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Lagarde alerta para risco da dependência europeia da IA

Presidente do BCE defende mais capacidade computacional e modelos europeus para reduzir uma dependência que considera um risco para a soberania económica.

Alfredo Beleza por Alfredo Beleza
15/09/2026
Em Inteligência Artificial

A dependência europeia da IA pode tornar-se um risco para a soberania económica do continente à medida que a inteligência artificial se integra em setores críticos. O alerta foi feito por Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE), que defende mais capacidade computacional, modelos desenvolvidos na Europa e investimento capaz de reduzir a exposição a fornecedores estrangeiros.

A dependência europeia da ia pode tornar-se um risco para a soberania económica
Imagem conceitual gerada por IA

Num discurso proferido em Viena a 14 de setembro, Lagarde argumentou que a Europa precisa de acelerar a adoção da IA para aumentar a produtividade, mas não pode fazê-lo através de uma dependência quase integral de tecnologia importada. A posição aprofunda o alerta que a responsável já tinha feito em agosto sobre a necessidade de criar melhores condições para a inteligência artificial na economia europeia.

O problema está sobretudo na concentração da infraestrutura e dos modelos mais avançados. Segundo os dados citados por Lagarde, os Estados Unidos alojam cerca de 75% da capacidade mundial de computação para IA, enquanto a Europa representa apenas 5%.

A presidente do BCE refere ainda que os Estados Unidos produziram 59 modelos de IA considerados relevantes em 2025 e a China 35, enquanto França e Reino Unido produziram apenas um cada. Os números são atribuídos no discurso ao AI Index 2026 da Universidade de Stanford.

Dependência europeia da IA cria um novo risco económico

Lagarde distingue esta dependência das relações comerciais tradicionais. Uma interrupção no fornecimento de uma matéria-prima pode atingir determinadas indústrias, mas a IA deverá passar a estar presente simultaneamente em transportes, saúde, banca, alfândegas, administração fiscal e outros serviços.

Nesse cenário, uma alteração das condições de acesso aos modelos ou uma retirada do serviço poderia produzir efeitos em vários setores ao mesmo tempo.

A presidente do BCE considera que esta situação criaria uma capacidade de pressão externa que a Europa não enfrentou anteriormente nas suas relações comerciais. Essa dependência poderia adquirir relevância em negociações sobre matérias como tarifas ou tributação digital.

O argumento não pressupõe que os Estados Unidos ou outro fornecedor estejam a preparar uma interrupção dos serviços. Lagarde apresenta o problema como um risco estratégico que cresce à medida que economias e serviços críticos passam a depender da mesma infraestrutura tecnológica estrangeira.

Há ainda uma segunda preocupação: os dados. A utilização de modelos de terceiros obriga muitas empresas a processar informação empresarial em sistemas controlados por fornecedores sujeitos a outras jurisdições. De acordo com o relatório do Eurostat sobre a utilização de inteligência artificial nas empresas europeias, a proteção de dados continua entre os principais obstáculos apontados pelas empresas que ponderaram adotar IA mas acabaram por não avançar.

Europa precisa de mais centros de dados e modelos próprios

A primeira resposta proposta por Lagarde passa pelo aumento da capacidade computacional instalada na Europa.

O continente já tem capacidade insuficiente para responder à procura atual e, segundo um estudo encomendado pela Comissão Europeia citado no discurso, o défice poderá passar de cerca de 3 GW em 2025 para aproximadamente 20 GW em 2036. O BCE estima que fechar essa diferença poderá exigir até 600 mil milhões de euros, incluindo os processadores utilizados nos centros de dados.

As gigafábricas de IA promovidas pela União Europeia são consideradas um primeiro passo, mas Lagarde sustenta que cobrirão apenas parte das necessidades previstas.

O crescimento da infraestrutura localizada no continente também não significa, por si só, maior autonomia tecnológica. A Google, por exemplo, anunciou recentemente um investimento de pelo menos 13 mil milhões de euros na Finlândia para expandir centros de dados e outra infraestrutura necessária aos seus serviços de IA. A capacidade ficará instalada na Europa, mas continuará sob controlo de uma empresa norte-americana.

A segunda componente passa pelos modelos. A presidente do BCE defende que a Europa precisa de desenvolver sistemas suficientemente capazes para a maioria das tarefas e que possam funcionar sobre infraestrutura europeia.

O continente já dispõe de empresas como a francesa Mistral AI. A tecnológica reforçou recentemente os recursos disponíveis para investigação e capacidade computacional depois de obter três mil milhões de euros numa ronda de financiamento.

Lagarde reconhece, contudo, que a Europa não conseguirá controlar toda a cadeia tecnológica. Os minerais críticos, o fabrico de semicondutores, os sistemas de litografia e os modelos de IA estão distribuídos entre diferentes regiões.

A estratégia proposta não é, por isso, a autossuficiência. A Europa deverá aumentar a sua capacidade própria e preservar posições onde já possui tecnologia difícil de substituir, como os sistemas de litografia produzidos pela ASML, essenciais para o fabrico dos semicondutores mais avançados.

IA pode aumentar produtividade europeia até 4%

Reduzir a dependência não significa travar a adoção da tecnologia. Pelo contrário, Lagarde considera que a Europa precisa de avançar mais depressa.

Estimativas do BCE indicam que uma adoção rápida da inteligência artificial poderá aumentar o nível de produtividade europeu em até 4% ao longo de uma década. O impacto ganha relevância numa economia que enfrenta o envelhecimento da população e uma redução prevista da população ativa superior a um milhão de pessoas por ano durante os próximos 25 anos. O BCE tem analisado esta relação entre adoção e produtividade, incluindo num estudo recente sobre a utilização de IA pelos trabalhadores da zona euro.

As empresas da zona euro deverão destinar cerca de 10% do investimento total à IA em 2026, enquanto mais de metade dos trabalhadores já afirma utilizar estas ferramentas profissionalmente. Ainda assim, segundo o BCE, o investimento digital norte-americano cresceu aproximadamente duas vezes mais depressa do que o da zona euro nos últimos dois anos.

A questão colocada pelo BCE é, portanto, dupla. A Europa precisa da inteligência artificial para melhorar a produtividade, mas uma adoção baseada quase exclusivamente em infraestrutura e modelos estrangeiros pode aumentar uma dependência que se torna mais difícil de corrigir à medida que a tecnologia entra em setores essenciais.

Para Lagarde, a resposta exige também mobilizar capital europeu. As famílias do continente poupam cerca de 1,4 biliões de euros por ano, mas uma parte relevante desse dinheiro acaba por financiar empresas tecnológicas fora da Europa. Só as famílias da zona euro detêm aproximadamente 440 mil milhões de euros em empresas tecnológicas norte-americanas.

A presidente do BCE considera que a inteligência artificial pode tornar-se um dos projetos capazes de justificar mercados de capitais europeus mais integrados. A estratégia da Comissão Europeia para a União da Poupança e dos Investimentos procura precisamente canalizar uma parcela maior da poupança europeia para investimento produtivo dentro da União.

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Tags: dependência europeia da IA
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Alfredo Beleza

Alfredo Beleza

É o fundador e director editorial do TecheNet. Com carreira internacional como CEO e director comercial e de marketing em empresas em Portugal, na Suíça e no Brasil, desenvolveu uma perspectiva aprofundada sobre a intersecção entre tecnologia, negócios e mercados globais. Com formação em Gestão, Administração e Marketing pela Webster University, na Suíça, criou o TecheNet como um projecto editorial comprometido com o rigor e a imparcialidade da informação tecnológica em língua portuguesa.

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