Entramos na sala escura, o ecrã acende-se e a história começa sempre da mesma forma: máquinas ganham consciência, humanos perdem controlo, o mundo muda de dono. De 2001: A Space Odyssey a Ex Machina, passando pelo pânico visceral de The Terminator e pela sedução inquietante de Her, o cinema ensinou-nos a temer uma rebelião súbita, quase teatral, com direito a vilões digitais e finais épicos. Mas e se estivermos a olhar para o filme errado?
A realidade parece menos um blockbuster e mais um plano-sequência longo e silencioso, onde a transformação acontece sem cortes visíveis. Não há um momento em que “a IA acorda”. Há, isso sim, uma sucessão de pequenas delegações: uma decisão automatizada aqui, uma recomendação ali, um sistema que aprende sozinho e passa a decidir melhor do que nós em tarefas específicas.

Os humanoides são, talvez, o elemento mais cinematográfico desta nova fase. Já não falamos de robôs industriais em linhas de montagem: o Figure 02 dobra roupa, o Ameca conversa e reconhece emoções. Como David, o rapaz-robô de A.I. Artificial Intelligence, estas máquinas não foram programadas apenas para executar, mas para sentir a proximidade humana. São personagens secundárias que se instalam silenciosamente no quotidiano até ao dia em que passam a protagonistas. A condução autónoma segue a mesma lógica: a personagem de Blade Runner que abandona o laboratório aprende a existir entre humanos pela experiência direta. Um Waymo sem condutor a atravessar São Francisco faz exatamente isso, sem mapa fixo, sem guião, apenas contexto e decisão em tempo real.
Mas o verdadeiro salto não está no corpo, mas sim no comportamento. Os Large Behaviour Models não se limitam a prever palavras: aprendem sequências de ação no mundo real. Se os primeiros modelos eram como argumentistas, estes aproximam-se mais de realizadores – antecipam, simulam, encadeiam. O mundo deixa de ser descrito e passa a ser ensaiado.
É sobre esse palco que a IA agêntica entra em cena. Já não falamos de sistemas que respondem a perguntas, mas de agentes que definem objetivos, escolhem caminhos, comunicam entre si e com outros sistemas através de protocolos partilhados (MCP, A2A, entre outros) e iteram até lá chegar. Como o HAL 9000 de 2001: A Space Odyssey a gerir silenciosamente a missão, mas desta vez sem intenção de sabotar. Entretanto, o OpenAI Operator, os “use computer bots” da OpenAI e projetos como o OpenClaw já não estão do lado de cá do ecrã, mas sim lá dentro, a percorrer interfaces, a clicar, a escrever e a executar tarefas como se fossem humanos. Antecipam necessidades antes de serem chamadas, como em Minority Report, onde a máquina não esperava pelo crime, antecipava-o. Neste filme silencioso que estamos a viver, o rato e o teclado tornam-se, a curto prazo, meros adereços de cena: relíquias de uma interação que a voz, o gesto e a intenção inferida virão substituir.
Mas, atenção, o filme que estamos a viver não é de terror. É um drama humano sobre escolhas, sobre que papéis decidimos guardar para nós. Como em I, Robot, a questão nunca foi se as máquinas nos dominariam: foi sempre o que escolhemos construir e porquê. E, ao contrário de qualquer blockbuster, este final ainda não está escrito. O lápis está na nossa mão.
Artigo de opinião de Ricardo Queirós, Docente na Escola Superior de Media Artes e Design (ESMAD) e na Escola Superior de Saúde (E2S) do Politécnico do Porto (P.PORTO). Autor do livro IA e Chatbots – Um Guia Prático ao Alcance de Todos (FCA Editora)
Outros artigos interessantes:









