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Pausa no aquecimento global pode ter sua origem no Oceano Atlântico

Luiz Guilherme Trevisan Gomes por Luiz Guilherme Trevisan Gomes
22/08/2014 - Atualizado a 23/08/2014
Em Ciência
Informações obtidas por instrumentos oceanográficos sugerem que o  oceano  atlântico tenha absorvido parte do calor que, de outra forma, aqueceria a atmosfera do planeta, de acordo com uma dupla de pesquisadores. Imagem: sammyyomis; pichost
informações obtidas por instrumentos oceanográficos sugerem que o oceano atlântico tenha absorvido parte do calor que, de outra forma, aqueceria a atmosfera do planeta, de acordo com uma dupla de pesquisadores. Imagem: sammyyomis; pichost




Desde o final da década de 1990 a temperatura média global subiu pouco, criando o fenômeno que muitos cientistas têm chamado de hiato no aquecimento global. Agora, um estudo publicado na revista Science sugere que as águas do Oceano Atlântico tenham grande parcela de responsabilidade sobre a aparente estabilidade da temperatura.

Segundo o autor líder do estudo, Ka-Kit Tung, cientista atmosférico da Universidade de Washington em Seattle, nos Estados Unidos, mudanças nos padrões de circulação — que carregam a água da zona tropical, aquecida pela irradiação solar, até latitudes mais altas, onde afundam e são trazidas de volta ao Equador — “esconderam” o aumento da temperatura que, esperava-se, continuaria ocorrendo velozmente no início do século XXI.

Tung e o coautor da pesquisa, Xianyao Chen, da Universidade dos Oceanos da China, chegaram à conclusão acima baseando-se em dados coletados por instrumentos oceanográficos que registraram as condições existentes abaixo da superfície do Atlântico a partir do início dos anos 1970.

Calor, onde está você?

A velocidade das correntes oceânicas varia de acordo com a salinidade da água em altas latitudes: em períodos de padrões de circulação lentos, a água quente da superfície tende a permanecer mais exposta à atmosfera e a sofrer mais com a evaporação, o que a torna mais salobra e densa conforme se aproxima das áreas de alta latitude, onde passam para profundidades maiores.

Calor depositado no atlântico a até 1. 500 m de profundidade. Regiões mais avermelhadas correspondem a maiores absorções de energia no período estudado. Crédito: ka-kit tung; xianyao chen
calor depositado no atlântico a até 1. 500 m de profundidade. Regiões mais avermelhadas correspondem a maiores absorções de energia no período estudado. Crédito: ka-kit tung; xianyao chen

Por fim, o aumento da velocidade de submersão da água mais densa acaba por acelerar também a corrente, tendo sido exatamente este o fato observado por Tung e Chen a partir de 1999. Logo após o extraordinariamente quente ano de 1998, a velocidade das correntes aumentou, depositando água mais quente nas profundezas do oceano — até 1.500 m, precisamente (imagem abo lado). “Encontramos o calor desaparecido”, dizem os pesquisadores, que acreditam que tal processo seja suficiente para explicar a estabilidade da temperatura desde então, contrariando outras pesquisas recentes, que apontaram o clima do Oceano Pacífico como verdadeiro culpado.

Entretanto, a aceleração dos padrões de circulação é contrabalançada por outros fatores e, com o tempo, tende a se reverter. Conforme a corrente oceânica se acelera, a água quente fica exposta por menos tempo à evaporação, o que a torna menos salgada — e menos densa. Além disso, o calor dessa mesma água derrete geleiras, ocasionando a liberação de água doce na superfície do oceano. Em conjunto, os mecanismos citados diminuem a salinidade da água o suficiente para que esta não afunde com tanta velocidade nas regiões de alta latitude, reduzindo a velocidade da circulação.

Para Tung, sua investigação não demonstra que o aquecimento global foi detido, uma vez que a tendência de aquecimento se parece com uma escadaria na qual elevações velozes são intercaladas por planaltos, e “nós estamos agora na parte plana da escadaria”, afirma.

O pesquisador Gavin Schmidt, diretor do Instituto Goddard para Estudos Espaciais da NASA, acredita que a conclusão de que “a causa [do aparente hiato] foi encontrada” é exagerada, pois diversos efeitos se sobrepõem quando consideramos a tendência do clima global.

Já Richard Alley, geocientista da Universidade Estadual da Pensilvânia considera importante o foco sobre o Oceano Atlântico, já que informações obtidas pela paleoclimatologia (ciência que se dedica ao estudo do histórico climático da Terra) sugerem que este oceano realmente exerça influência sobre registros climáticos globais. Segundo Alley, evidências das eras glaciais apontam para a existência de enormes alterações no Atlântico Norte “que aparecem em registros climáticos ao redor do mundo”.

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Tags: aquecimento globalclimaoceano
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Luiz Guilherme Trevisan Gomes

Luiz Guilherme Trevisan Gomes

é graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e trabalha como consultor financeiro na Valore Brasil - Controladoria de Resultados. Atualmente, cursa o MBA em Controladoria e Finanças na Universidade de São Paulo (USP). Entusiasta da razão e da ciência, fundou o espaço de divulgação científica Make It Clear Brasil, em 2013.

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