A indústria automóvel vive um momento de cisão ideológica profunda. De um lado, gigantes como a General Motors (GM) decidiram banir o Apple CarPlay e o Android Auto dos seus futuros veículos elétricos, forçando os condutores a usar apenas o software nativo do carro numa tentativa de controlar os dados e as subscrições. Do outro lado, marcas como a Ford e agora a Volvo reafirmam o seu compromisso inabalável com a liberdade de escolha.
Numa entrevista recente ao The Drive, Anders Bell, diretor de engenharia e tecnologia da Volvo, foi taxativo: a marca sueca vai “absolutamente” continuar a oferecer suporte para CarPlay e Android Auto em todos os seus carros, incluindo os elétricos. Esta declaração não é apenas uma confirmação técnica; é uma filosofia de design que coloca o utilizador no centro da experiência, recusando a tendência de fechar o ecossistema do automóvel.
“Não queremos forçá-lo a nada”
“Queremos integrar-nos na sua vida digital, não forçá-lo a nada”, explicou Bell, resumindo a mentalidade da Volvo. A abordagem da empresa é pragmática e respeitosa. A Volvo reconhece que os clientes já vivem imersos nos seus ecossistemas digitais preferidos (seja Apple ou Google) através dos seus smartphones. Tentar lutar contra isso ou obrigar um utilizador de iPhone a aprender uma nova interface proprietária apenas para conduzir o carro é, na visão da Volvo, um erro de usabilidade. “Temos de nos adaptar a si, seja qual for o seu ecossistema digital”, reforçou o executivo.
Esta postura contrasta violentamente com a da GM, que tem insistido repetidamente que remover o CarPlay é a decisão certa para criar uma experiência mais integrada (e lucrativa). A Volvo, pelo contrário, quer oferecer o melhor dos dois mundos. O objetivo a longo prazo é desenvolver a “melhor experiência absolutamente nativa” com o seu próprio sistema de infoentretenimento, mas garantir simultaneamente que, se o cliente preferir projetar o telemóvel no ecrã, essa integração seja “supremamente boa“. A escolha final deve ser do condutor, não do fabricante.

A honestidade sobre o passado “merdoso”
Bell foi ainda mais longe, oferecendo uma dose rara de honestidade corporativa sobre a origem do sucesso destes sistemas de projeção. O executivo admitiu sem rodeios que uma das razões pelas quais o CarPlay existe e é tão amado pelos consumidores é porque “o sistema de infoentretenimento era tão merdoso antigamente nos carros“.
Ao reconhecer as falhas históricas da indústria automóvel em criar software decente, a Volvo mostra que entende a frustração dos condutores e o porquê de estes confiarem tanto na Apple e na Google para a interface do seu veículo. É uma admissão de humildade que valida a preferência dos utilizadores.
O mistério do “CarPlay Ultra” e o novo EX60
No entanto, permanece uma nuvem de mistério sobre o suporte ao “CarPlay de Próxima Geração” (ou Ultra), que promete tomar conta de todos os ecrãs do painel de instrumentos. Embora a Volvo tenha sido anunciada inicialmente pela Apple como uma parceira de lançamento, relatórios do Financial Times sugeriram no ano passado que a marca poderia ter recuado nesse nível de controlo. Na entrevista, Bell afirmou que trabalharam numa “integração realmente boa”, mas não confirmou explicitamente o suporte total à versão Ultra, mantendo o foco na integração atual.
O lançamento do novo SUV Volvo EX60 é a prova viva desta estratégia híbrida. O carro virá com uma aplicação nativa da Apple Music e suporte para Áudio Espacial, mostrando que é possível ter um software nativo robusto e rico sem fechar a porta à projeção do smartphone. Enquanto a GM aposta num jardim murado, a Volvo deixa o portão aberto.
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