Luz ultravioleta é utilizada para reconstituir a pele de animais vivos

Experimento com animais vivos ativou um peptídeo que estimula a regeneração do tecido da pele, bem como uma proteína que acelera a reconstituição dos vasos sanguíneos. Na imagem acima, a luz ultravioleta é utilizada para ativar a fluorescência de um material biológico situado sob a pele de um animal. Crédito: García Laboratory/Georgia Tech
Experimento com animais vivos ativou um peptídeo que estimula a regeneração do tecido da pele, bem como uma proteína que acelera a reconstituição dos vasos sanguíneos. Na imagem acima, a luz ultravioleta é utilizada para ativar a fluorescência de um material biológico situado sob a pele de um animal. Crédito: García Laboratory/Georgia Tech

Um experimento estimulou a regeneração da pele de animais vivos aplicando luz ultravioleta sobre a mesma. O mais importante, no entanto, é que a técnica empregada foi capaz de fomentar o desenvolvimento dos vasos sanguíneos, parte fundamental do processo de cura.

O bioengenheiro Andrés García, do Instituto de Tecnologia da Geórgia, Estados Unidos, e seus colegas desenvolveram um hidrogel — tipo de gel com imensa capacidade de absorção de água — combinado com um peptídeo denominado RGD, molécula que o corpo utiliza como sinal para que as células se unam na formação de novos tecidos, e com uma outra molécula, esta capaz manter o RGD inativo. Conforme a luz ultravioleta (UV) foi irradiada sobre o hidrogel, esta última molécula se destacou do peptídeo RGD, ativando-o, mecanismo de controle criado para testar a eficácia da mistura.

Na fase de testes com animais, os pesquisadores fizeram incisões (cortes) nas costas de camundongos e implantaram amostras do hidrogel sob a pele lesionada. Parte das amostras foi imediatamente exposta à luz ultravioleta, enquanto que a outra parte passou pela exposição entre uma e duas semanas após o implante. De acordo com a equipe, o resultado foi o mesmo em todos os casos: as células se desenvolveram ao redor dos implantes, independente da data de exposição aos raios UV.

Cabe salientar que, no caso dos implantes expostos à luz ultravioleta assim que inseridos nos roedores, os organismos dos animais os reconheceram como corpos estranhos, cobrindo-os com tecido epitelial de cicatriz. Por outro lado, nas instâncias em que o peptídeo permaneceu inativo por alguns dias, a resposta imunológica dos organismos receptores não teve tanta força como nos casos anteriores, tendo o implante de hidrogel se adaptado melhor ao tecido dos animais. No entanto, observa a equipe em artigo publicado no periódico Nature Materials, poucos vasos sanguíneos se formaram na região ocupada pelo implante.

Assim, em uma segunda etapa de experimentos, os cientistas agregaram ao hidrogel e ao peptídeo anteriores uma proteína responsável por estimular o desenvolvimento de novos vasos sanguíneos. Essa proteína, o fator de crescimento endotelial vascular (do inglês, vascular endotelial growth factor — VEGF), combinada com o peptídeo RGD e com a exposição à luz UV dias depois do implante, propiciou uma melhor integração entre as novas e antigas redes de vasos sanguíneos dos roedores.

Na prática, a melhor integração permitiu que o sangue dos camundongos passasse pelo hidrogel, suprindo a região do implante com mais oxigênio e nutrientes, o que agilizou a regeneração do tecido. De fato, explica García, um enxerto de tecido cultivado em laboratório não sobrevive por muito tempo no corpo do animal sem que receba sangue e nutrientes do mesmo.

Apesar dessa vantagem, o tratamento com luz ultravioleta não deve surtir muito efeito em humanos, o que decorre do fato de este tipo de radiação eletromagnética não penetrar profundamente a pele: os pesquisadores estimaram que 90% da luz ficou retida em apenas 0,5 mm de pele superficial dos camundongos; não obstante, os 10% restantes foram suficientes para ativar o peptídeo no hidrogel.

Como a pele humana é muito mais espessa em relação à dos camundongos, a equipe já trabalha no desenvolvimento de uma técnica que funcionará com radiação infravermelha, que, além de penetrar melhor a pele humana, é mais segura por não danificar as células de pele (lembrando que os dermatologistas recomendam o uso do filtro solar quando nos expomos ao sol, a fim de que o contato com a luz UV e, consequentemente, o risco de desenvolvimento do câncer/cancro de pele sejam reduzidos).

Para Jennifer Elisseeff, bioengenheira da Universidade Johns Hopkins em Maryland, a pesquisa parece representar um avanço em direção à produção de sensores de glicose permanentes, implantados em pessoas diabéticas, que captem os níveis de açúcar fluindo na corrente sanguínea através de si mesmos, por exemplo. “[I]sso [o estudo] abre uma porta para sermos realmente capazes de manipular as interações do corpo com esses tipos de implantes”, conclui Elisseeff.

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é graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e trabalha como consultor financeiro na Valore Brasil - Controladoria de Resultados. Atualmente, cursa o MBA em Controladoria e Finanças na Universidade de São Paulo (USP). Entusiasta da razão e da ciência, fundou o espaço de divulgação científica Make It Clear Brasil, em 2013.

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