orientação mais proativa em áreas como estilo de vida, adesão à medicação, nutrição e gestão da doença. A visão de longo prazo é aproximar os cuidados de saúde do quotidiano das pessoas, ajudando os sistemas de saúde a evoluírem de modelos reativos para abordagens mais preventivas e precoces.
4. A privacidade tornou-se uma grande preocupação nas plataformas de saúde alimentadas por IA. Como é que o kidney.com gere os dados dos utilizadores e que salvaguardas existem para garantir conformidade com regulamentações de saúde e proteção de dados?
A privacidade e a confiança são absolutamente centrais no desenho da plataforma. O kidney.com foi desenvolvido em conformidade com os requisitos de soberania de dados, privacidade e regulamentação de saúde em todos os mercados onde opera.
A plataforma funciona através de instâncias regionais separadas para garantir que os dados dos utilizadores permanecem dentro das jurisdições locais e cumprem regulamentações aplicáveis, como o RGPD e normas equivalentes. Qualquer informação utilizada para melhorar o desempenho da plataforma é anonimizada e agregada, e nenhum dado pessoal de saúde é partilhado externamente.
Do ponto de vista tecnológico, o kidney.com é suportado por uma implementação segura dos serviços Microsoft Azure OpenAI, integrados numa infraestrutura empresarial compatível com os mais elevados requisitos de privacidade. Para além das salvaguardas técnicas, aplicamos princípios rigorosos de IA responsável, incluindo transparência, validação clínica, supervisão humana e segurança desde a conceção.
5. Do ponto de vista da tecnologia de consumo, que tipo de comportamento dos utilizadores já estão a observar? As pessoas utilizam o kidney.com mais como um motor de busca, um assistente de IA ou uma plataforma de gestão de saúde a longo prazo?
O que temos observado até agora é que as pessoas interagem com o kidney.com de forma muito mais conversacional e pessoal do que fariam com um motor de busca tradicional. Os utilizadores não estão apenas à procura de factos isolados; fazem perguntas contextualizadas sobre sintomas, estilo de vida, nutrição e sobre como a doença renal se relaciona com o seu quotidiano.
Isto reflete uma mudança mais ampla na forma como as pessoas interagem hoje com a informação em saúde. Existe uma expectativa crescente de que a tecnologia aplicada à saúde seja intuitiva, personalizada e acessível em tempo real.
Acreditamos que, ao longo do tempo, plataformas como o kidney.com irão evoluir de assistentes educativos para companheiros de saúde contínuos, capazes de apoiar prevenção, autogestão e envolvimento permanente dos utilizadores. Esta evolução é particularmente importante em doenças crónicas como a DRC, onde a consciencialização e a mudança comportamental a longo prazo são essenciais para melhorar resultados clínicos.
6. O setor health-tech está cada vez mais competitivo no campo da IA. Qual é a visão de longo prazo para o kidney.com e como planeiam diferenciar-se tanto de publishers médicos tradicionais como de startups AI-first na área da saúde?
A nossa visão de longo prazo para o kidney.com é torná-lo uma plataforma digital abrangente de saúde renal, capaz de apoiar pacientes, profissionais de saúde e sistemas de saúde ao longo de todo o continuum de cuidados, desde educação e prevenção até uma gestão da doença mais conectada e proativa.
O que diferencia o kidney.com é a combinação entre capacidades avançadas de IA, elevada especialização clínica e experiência real em prestação de cuidados de saúde. Não se trata de uma plataforma genérica de bem-estar nem de uma ferramenta de IA isolada. Foi desenvolvida com contributo clínico direto de uma das principais redes mundiais de cuidados renais e assenta em medicina baseada em evidência, governação responsável de IA e integração sustentável nos sistemas de saúde.
Acreditamos também que o futuro da IA na saúde não será definido por aplicações isoladas, mas sim por soluções capazes de operar de forma relevante dentro dos próprios sistemas de saúde, apoiando estratégias de prevenção, melhorando o envolvimento dos pacientes e ajudando a gerir a pressão crescente associada às doenças crónicas. É aí que acreditamos que o kidney.com poderá gerar maior impacto.
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