A transformação digital no retalho de proximidade em Portugal continua marcada por uma forte assimetria, cerca de 45% das PME não têm presença digital e 65% permanecem fora do comércio online. Este atraso estrutural, mais do que tecnológico, reflete limitações operacionais, falta de integração de sistemas e uma percepção persistente de complexidade e retorno incerto do investimento. Num mercado cada vez mais orientado por dados e eficiência, esta fragmentação compromete a capacidade competitiva face às grandes cadeias, que operam com infraestruturas altamente integradas e decisões em tempo real.
Nesta entrevista exclusiva, Carlos Vasques Guedes, Diretor-Geral da Logista Strator Iberia, defende que o caminho passa por simplificar a adoção tecnológica e aproximá-la das necessidades reais do comércio. A integração entre software, hardware e serviços, aliada ao uso de dados e à automação de processos, surge como fator determinante para aumentar a eficiência operacional, reduzir erros e democratizar o acesso a ferramentas analíticas. Num setor onde a proximidade ao cliente continua a ser central, a tecnologia tende a assumir um papel complementar, não como substituto, mas como catalisador de competitividade e sustentabilidade.

A entrevista a Carlos Vasques Guedes
Diagnóstico de mercado e barreiras à digitalização
- Os números do mercado português revelam uma realidade de contrastes: cerca de 45% das PME não têm presença digital e 65% não realizam vendas online. Na sua análise, quais são os principais fatores (culturais, financeiros ou de literacia digital) que justificam esta resistência na adoção de soluções tecnológicas por parte do retalho de proximidade em Portugal?
A adoção da tecnologia não depende apenas da disponibilidade de ferramentas. Em muitos casos, o que observamos é uma combinação de três fatores: a perceção de complexidade, a limitação de recursos e a falta de tempo para gerir a mudança.
Muitos pequenos comerciantes estão focados na operação diária e encaram a digitalização como um investimento difícil de rentabilizar ou como um processo complexo que pode alterar o funcionamento habitual do negócio. No entanto, a realidade é que a tecnologia atual deve adaptar-se ao comércio, e não o contrário.
Em Portugal, existe um enorme potencial para avançar neste domínio. Cada vez mais comerciantes compreendem que digitalizar não significa perder proximidade com o cliente, mas sim dispor de ferramentas que permitem trabalhar de forma mais eficiente, tomar melhores decisões e dedicar mais tempo ao que é verdadeiramente importante: atender e fidelizar os clientes.
Importa, no entanto, ter presente que desenvolver uma presença digital é como abrir uma nova porta para o negócio, com tudo o que isso implica. A digitalização de processos, para que gere um benefício real para o comércio, exige frequentemente a reorganização de algumas dinâmicas de trabalho, o envolvimento das equipas e a capacidade de canalizar esses ganhos de eficiência para uma melhor experiência do cliente.
- A fragmentação tecnológica surge frequentemente como um obstáculo: muitos pequenos comerciantes utilizam soluções isoladas (um software de faturação, um terminal de pagamento independente, controle de stock em folha de cálculo). Quais são os riscos operacionais e de segurança que esta arquitetura fragmentada acarreta para a sobrevivência do negócio face às grandes superfícies?
A fragmentação gera ineficiências que, muitas vezes, passam despercebidas. Quando um negócio utiliza diferentes ferramentas que não comunicam entre si, multiplica-se o trabalho manual, aumenta a probabilidade de erros e torna-se mais difícil obter uma visão global do negócio.
Além disso, a falta de integração limita a capacidade de resposta. Um comerciante precisa de saber o que está a acontecer no seu ponto de venda, em tempo real, para poder tomar decisões rápidas sobre compras, gestão de stocks ou rentabilidade.
Num contexto em que as grandes cadeias já operam com modelos altamente integrados, o comércio de proximidade precisa de ter acesso ao mesmo nível de informação e controlo para continuar a ser competitivo.
Atualmente, o mercado disponibiliza soluções acessíveis e adaptadas às necessidades do pequeno comércio, sem necessidade de realizar investimentos elevados. O essencial passa por identificar soluções que combinem uma integração eficaz entre software e hardware e que sejam complementadas por um serviço de assistência técnica de proximidade, capaz de garantir um acompanhamento contínuo.
- A Logista Strator possui uma forte operação no mercado espanhol. Que paralelismos estruturais e diferenças mais marcantes identifica entre o retalho de proximidade em Espanha e em Portugal no que diz respeito à maturidade digital? Quais são as grandes lições do mercado vizinho aplicáveis à realidade portuguesa?
Portugal e Espanha partilham uma característica fundamental: ambos contam com uma vasta rede de comércio de proximidade que desempenha um papel essencial na economia local e na dinâmica das comunidades.
A principal diferença reside no grau de maturidade digital de alguns segmentos. Espanha percorreu um caminho mais longo na adoção de soluções de gestão, automação e análise de dados, o que contribuiu para acelerar muitos processos de modernização.
Neste contexto, Portugal tem a vantagem de poder beneficiar de modelos já testados e incorporar, com agilidade, práticas que demonstraram a sua eficácia. Além disso, a sua capacidade de adoção de novas tecnologias, reconhecida entre as mais elevadas da Europa, constitui um fator favorável para este processo de transformação.
Chegamos a Portugal com mais de uma década de experiência ao lado de milhares de pequenos comerciantes em Espanha e com um profundo conhecimento das soluções que verdadeiramente contribuem para aumentar a eficiência e a rentabilidade dos negócios.
Ao mesmo tempo, estamos conscientes de que cada mercado tem as suas próprias especificidades. Por isso, o nosso objetivo não é replicar modelos, mas adaptar esse conhecimento à realidade portuguesa, contando também com a colaboração de marcas nacionais com uma forte presença no mercado e um profundo conhecimento do contexto local.
Arquitetura tecnológica e integração de sistemas
- O conceito de “visão 360º” exige uma convergência total entre software, hardware e serviços. Do ponto de vista da infraestrutura tecnológica, quais são os maiores desafios na integração de sistemas de ponto de venda (POS) com ferramentas analíticas na nuvem, garantindo simultaneamente baixa latência e segurança de dados?
O grande desafio não é tecnológico, mas sim operacional. A verdadeira complexidade reside em integrar as diferentes funções do negócio de forma simples e intuitiva para o utilizador. No entanto, quando, desde as fases de definição e desenvolvimento, o foco está nas necessidades do cliente final, mesmo que isso implique um ligeiro prolongamento dos prazos de lançamento, é possível criar soluções mais ágeis, estáveis e seguras, capazes de criar valor real desde o primeiro momento.
Um comerciante não quer gerir múltiplas plataformas. Quer dispor de uma visão integrada da sua atividade, aceder à informação mais relevante e agir de forma rápida e informada.
É por isso que acreditamos em modelos onde software, hardware, serviços e outros equipamentos presentes nos estabelecimentos comerciais funcionam de forma integrada, eliminando barreiras e permitindo uma gestão mais eficiente, segura e simplificada do ponto de venda.
- No retalho de proximidade, o tempo de inatividade (downtime) de um sistema pode significar perdas imediatas de receita. Como é que as modernas arquiteturas de sistemas integrados são desenhadas para garantir alta disponibilidade e redundância, mesmo em cenários onde a conectividade à internet possa falhar ou ser instável?
Quando a tecnologia faz parte do núcleo da atividade comercial, garantir a continuidade operacional deixa de ser uma opção para se tornar um requisito essencial. As soluções atuais devem ser concebidas para assegurar a estabilidade do negócio, minimizar interrupções e permitir que a atividade continue a funcionar, mesmo perante situações imprevistas.
No nosso caso, desenvolvemos as nossas soluções com um princípio muito claro: oferecer aos clientes a tranquilidade de saber que a sua atividade não será interrompida caso ocorra uma falha na ligação à internet. Por esse motivo, as funcionalidades críticas do ponto de venda, como os processos de venda e pagamento, assentam numa infraestrutura local que garante a continuidade da operação.
Em paralelo, esta capacidade é complementada por uma plataforma totalmente integrada de gestão, análise e reporting, baseada em serviços cloud. Esta abordagem permite disponibilizar um acesso rápido à informação, reduzir as necessidades de infraestrutura local, facilitar atualizações e melhorias contínuas e assegurar um suporte mais ágil e eficiente. Desta forma, combinamos a robustez indispensável ao funcionamento diário do comércio com a flexibilidade e escalabilidade proporcionadas pela cloud.
- Muitas PME temem que a introdução de novos ecossistemas tecnológicos exija curvas de aprendizagem complexas ou investimentos constantes em manutenção técnica. Como é que se desenvolve uma solução que seja robusta a nível de engenharia de software, mas acessível e intuitiva no dia a dia da operação de balcão?
A inovação só tem valor quando é capaz de simplificar o trabalho de quem a utiliza.
Por isso, investimos uma parte significativa dos nossos esforços no design da experiência do utilizador e na integração de funcionalidades, para que a complexidade tecnológica passe para segundo plano e o comércio disponha de ferramentas intuitivas, robustas e fáceis de utilizar.
A esta filosofia juntamos um modelo de negócio assente na transparência e em relações de longo prazo, com custos claros desde o primeiro momento. Acreditamos que a melhor tecnologia é aquela que cria valor real para o negócio, sem criar barreiras, seja na sua utilização, seja no investimento necessário para a sua adoção.
Gestão baseada em dados (Data & Analytics) no retalho
- A gestão baseada em dados é comum nas grandes cadeias de distribuição, mas ainda escassa no retalho independente. Como é que as ferramentas analíticas integradas podem democratizar o acesso a relatórios de performance? De que forma concreta os dados de inventário e de perfil de consumo em tempo real mudam a tomada de decisão de um pequeno retalhista?
Durante muitos anos, a gestão baseada em dados esteve reservada às grandes cadeias de retalho. Hoje, essa realidade mudou.
Os dados tornaram-se um ativo fundamental para todo o tipo de negócios. A necessidade de conhecer melhor as vendas, otimizar as compras e compreender o comportamento dos clientes é hoje uma exigência crescente do mercado. Além disso, as novas gerações estão a acelerar esta transformação, adotando uma visão cada vez mais digital e orientada para a análise de dados.
A tecnologia permite que um comércio independente saiba, em tempo real, quais os produtos com melhor desempenho, como evolui a procura e onde existem oportunidades de melhoria.
Os dados deixam, assim, de ser um elemento meramente técnico para se tornarem uma ferramenta prática que ajuda a aumentar as vendas, otimizar recursos e tomar decisões com maior confiança. Esta democratização do acesso à informação representa uma das grandes oportunidades para o comércio de proximidade.
- A previsão de procura e a otimização de stock são críticas para a rentabilidade. Que tipo de algoritmos ou modelos analíticos as vossas soluções implementam para ajudar o comerciante a antecipar ruturas de stock ou a evitar a acumulação de inventário de baixa rotação?
A gestão de stocks tem um impacto direto na rentabilidade do negócio. Quando um comerciante dispõe de informação fiável sobre os hábitos de consumo, as tendências de vendas ou a rotatividade dos produtos, consegue antecipar melhor a procura e evitar tanto ruturas de stock como níveis excessivos de inventário.
O nosso objetivo é disponibilizar informação e ferramentas que permitam tomar decisões mais ágeis, fundamentadas e seguras. Para isso, desenvolvemos continuamente modelos preditivos capazes de antecipar necessidades de compra, estimar fluxos de clientes e analisar outras variáveis essenciais para a gestão diária do comércio. Desta forma, ajudamos os negócios a otimizar recursos, melhorar o planeamento e responder com maior rapidez às mudanças do mercado.
- Com a centralização de dados de vendas, faturação e comportamento de compra, as exigências de conformidade com o RGPD aumentam. Como é garantida a privacidade dos dados dos clientes e a segurança ciberbética destas soluções integradas instaladas em redes locais de PME?
A confiança é um dos principais pilares de qualquer processo de digitalização.
A proteção da informação e o cumprimento dos requisitos legais devem estar presentes desde a fase de conceção das soluções. Os comerciantes precisam de ter a certeza de que tanto os seus dados como os dos seus clientes são geridos de acordo com os mais elevados padrões de segurança.
Por isso, investimos continuamente em cibersegurança e incorporamos, de forma nativa, múltiplos mecanismos de proteção nas nossas plataformas, sem que isso represente custos adicionais para os nossos clientes. A nossa proposta de valor assenta em soluções completas, nas quais a segurança não é um elemento adicional, mas sim uma componente essencial do serviço.
Desde as funcionalidades mais básicas até aos ambientes de gestão mais avançados, trabalhamos para garantir a integridade da informação, a continuidade operacional e a confiança dos nossos clientes, fatores fundamentais para o sucesso de qualquer estratégia de digitalização.
Automação operacional e escalabilidade futura
- A automação de processos visa mitigar os erros operacionais humanos (erros de caixa, falhas na contagem de stock, inconsistências na faturação). Tem dados ou métricas que quantifiquem o impacto da transição de um sistema manual/fragmentado para um sistema integrado na redução desses erros e no aumento da margem operacional?
A automatização tem um impacto direto na eficiência operacional, eliminando tarefas manuais, reduzindo erros e permitindo que os profissionais dediquem mais tempo às atividades que verdadeiramente acrescentam valor ao negócio e aos seus clientes.
Um bom exemplo é a gestão de numerário. Em muitos estabelecimentos comerciais, processos como o fecho de caixa, a contagem de numerário ou a reconciliação de caixa continuam a consumir tempo valioso e representam uma potencial fonte de erros. Graças às soluções inteligentes de gestão de numerário, estas tarefas podem ser automatizadas, reforçando o controlo, aumentando a segurança e reduzindo os erros operacionais.
Na Logista Strator, integramos este tipo de tecnologias numa proposta de valor global para o retalho, procurando que a automatização faça parte de um ecossistema conectado e orientado para otimizar a gestão diária do negócio.
No entanto, o verdadeiro valor da automatização não reside apenas na poupança de 10% ou 20% do tempo dedicado a uma determinada tarefa, embora esses benefícios sejam perfeitamente mensuráveis. O mais importante é conseguir uma integração eficaz da tecnologia nos processos do negócio. Quando isso acontece, tarefas como o fecho automático da caixa, com total rigor e sem discrepâncias no final do dia, deixam de ser uma preocupação e libertam tempo para aquilo que realmente faz a diferença: prestar um melhor serviço ao cliente e dedicar mais atenção ao crescimento do negócio.
- O retalho de proximidade necessita de soluções que acompanhem o seu crescimento, e não de sistemas rígidos. Como está estruturada a escalabilidade destas plataformas? É possível um comerciante começar com uma infraestrutura básica e acoplar novos módulos analíticos ou de e-commerce à medida que o volume de negócios cresce?
Sem dúvida.
Acreditamos que a tecnologia deve acompanhar o crescimento do negócio. Um comerciante pode começar por adotar uma solução básica para responder às necessidades mais imediatas e ir incorporando novas funcionalidades à medida que o negócio evolui.
O essencial é acompanhar o cliente ao longo de todo o seu percurso, evitando que tenha de substituir sistemas ou enfrentar projetos complexos sempre que pretende dar mais um passo na sua transformação digital.
- Para concluir, a entrada da Logista Strator no mercado nacional ocorre num momento de transformação económica. Qual é a vossa visão a médio prazo para o futuro do retalho físico em Portugal? O comércio de proximidade continuará a basear-se na relação humana, ou a tecnologia vai transformar por completo a experiência de compra física?
Sou muito otimista quanto ao futuro do comércio de proximidade em Portugal.
Na Logista Strator, estamos convictos de que a tecnologia não vai substituir a relação humana; pelo contrário, vai reforçá-la. O comércio continua a ser, acima de tudo, uma atividade feita de pessoas para pessoas, quer o cliente compre numa loja física, quer o faça através de um canal digital.
Os negócios que melhor se adaptarem aos próximos anos serão aqueles que conseguirem combinar proximidade, conhecimento do cliente e ferramentas tecnológicas que lhes permitam operar de forma mais eficiente, aumentar a sua competitividade e proporcionar uma melhor experiência de compra.
A tecnologia não substitui a essência do comércio local, nem as pessoas. O seu papel é dar aos comerciantes mais capacidade para responder às novas expectativas dos consumidores e competir em igualdade de circunstâncias num mercado cada vez mais exigente.
O futuro não será uma escolha entre tecnologia e proximidade. O futuro será a tecnologia ao serviço da proximidade.
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