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Esqueleto da era do gelo remonta às origens dos primeiros americanos

Luiz Guilherme Trevisan Gomes por Luiz Guilherme Trevisan Gomes
16/05/2014 - Atualizado a 22/05/2014
Em Ciência

Crânio de naia: mergulhadores transportam um crânio de cerca de 12 mil anos de idade para a confecção de um modelo 3d. Crédito: paul nicklen/national geographic

Crânio de Naia: Mergulhadores transportam um crânio de cerca de 12 mil anos de idade para a confecção de um modelo 3D. Crédito: Paul Nicklen/National Geographic

O esqueleto quase completo de uma jovem que morreu há 12 mil anos, encontrado no México, fornece pistas quanto à origem da população que primeiro habitou a América.

Mergulhadores descobriram o esqueleto, denominado Naia — em referência às ninfas aquáticas (criaturas mitológicas gregas) Náiades —, há sete anos, submerso no complexo de cavernas de Hoyo Negro (Buraco Negro, em espanhol), na Península de Iucatã. Ao lado de Naia se encontram esqueletos de 26 outros mamíferos, incluindo o de um tigre-dentes-de-sabre, extintos há cerca de 13 mil anos.

Dada a dificuldade técnica de remoção do esqueleto da menina de 15-16 anos — idade calculada com base nos dentes e no desenvolvimento ósseo dos restos mortais —, ele foi estudado in situ. Por exemplo, os mergulhadores puseram o crânio de Naia em um tripé rotativo e uma câmera no outro tripé, coletando imagens do crânio por diversos ângulos. Em seguida, as fotografias obtidas foram transformadas em um modelo tridimensional.

Medições dos restos mortais sugerem que os nativos americanos modernos descendem dos paleoamericanos, primeiros habitantes da América, que migraram da Sibéria através do Estreito de Bering, no fim da última era glacial. Uma teoria alternativa supõe que um fluxo migratório mais recente teria sido responsável por trazer à América novas populações do Leste Asiático.

Escorregando para a história

O paleontólogo James Chatters, líder do estudo e proprietário da companhia de consultoria forense Applied Paleoscience, no estado americano de Washington, afirma que “Naia e os outros animais teriam escorregado por um cenote e caído [de uma altura de] 30 metros”, o que resultou na fratura da pelve da moça. (Cenote é uma cavidade esculpida na rocha naturalmente, expondo a água subterrânea.)

Em estudo publicado na Science, os cientistas estimaram que Naia tivesse cerca de um metro e meio de altura. Além disso, o crânio de face angular e testa saliente remete aos dos fósseis mais antigos de paleoamericanos, datando de mais de 10 mil anos atrás, muitos dos quais descobertos no noroeste do Pacífico.

Dentes, uma costela e depósitos minerais que cresceram sobre a superfície dos ossos foram coletados pelos mergulhadores e analisados em laboratório. Combinadas, a datação pelo carbono do esmalte dos dentes e as taxas de urânio e tório presentes nos depósitos minerais levaram os cientistas à conclusão de que Naia teria vivido há 12-13 mil anos.

O DNA mitocondrial extraído de um dente revelou padrões genéticos em comum com os de nativos americanos modernos, apesar de os crânios deste grupo e o dos paleoamericanos diferirem, indicando que o formato moderno do crânio dos nativos americanos teria se desenvolvido em solo norte-americano.

Chatters diz não poder “excluir que os nativos americanos tenham mais de um grupo de ancestrais”, no entanto, reforça que os dados do estudo estão de acordo com a hipótese da migração siberiana. Segundo o pesquisador Chris Tyler-Smith, do Wellcome Trust Sanger Institute (Reino Unido), evidências arqueológicas, linguísticas e genéticas apontam para um povoamento inicial ocorrido entre 15 mil e 20 mil anos atrás.

O esqueleto mexicano foi o mais completo já encontrado. Seu valor para a ciência é enorme, tendo em vista que os paleoamericanos nem sempre construíam tumbas para seus mortos, talvez em virtude do nomadismo destes povos.

O fim do nomadismo na América pode ser, inclusive, o fator que explica a evolução do crânio dos nativos americanos. Chatters especula que o estabelecimento de populações fixas pode ter contribuído para a seleção de “traços e temperamentos domésticos”, como os rostos arredondados dos nativos modernos, uma vez que essa sorte de forma doméstica passa a ser vista “quando as mulheres têm mais controle sobre a oferta de alimento”, tornando-se menos necessária a agressividade masculina.

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Tags: Americaevoluçãofóssil
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Luiz Guilherme Trevisan Gomes

Luiz Guilherme Trevisan Gomes

é graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e trabalha como consultor financeiro na Valore Brasil - Controladoria de Resultados. Atualmente, cursa o MBA em Controladoria e Finanças na Universidade de São Paulo (USP). Entusiasta da razão e da ciência, fundou o espaço de divulgação científica Make It Clear Brasil, em 2013.

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